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12 produtos do dia a dia que podem desregular seus hormônios

Eles são bem comuns e, segundo a ciência, podem provocar estragos diversos no organismo, que vão de obesidade a câncer, passando por distúrbios na tireoide

Por André Biernath Atualizado em 2 ago 2018, 16h42 - Publicado em 23 dez 2014, 07h30

Você pode nunca ter ouvido falar em desreguladores endócrinos, mas com certeza já esteve diante de alguns deles. A ciência está descobrindo que produtos do nosso cotidiano, como esmaltes, televisão e até água encanada, escondem substâncias capazes de alterar o funcionamento do nosso corpo.

Os disruptores endócrinos são compostos artificiais ou naturais que interferem na ação dos nossos hormônios e nos expõem a doenças. Hoje, há suspeitas sobre mais de 800 misturas químicas.

“Elas estão na indústria e na agricultura e entram no corpo pela ingestão de água, de alimentos e pela respiração”, diz a química Débora Santos, da Universidade Federal de Pernambuco. Os efeitos dos tais desreguladores podem demorar décadas para aparecer. E existem situações em que o problema só dá as caras nas gerações futuras.

Foi o que aconteceu com o dietilestilbestrol, remédio prescrito entre os anos 1940 e 1970 para gestantes. “Anos depois, as filhas das mulheres que o utilizaram desenvolveram câncer e infertilidade”, conta o toxicologista Anthony Wong, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Só após 30 anos de uso e muitas vidas afetadas, sua venda foi proibida. Mas é provável que a ameaça não se restrinja aos fármacos. Que o ar que respiramos e a comida que engolimos também estejam “contaminados”.

Na sequência, listamos os 12 disruptores tidos como mais perigosos, segundo pesquisa do Environmental Working Group, uma entidade especializada em saúde ambiental:

  • PBDE

    (retardantes de chamas, isto é, evitam que os equipamentos peguem fogo)

    Encontrado em – Eletrônicos (celular, televisão, videogame), móveis, carpetes, colchões e alguns travesseiros

    Acusação – Distúrbios na tireoide, infertilidade feminina e problemas neurológicos em crianças

     

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    Dioxinas

    Encontradas em – Pesticidas como o DDT e no branqueamento químico do papel

    Acusação – Infertilidade, aborto, diabetes, endometriose e déficits imunológicos

     

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    Atrazina

    Encontrada em – Herbicida para as plantações de milho e cana-de-açúcar

    Acusação – Infertilidade e câncer

    Chumbo

    Encontrado em – Tintas, cigarro e água encanada

    AcusaçãoDistúrbios na tireoide

     

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    Bisfenol A

    Encontrado em – Alguns tipos de plástico e no revestimento de enlatados

    Acusação – Produção de espermatozoides defeituosos, puberdade precoce, câncer, obesidade, diabete e doenças cardiovasculares

     

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    Perclorato

    Encontrado em – Combustível de foguetes espaciais e fogos de artifício

    Acusação – Distúrbios na tireoide

     

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    Arsênico

    Encontrado em – Pesticidas, alimentos e água encanada

    Acusação – Câncer de pele, bexiga, pulmões e alterações sexuais

     

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    Mercúrio

    Encontrado em – Peixes, frutos do mar e usinas de energia movidas a carvão

    Acusação – Redução do QI de crianças, problemas no ciclo menstrual e no pâncreas

     

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    Ftalato

    Encontrado em – Cosméticos (esmaltes e perfumes), pavimentação de ruas, cortinas de chuveiro, couro sintético e vinil

    Acusação – Anormalidades genitais, interferência em hormônios como testosterona e estrogênio e no desenvolvimento das mamas

     

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    Químicos perfluorados

    Encontrados em – Panelas antiaderentes, roupas, carpetes e capas de chuva

    Acusação – Distúrbios na tireoide e infertilidade

     

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    Compostos organofosforados

