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O homem pode ser pai em qualquer idade?

Especialista em reprodução discute o impacto da idade na fertilidade masculina e no risco de condições que podem afetar os filhos, caso do autismo

Por Dr. Marcelo Vieira, urologista* - 28 set 2019, 11h06

No começo do século 20, a paternidade e a maternidade eram mais comuns na segunda década de vida. Famílias eram formadas por pais jovens, nos seus 20 anos ou até antes disso. Mas esse quadro mudou: a evolução socioeconômica propiciou à população viver mais e envelhecer, o que não só ampliou a expectativa de vida ao redor do mundo (sobretudo em países desenvolvidos) como, nas últimas décadas, propiciou um adiamento na paternidade e na constituição da família.

Sabíamos que o tempo é muito importante para a maternidade, uma vez que a mulher tem uma diminuição da capacidade reprodutiva com o passar dos anos até perdê-la na menopausa. Também já tínhamos consciência de que a maternidade tardia está associada a algumas doenças e ao crescimento no número de crianças com síndrome de Down, por exemplo.

Esse conceito não existia para a paternidade. Havia a impressão de que a idade do pai não teria reflexo sobre a fertilidade ou o risco de problemas na prole. Porém, hoje contamos com evidências de que esperar para ser pai também tem suas consequências. Estudos epidemiológicos revelam que, após os 40 anos de idade, a qualidade do sêmen piora e o tempo para obter a gestação aumenta significativamente em relação ao dos homens mais jovens.

Conexão com autismo e doenças psiquiátricas

Além da maior dificuldade em ser pai, a ciência aponta uma relação entre uma maior idade paterna e o aumento da incidência, nos filhos, de esquizofrenia e doenças do espectro autista, condições caracterizadas por atrasos no desenvolvimento cognitivo e psicossocial que possuem origem genética.

A maior incidência de autismo entre filhos de pais com mais de 50 anos tem sido documentada em vários trabalhos epidemiológicos. Independentemente dos números, que variam entre as populações estudadas, continuamos observando essa ligação. Como são pesquisas que não permitem comprovar causa e efeito, além da idade paterna, outras variáveis podem ser consideradas, como a idade materna, história familiar de doenças psiquiátricas e fatores ambientais e comportamentais.

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Outra doença mais frequente em filhos de pais mais velhos, a esquizofrenia é marcada por delírios e pensamentos persecutórios. O primeiro estudo deste século sobre essa conexão mostra um risco quase três vezes maior de pais acima dos 50 anos terem filhos com a condição. Uma análise de várias outras pesquisas mais recentes sobre o tema, publicada em 2011, corrobora os achados iniciais.

Os genes explicam?

Podemos ter uma explicação genética para a maior ocorrência dessas doenças baseada no processo de produção dos espermatozoides (a espermatogênese). Os espermatozoides são produzidos diariamente a partir de uma célula germinativa chamada espermatogônia. Espermatogônias replicam-se a cada 16 dias, resultando em 200 divisões aos 20 anos e atingindo 660 aos 40 anos.

A cada divisão, o genoma celular é copiado e, nesse processo, pode ocorrer um erro, capaz de ser transmitido para a próxima geração. Estima-se que aos 20 anos o homem passe ao filho 25 dessas mutações (as falhas nas cópias dos genes) e esse número suba para 65 aos 40 anos.

Todos esses dados e estudos atestam os riscos de se adiar demais a paternidade, mas é preciso esclarecer que não é somente a idade que interfere na origem dessas doenças. Os problemas e defeitos de nascimento envolvendo uma idade paterna mais avançada dependem de uma equação complexa que ainda engloba a função sexual, o estilo de vida, alterações hormonais e outras questões genéticas.

Certamente, com o avanço das pesquisas, teremos mais informações sobre o assunto no futuro, mas já fica o alerta para os homens e os profissionais de saúde. A preocupação com a idade não deve ficar restrita a um só lado do casal.

* Dr. Marcelo Vieira é urologista e coordenador da Área de Reprodução da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)

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