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Coronavírus: testes rápidos em farmácias confundem mais do que informam

Em artigo para a Revista Questão de Ciência, cientista discute os riscos da liberação de testes rápidos para detectar o coronavírus em farmácias

Por Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência* - Atualizado em 8 Maio 2020, 12h34 - Publicado em 29 abr 2020, 13h16

A Agência Nacional de Vigiância Sanitária (Anvisa) decidiu liberar a realização dos chamados “testes rápidos” para detectar anticorpos do novo coronavírus (Sars-CoV-2) em farmácias. A nota técnica publicada pela agência determina que os resultados dos testes realizados nesses estabelecimentos deverão ter “registro e rastreabilidade” garantidos, e os resultados devem ser informados às autoridades. Mas, afinal, o que os resultados desses exames dizem?

Não muita coisa. A própria nota da Anvisa sobre a liberação adverte para as limitações do procedimento. Diz o texto: “O diagnóstico de Covid-19 não deve ser feito por uma avaliação isolada dos resultados dos testes rápidos. No estágio inicial da infecção, falsos negativos são esperados, em razão da ausência ou de baixos níveis dos anticorpos e dos antígenos de Sars-CoV-2 na amostra. E o resultado do teste positivo indica a presença de anticorpos contra o Sars-CoV-2, o que significa que houve exposição ao vírus, não sendo possível definir apenas pelo resultado do teste se há ou não infecção ativa no momento da testagem”.

Existe muita confusão, na opinião pública, entre os “testes rápidos” que permitiram à Coreia do Sul rastrear e controlar a epidemia com grande eficácia, e os “testes rápidos” disponíveis no Brasil. A verdade é que se tratam de tecnologias muito diferentes, com finalidades e eficácia muito diversas. Vamos entender isso.

Testes rápidos com RNA ou anticorpos

Existem dois tipos de testes chamados “rápidos” para Covid-19. O teste rápido molecular, que foi usado na Coreia do Sul, é uma variação rápida do exame considerado o padrão ouro para detecção do material genético (RNA) do vírus, o RT-PCR. Este teste, feito do modo convencional, demora algumas horas. Suas versões rápidas, vendidas por empresas como a americana Abbot ou a sul-coreana Seegene, reduzem esse tempo.

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Ambos, o lento e o rápido, são testes precisos e feitos a partir de uma amostra do nariz e/ou garganta do paciente, coletada por um “swab”, o cotonete de haste longa que precisa ser introduzido na garganta. Para fazer essa coleta, é necessário treinamento especializado e equipamento de proteção individual (EPI). Requer um laboratório adequado, e profissionais capacitados.

Nenhum teste é perfeito, e fatores que podem interferir, gerando um falso negativo (isto é, uma falha do teste em detectar o RNA), incluem erros na coleta – é difícil usar o swab, e o procedimento é extremamente incômodo para o paciente – e também acondicionamento inadequado da amostra. Ora, o RNA é uma molécula que degrada com muita facilidade.

Como os países que usaram esse teste com sucesso fizeram para superar esses problemas? Testaram várias vezes o mesmo paciente. E usaram o resultado para isolar os pacientes e rastrear e testar seus contatos, gerando assim um retrato da progressão da pandemia.

Este aí, o RT-PCR, é o “teste rápido” que não temos no Brasil. Por aqui, temos só a versão clássica desse exame, que é lenta, feita exclusivamente em laboratórios e em hospitais capacitados.

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O outro “teste rápido”, que é o que a Anvisa autorizou nas farmácias, é o sorológico, que mede anticorpos contra a Covid-19. Detecta dois tipos de anticorpos, o IgM, que começa a ser produzido aproximadamente 12 dias após a infecção, e o IgG, que passa a ser produzido depois de aproximadamente três semanas, e perdura no organismo, conferindo o que chamamos de memória imunológica. Após algumas semanas, o IgM diminui, e com o tempo sobra só o IgG.

