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Unha (nem tão) dura de roer

Por mais que a mania de morder as unhas pareça irresistível para algumas pessoas, dá pra controlá-la. E isso traz vantagens que vão além da estética

A ansiedade é famosa por deflagrar compulsões. Quando aflitas, certas pessoas sentem a necessidade de comer mesmo sem fome, ou, então, de comprar todo o mostruário de uma loja de roupas apesar de estarem com o armário abarrotado. Já outras… sim, elas roem unha. E segundo um levantamento da Universidade da Breslávia, na Polônia, essas outras não são poucas: entre 20 e 30% da população em geral cultiva o hábito.

Acontece que a onicofagia — nome dado a esse vício — não desgasta apenas a aparência das mãos. A obsessão, na maioria das vezes inconsciente, acarreta chateações das mais variadas. “Quem rói unha está exposto a infecções e danos no esmalte dentário e na articulação da mandíbula”, introduz a psicóloga Alessandra Pereira Lopes, do Centro de Avaliação, Atendimento e Educação em Saúde Mental, no Rio de Janeiro.

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Vamos destrinchar cada um desses pontos. Pra começar, pôr a mão na boca aumenta em 80% o risco de disseminação de vírus e bactérias pelo corpo, o que faz crescer também a possibilidade de a gripe e outras infecções surgirem. Nesse contexto, é comum que os germes se aglomerem na pele ao redor das unhas, provocando dor e inchaço — a isso se dá o nome técnico de paroníquia.

“Nossa boca é muito contaminada”, ensina a dermatologista Tatiana Gabbi, responsável pelo Departamento de Cabelos e Unhas da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Logo, mordiscadas na ponta dos dedos, ao ocasionarem ferimentos, inoculam micróbios na derme. A dentista Tally Karlik, da Clínica Orel, em São Paulo, acrescenta: “Isso é mais perigoso para quem tem problemas circulatórios ou imunológicos, já que a infecção pode chegar à corrente sanguínea e se alastrar para outras partes do organismo”.

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E o tal do esmalte dentário? “Roer as unhas gera trincas ou lascas nos dentes, propiciando o aparecimento de cáries”, explica Tally. Sem contar que o movimento incessante da mandíbula abala suas estruturas. “Estalos no maxilar, dores ao mastigar e, em casos extremos, aparência assimétrica da face são algumas consequências do hábito”, arremata Tally.

Infelizmente, as más notícias não param por aí. Até chabus gastrointestinais dão as caras em decorrência da onicofagia. A gastrite, uma inflamação das paredes do estômago que provoca queimação, indigestão e náuseas, é só um deles. “Quando a pessoa engole a unha, às vezes machuca os órgãos internos”, explica Tatiana.

Há ainda condições que, num primeiro momento, parecem pouco sérias. Por exemplo: naquela investigação polonesa, descobriu-se que 53,7% dos indivíduos com onicofagia apresentavam um encurtamento irreversível das unhas. Só que essa distrofia dificulta uma série de tarefas cotidianas, como segurar objetos, escrever ou digitar no computador. Aí, quem sai mordido é o seu bem-estar.

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Mesmo com esses problemas, boa parte dos participantes da pesquisa polonesa não conseguiu se livrar da fissura de roer as unhas. Segundo os relatos deles, há uma sensação de relaxamento ao se entregarem a essa mania. “Nem a dor é uma limitação, porque o paciente acaba ficando viciado naquele prazer momentâneo”, esclarece o psiquiatra Antônio Egídio Nardi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As origens do comportamento são individuais, porém geralmente estão relacionadas com aspectos mentais. “Ele pode ser consequência da ansiedade e aumentar em períodos de estresse. Ou vir junto com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)”, exemplifica Alessandra. Em outras palavras, morder as unhas sem parar é um sinal de que algo não vai bem no interior da cabeça. “Tem gente que rói unha a ponto de ferir os dedos”, impressiona-se Nardi. Esses episódios mais graves, aliás, são considerados uma forma de automutilação.

O fato é que a escolha das unhas como alvo está longe de ser aleatória. Apesar de existirem outras manias que envolvem castigos ao próprio corpo, como arrancar os cabelos ou espremer cravos, a onicofagia tem uma altíssima incidência por ser, em certa medida, socialmente aceita. “É mais provável que você seja censurado por alguém ao ficar mordendo o dedo do que ao roer as unhas”, compara a psicóloga Ana Carolina Machionne, da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental. “Além do mais, trata-se de uma prática aparentemente pouco prejudicial”, complementa.

