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O mito dos cérebros masculino e feminino

Em entrevista, a neurocientista Gina Rippon demole a ideia de que os homens são cognitivamente superiores

Por André Bernardo Atualizado em 1 out 2021, 14h31 - Publicado em 27 abr 2021, 09h43

Apesar de ter estudado em colégio católico, que preparava as alunas para serem freiras ou donas de casa, a inglesa Gina Rippon nunca se imaginou fazendo outra coisa da vida que não fosse a neurociência. Prova disso é que, quando criança, seus pais lhe pegaram dissecando a cabeça de um ursinho de pelúcia para estudar seu “cérebro”.

Hoje, aos 70 anos, a professora da Universidade Aston se dedica a desfazer mal-entendidos pseudocientíficos, como a história de que homens e mulheres têm uma massa cinzenta diferente. É disso que trata seu novo livro, Gênero e os Nossos Cérebros (clique para comprar), em que Gina refuta a tese de que o cérebro feminino é biologicamente inferior ao masculino.

Conversamos com ela sobre esse e outros assuntos:

Como surgiu a ideia de escrever um livro para rebater a noção de que o cérebro muda conforme o sexo? O que descobriu de mais surpreendente ou revelador?

Volta e meia eu deparava com algum tabloide sensacionalista ou livro de autoajuda que alardeava a falsa ideia de que os neurocientistas tinham finalmente conseguido provar que o cérebro masculino era diferente do feminino. O pior de tudo é que alguns pesquisadores, por descuido ou desatenção, contribuíam para a proliferação dessas fake news.

Um belo dia, eu estava desfazendo alguns desses mal-entendidos supostamente científicos em uma palestra quando um editor me convidou a escrever um livro sobre o tema. O que mais me surpreendeu nesse processo foi a forma como ideias realmente equivocadas sobre o funcionamento do cérebro se alastraram por aí. Segundo essas mesmas crenças, o cérebro dos homens funciona de um jeito mais lógico, e o das mulheres, de outro, mais intuitivo.

Bem, não importa quantas vezes você diga às pessoas que não existe cérebro masculino ou feminino. A ideia de que eles são diferentes entre si continua prevalecendo.

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Derrubar essa visão ajuda a dar fim a premissas sexistas, reducionistas e estereotipadas?

Sim, é importante que as pessoas saibam que as diferenças psicológicas ou sociais que elas veem entre homens e mulheres não podem ser explicadas em termos de diferenças biológicas. Se pensarem assim, elas poderão acreditar, por exemplo, que essas diferenças são, digamos, naturais e intrínsecas e, por essa razão, não podem e não devem ser alteradas. Portanto, fugir desse tipo de premissa ajudará a ciência a fazer sempre as melhores perguntas e, principalmente, a encontrar as melhores respostas.

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Suas descobertas chegaram a suscitar alguma reação ou polêmica entre cientistas do sexo masculino?

Já houve quem dissesse que eu e minhas colegas pesquisadoras éramos “feminazi” por estarmos colocando a correção política acima da pesquisa científica. Essas pessoas devem achar que não fizemos o estudo correto só porque não encontramos uma explicação robusta e confiável para as diferenças de gênero. Não aceitam o fato de que desafiamos uma noção antiquíssima de que, tanto do ponto de vista estrutural quanto funcional, as mulheres têm cérebro diferente do dos homens.

Não estou negando eventuais diferenças. Um cérebro nunca é exatamente igual ao outro! O que eu quero dizer é que, no que diz respeito às habilidades cognitivas, por exemplo, o sexo biológico do indivíduo terá pouca influência sobre a estrutura ou o funcionamento de seu cérebro.

A maneira como educamos os filhos — meninos de azul; meninas de rosa — influencia erros e preconceitos nessa esfera?

O maior erro é, sem dúvida, se deixar arrastar por esse tsunami azul e rosa que caracteriza o bombardeio de gênero no século 21. A começar pelas festas de revelação de gênero, passando por uma infinidade de jogos, livros, brinquedos e cartões de aniversário — de princesa, para as meninas, e de jogador de futebol, para os meninos. Há tantas construções sociais que acabam por estabelecer uma diferença inevitável entre meninos e meninas.

Qual é o problema disso? Significa que devemos tratá-los de maneira diferente. Que eles devem se comportar de maneira diferente. Que terão habilidades e temperamentos diferentes. E, como o cérebro em desenvolvimento é muito flexível e impressionável, marchamos para o reino das profecias autorrealizáveis.

Na sua avaliação, a comunidade científica ainda é machista? Já sofreu com isso?

Sim, há muito preconceito. Em algumas áreas, é ainda pior do que em outras. Na neurociência, as mulheres estão muito bem representadas. Então, acho que sofri pouco. Há uma ideia bastante arraigada de que nós, mulheres, não estamos aptas a fazer ciência. É como se fôssemos “emocionalmente inadequadas” para esse ramo do conhecimento humano.

Quando comecei, há alguns anos, as mulheres eram levadas menos a sério que os homens. Muitos cientistas se referiam a mim e às minhas colegas de maneira pejorativa como “as garotas”. Quando tive filhos, foi difícil negociar um maior equilíbrio entre as minhas vidas pessoal, familiar e profissional. Havia muito menos flexibilidade do que há hoje em dia.

Para piorar, algumas de nossas descobertas nunca são devidamente valorizadas. Em vez de reconhecerem nosso talento, preferem dizer que trabalhamos duro ou temos uma ótima equipe. Por maiores que sejam nossos méritos, demoramos a conseguir uma promoção. A ciência está começando a acordar para esse tipo de problema. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido.

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