    Encontrados em – Inseticidas

    Acusação – Déficit de testosterona e problemas na gestação (pré-eclâmpsia e aborto)

     

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    Dietilenoglicol

    Encontrado em – Produtos de higiene pessoal e solventes industriais

    Acusação – Redução na movimentação dos espermatozoides

     

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    A faixa etária

    Ao que tudo indica, em algumas faixas etárias a exposição aos desreguladores endócrinos é mais danosa. Os fetos, os recém-nascidos e as crianças pequenas, com menos de 3 anos, teriam maior suscetibilidade a eles. Nesse período, o metabolismo está acelerado e o trabalho dos hormônios é importantíssimo para o desenvolvimento corporal e cognitivo”, contextualiza o pediatra Paulo Solberg.

    Os primeiros anos, período de amplo crescimento, são a janela de vulnerabilidade que mais inquieta os médicos. Tanto que compostos com maior número de evidências de seus malefícios começam a ser proibidos ou regulados em vários países. É o caso do bisfenol A de alguns plásticos, acusado de doenças cardíacas, câncer e infertilidade. A substância foi banida das mamadeiras em 2011 no Brasil, embora ainda marque presença em outros recipientes.

    Os especialistas também estão de olho no fato comum de a garotada iniciar a puberdade muito cedo. O aparecimento de características adultas, como o surgimento de mamas e pelos pubianos, acontece em faixas etárias cada vez mais tenras. Esse processo é documentado há 150 anos e se deve à melhora na nutrição e na qualidade de vida das pessoas.

    Mas o que chama a atenção mesmo são as situações patológicas, em que o surgimento dos caracteres sexuais ocorre antes dos 8 anos na garota ou dos 9 anos no garoto. “Estudos sugerem que os disruptores endócrinos estão associados a essa precocidade”, relata o endocrinologista Ricardo Meirelles, da Sbem.

    Na zona do agrião

    Não faltam investigações sobre a ligação desses componentes da vida moderna com disfunções na fertilidade e danos ao aparelho reprodutor. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo e da Fundação Oswaldo Cruz constatou que em áreas mais poluídas há uma redução do nascimento de homens. Parece que o cromossomo Y, que define o sexo masculino, é sensível aos agentes químicos da poluição atmosférica.

    “Por ora, não podemos afirmar que a diminuição de homens é visível na população, mas isso já está demonstrado em laboratório”, relata o químico sueco Ake Bergman, coordenador do consenso sobre desreguladores endócrinos da Organização Mundial da Saúde e do Programa Ambiental das Nações Unidas.

    O suplício masculino está longe de terminar aí. Revisões científicas vêm apontando uma redução no tamanho do pênis em algumas populações. Um levantamento da Universidade de Pádua, na Itália, calcula um encolhimento de 9,7 para 8,9 centímetros na média do comprimento do órgão sexual de adultos jovens no período de 2005 a 2010. Há provas, em modelos animais, de que os disruptores estariam por trás do fenômeno.

    As taxas de fecundidade também são motivo de apreensão em todo o mundo – não à toa, mais de 54 países adotam políticas de incentivo à fertilidade. “Em um estudo feito em uma fábrica no exterior, os homens que entravam em contato com retardantes de chamas [substâncias incorporadas a equipamentos eletrônicos] tinham uma redução considerável na quantidade de espermatozoides no sêmen”, exemplifica o farmacêutico Daniel Junqueira Dorta, da Sociedade Brasileira de Toxicologia.

    Até a água que chega às nossas torneiras está sub judice da ciência. Isso porque os anticoncepcionais usados pelas mulheres são eliminados pela urina. “E o tratamento de esgoto não é capaz de remover totalmente essas moléculas, que voltam para a natureza”, alerta a toxicologista Gisela Umbuzeiro, da Universidade Estadual de Campinas. A pesquisadora detectou esses hormônios em reservatórios do interior paulista. “Eles podem aumentar a incidência de infertilidade nas gerações futuras”, avisa. Tem mais: o excesso de substâncias seria capaz de promover, nas águas sem saneamento, o crescimento de algas que liberam toxinas causadoras de câncer.