Poupe os dedos

Parar de roer unha é difícil, mas não impossível. Para eliminar o hábito, o primeiro passo é se conscientizar de sua existência – como já dissemos, tantas vezes o sujeito nem percebe que está com a mão na boca. “É importante se observar para identificar os principais gatilhos que levam ao ato e, a partir daí, avaliar o que poderia substituí-lo ou servir como distração”, orienta Ana Carolina.

Esse processo de autoconhecimento via de regra se torna muito mais eficaz com auxílio profissional. E aí entra a psicoterapia. Uma das abordagens nessa seara consiste em submeter o paciente a situações que o deixem tenso e nas quais ele não roa unha. “O método ensina que é possível encarar a ansiedade sem recorrer ao comportamento para reduzi-la”, justifica Alessandra.

A participação da família e dos amigos é fundamental nesse momento. A neuropsicóloga Deborah Moss, especialista em desenvolvimento infantil que integra o programa televisivo Doces Sonhos, do canal Discovery Home, alerta que repreensões tendem a sair pela culatra. “Como o ato de roer unhas é automático, quase involuntário, recomendo evitar cobranças e confrontos.” O psiquiatra Antônio Nardi concorda: “A crítica agrava a ansiedade. É preciso combater o preconceito e oferecer informação sobre o problema”. Então, ao ver alguém próximo roendo as unhas compulsivamente, dê apoio e, se sentir que há espaço para isso, sugira que ele busque ajuda especializada. Até porque em casos mais graves o quadro chega a ser tratado com antidepressivos.

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Agora vamos entrar no estilo de vida. Embora não costumem solucionar sozinhos a onicofagia, os exercícios físicos, a meditação, a ioga e por aí vai são ótimos aliados na luta contra o estresse que a desencadeia. Vale destacar também o que se põe no prato. “As vitaminas do complexo B, bastante encontradas em alimentos de origem animal, são capazes de regular o humor”, revela a nutricionista Letícia Mendes, da clínica Estima Nutrição, na capital paulista. São tantos os prejuízos do vício de roer as unhas – e tantas as soluções disponíveis – que ao menos vale a pena tentar contê-lo, não é verdade?

Esmalte ou base ajudam?

Sim – e como! “Quando estão com as unhas bonitas, as pessoas resistem mais para não estragá-las”, raciocina a dermatologista Tatiana Gabbi. Em casos severos, dá pra adquirir produtos que vêm com um gosto ruim. A estratégia é valiosa sobretudo para quem mal nota que está com a ponta do dedo entre os dentes.

Mastigar as unhas afeta o organismo inteiro

Males dentários
A onicofagia desgasta o esmalte dos dentes e os deixa suscetíveis às cáries.

Barriga em descompasso
Quem rói unha acaba engolindo uma ou outra. Isso, por sua vez, traz problemas gastrointestinais como esofagite, gastrite, enterocolite e mesmo apendicite.

Feridas
O roedor compulsivo não raro machuca pra valer os dedos. Além de dor e inchaço, isso abre as portas para micro-organismos maléficos. Falando neles…

Infecções
Pôr o dedo na boca repetidas vezes faz subir em 80% o risco de germes se proliferarem pelo corpo. É inimigo pra todo lado.

Maxilar cansado
O morde-morde lesiona a musculatura do maxilar e a articulação temporomandibular. Nas crianças, pode atrapalhar o desenvolvimento.

Unhas distróficas
Tem quem masque as unhas a ponto de fazê-las se retraírem. Esse encurtamento é irreversível e restringe os movimentos.

Realmente dura de roer
Táticas que deixam as mãos mais distantes da boca

Autoconhecimento
Tome consciência das horas em que você leva a unha aos dentes. Anotar os horários de maior incidência ajuda, assim como colocar um elástico no pulso da mão mais alvejada e aplicar esmalte com gosto ruim.

Terapia
Aqui, o foco reside nas emoções e transtornos por trás da fissura. Existem diversas abordagens possíveis, que consistem em ensinar o indivíduo a lidar com a ansiedade sem descontar nas unhas.

Alimentação
Opções ricas em vitamina B (carnes, fígado, rim, banana) reduziriam a vontade de roer, porque estimulam a produção de serotonina, um dos neurotransmissores responsáveis pelo bom humor, no cérebro.

Antidepressivos (se for o caso)
Apesar do nome, esse tipo de medicação também ameniza a ansiedade que instiga a onicofagia. Mas nem precisamos dizer que ele somente entra em cena com a prescrição de um doutor, certo?

 

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