Esse teste não detecta a presença do vírus, ele só pode dizer se a pessoa já teve contato com o vírus e desenvolveu anticorpos em número detectável. Por ser mais barato e fácil de usar à primeira vista, parece muito atraente. Mas é preciso esclarecer qual sua real utilidade. O teste rápido pode ajudar a mapear quem já teve a doença. Mas não serve para fazer diagnóstico preciso, nem para liberar pessoas da quarentena.

As limitações do teste rápido sorológico

Como mede anticorpos, ele só vai funcionar depois de 10-12 dias da infecção. Assim, perde a janela inicial, onde pacientes assintomáticos ou com sintomas leves estão transmitindo o vírus.

A sensibilidade (capacidade do teste de evitar falsos negativos) e a especificidade (capacidade de evitar falsos positivos) desses testes variam muito. Existem diversas marcas no mercado, e, como não há regulamentação e validação adequadas, não temos como garantir a qualidade do teste. Reino Unido e Espanha compraram lotes de testes da China que não funcionavam como prometido.

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O transporte dos kits de teste sem o acondicionamento adequado pode degradar reagentes, e até temperatura e umidade do ar podem fazer diferença.

Finalmente, a interpretação dos resultados requer cuidado. Um resultado negativo pode indicar que a pessoa nunca teve contato com o vírus, ou pode ser erro do teste (falso negativo). Um resultado positivo para IgM pode acontecer quando a pessoa ainda está com o vírus, ou algumas semanas depois do fim da doença. Um resultado positivo para IgG sugere que a pessoa teve o vírus e se recuperou, mas não garante imunidade.

Sabendo de tudo isso, para que servem e para que não servem os testes rápidos disponíveis no Brasil?

Diagnóstico precoce: não servem. A janela de produção de IgM varia muito e a quantidade produzida também. Mais: a sensibilidade e especificidade podem gerar falsos negativos e falsos positivos. Além disso, a sensibilidade aumenta com o tempo. Em uma população de 10 mil pessoas, por exemplo, o teste rápido mais bem avaliado do mercado, com sensibilidade de 85% e especificidade de 99%, se usado após três semanas da infecção, pode gerar 1 500 falsos negativos e 100 falsos positivos. Os falsos negativos, se mal interpretados, podem dar uma falsa sensação de segurança para a pessoa, que se não for bem orientada, pode relaxar medidas de segurança e de isolamento.

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Auxiliar no diagnóstico hospitalar: podem ser úteis. Considerando que muitos hospitais não dispõem de RT-PCR, e que a pessoa internada apresenta sintomas, diagnóstico clínico, e provavelmente, alta taxa de anticorpos, o teste rápido poderia ser utilizado para confirmar o diagnóstico. Neste caso, a informação é necessária para gerar dados sobre a real taxa de internação e mortalidade.

Liberar individualmente pessoas da quarentena: perigosos. Nesse caso, os falsos positivos podem sentir-se seguros quando, na verdade, nem têm anticorpos. E mesmo no caso dos que realmente são positivos, ainda não sabemos o suficiente para tomar a decisão. Ainda precisamos compreender se esses anticorpos realmente atacam o vírus com sucesso, e se a imunidade é duradoura.

Medir imunidade de rebanho: pode ser úteis, mas não agora. Enquanto a curva da doença está em sua fase exponencial, pouca gente tem anticorpos e o teste vai gerar uma resposta imperfeita. Quem quiser um exemplo numérico bem dramático do tipo de distorção que os falsos positivos ou negativos podem causar deve visitar o blog do médico Ricardo Schnekenberg. Além disso: como os testes de farmácia serão pagos, com custo médio estimado em 200 reais, esta parcela específica não será representativa da população.

A intenção aparente do governo federal, de apostar nesta ferramenta para embasar “cientificamente” o relaxamento da quarentena, é preocupante. Instrumentos científicos só são bons guias de políticas públicas quando reconhecemos e respeitamos suas limitações.

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*Natalia Pasternak é pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, presidente do Instituto Questão de Ciência e coautora do livro “Ciência no Cotidiano” (Editora Contexto). Este conteúdo foi publicado originalmente na Revista Questão de Ciência

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