    E outras encrencas

    A epidemia global de obesidade também teria sido inflada por esses bagunceiros químicos invisíveis. É no que acredita uma parcela considerável de cientistas – na visão deles, o sedentarismo e a dieta hipercalórica sozinhos não são suficientes para justificar o boom de gente acima do peso. “Os desreguladores endócrinos agiriam em receptores nos adipócitos, estimulando o acúmulo de gordura dentro deles”, sintetiza o endocrinologista Renan Montenegro Junior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.

    Os químicos com ação estrogênica também afetariam componentes do sistema nervoso central e do fígado que, indiretamente, reduziriam a secreção de leptina, o hormônio que controla nosso apetite. Resultado: mais fome e ganho de peso. E, como sabemos, com os quilos extras vêm doenças como hipertensão, diabete, câncer…

    Por falar em câncer, diversos artigos acadêmicos ligam as substâncias químicas a tumores nas mamas, na próstata e nos testículos. “Como a célula cancerosa possui muitos receptores hormonais em sua superfície, os interferentes endócrinos amplificariam o alcance da doença”, hipotetiza o biólogo Sebastião Taboga, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto. Pelo que foi descoberto até agora, os desreguladores não seriam o ator principal, mas atuariam a fim de ampliar os estragos causados pela enfermidade.

    Para fechar a lista de interações perigosas, a tireoide, glândula na região do pescoço que orquestra a velocidade do metabolismo, é afetada em cheio por retardantes de chamas, bisfenol, ftalatos e companhia ilimitada. “Os disruptores de ação similar ao estrogênio podem propiciar uma resposta autoimune na glândula, diminuindo a fabricação dos hormônios tireoidianos”, explica a endocrinologista Tânia Bachega. A preocupação é maior nas gestantes: nelas, uma tireoide lenta aumenta o risco de desordens neurocomportamentais, como dislexia, retardo mental, autismo e déficit de atenção, em seus bebês.

    Quem poderá nos defender?

    Apesar de o cenário não ser nada animador, é importante ressaltar que o universo dos disruptores endócrinos está lotado de incertezas. “As evidências vêm de estudos epidemiológicos e de experiências com animais, mas não há provas concretas, que relacionem causa e efeito”, reconhece a endocrinologista Evanthia Diamanti Kandarakis, professora da Universidade de Atenas, na Grécia, e autora das recomendações da Sociedade Americana de Endocrinologia. Há, inclusive, críticas sobre a quantidade elevada de químicos utilizados em pesquisas com cobaias, superior aos níveis encontrados no ambiente.

    Os cientistas têm dificuldades em realizar experiências que envolvam seres humanos como voluntários. “É impraticável expor uma pessoa a substâncias nocivas”, lembra o endocrinologista Alexandre Hohl da Sbem. O próprio código de ética em pesquisa proíbe experiências que colocam em risco o bem-estar de alguém. Isso sem contar que as doenças surgiriam não por um único disruptor, mas pela ação conjunta de vários deles – e ao longo de anos.

    Enquanto não temos um veredicto, certas atitudes minimizam o contato com os químicos. “No mercado, priorize garrafas de aço e recipientes de vidro em vez de itens de plástico, prefira frutas e verduras frescas no lugar de comida em conserva e não coloque no micro-ondas recipientes com bisfenol”, orienta a endocrinologista Poli Mara Spritzer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

    Essas medidas simples devem ser acompanhadas de uma ampla discussão acerca do assunto, que envolva setores da sociedade, da política, da indústria e da academia. O objetivo em comum é cortar relações com os compostos que sabidamente desregulam nossa rede de hormônios. Afinal, vale tudo para que o futuro não seja tão sombrio.

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