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Promessa de vacina e medicamentos injetáveis marcam os 40 anos do HIV

Brasil participa de estudo de vacina na fase três, a tecnologia avança, mas desigualdade social é maior entrave na luta contra a aids

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 6 ago 2021, 19h03 - Publicado em 29 jul 2021, 19h01

Em 1981, ocorreu o primeiro diagnóstico da aids, nos Estados Unidos. Quarenta anos depois do início dessa pandemia, 38 milhões de pessoas convivem com o vírus HIV, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). De lá pra cá, muitos avanços revolucionaram o tratamento da doença –  e chegamos em um momento bem marcante nesse aspecto.

Hoje, há pelo menos quatro projetos de vacinas em andamento, sem falar na nova tecnologia de medicamentos injetáveis, que prometem impedir a transmissão do vírus e melhorarar a qualidade e a expectativa de vida. A desigualdade social, no entanto, é o que ainda impede que essas soluções cheguem aos mais vulneráveis. A meta da Organização das Nações Unidas (ONU) é acabar com a aids até 2030.

O Brasil participa de um dos estudos de imunizante, o Mosaico, que envolve instituições dos Estados Unidos, Europa e América Latina e é patrocinado pela farmacêutica Janssen. Atualmente, a pesquisa está na fase três, quando são realizados testes em seres humanos. O objetivo é verificar a eficácia de uma vacina de quatro doses, cuja tecnologia é muito semelhante à da usada contra a Covid-19.

“As primeiras injeções são com o Adenovirus26 [causador de resfriado comum] modificado em laboratório e, portanto, incapaz de causar a doença. Um mosaico de estruturas genéticas com os diversos subtipos circulantes do HIV tipo 1 é acoplado a esse vetor. Ou seja, ele trabalha como um Cavalo de Troia, expondo o indivíduo a frações proteicas do vírus sem que a pessoa entre em contato com sua forma infectante”, explica infectologista Bernardo Porto Maia, coordenador do projeto no Instituto de Infectologia Emilio Ribas, em São Paulo.

As doses são aplicadas em um intervalo de três, seis e doze meses. Nas últimas etapas, uma outra vacina proteica age como uma espécie de reforço. “Até hoje, o mais longe que chegamos foi com do projeto da Tailândia, que alcançou a eficácia de 31%, o que é considerado muito baixo. Já na fase pré-clínica do Mosaico, feita com chimpanzés, atingimos 67%. Mas esse índice precisa ser comprovado em humanos”, relata o médico.

O infectologista Rico Vasconcelos, que coordena o mesmo estudo, mas na Universidade de São Paulo (USP), conta que os primeiros resultados do Mosaico podem ser anunciados em dois anos e meio. “Esse é o tempo que deve durar a fase 3. No Brasil, estão envolvidos centros em Manaus, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba”, observa o médico. O ano de 2023 também é o prazo para conhecermos melhor os efeitos de uma outra vacina, estudada na África subsaariana.

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Vacinas ao redor do globo

Dados publicados pelo New England Journal indicam pelo menos cinco estudos de vacinas em todo o mundo, incluindo o projeto Mosaico. Dois já foram encerrados. A tabela abaixo mostra as características desses ensaios, que variam de acordo com a região. “Como em toda pesquisa desse tipo, nós selecionamos para os testes o público que se mostra mais vulnerável à doença no local”, esclarece Rico Vasconcelos.

“Na África subsaariana, a infecção se concentra nas mulheres cisgênero heterossexuais jovens, que foram convocadas a participar do estudo. Já no Brasil, os homens gays e as pessoas trans são considerados mais vulneráveis. Mesmo que haja casos entre pessoas heterossexuais, esse grupo tem menor risco de ser infectado”, explica Vasconcelos.

+ Região: Tailândia
Período: 2003-2009
Público: homens e mulheres
Resultado: 31% de eficácia

+ Região: África do Sul
Período: 2016-2020
Público: homens e mulheres
Resultado: sem eficácia comprovada

+ Região: África subsaariana (HVTN 705)
Período: 2017-2022
Público: mulheres
Resultado: testes em andamento

+ Região: Europa, Estados Unidos e América Latina
Período: 2019-2023
Público: homens que fazem sexo com homens
Resultado: testes em andamento

+ Região: África subsaariana (PrepVacc)
Período: 2020-2023
Público: homens e mulheres
Resultado: testes em andamento

Outro estudo não citado pelo periódico inglês teve sucesso na fase 1. A Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids (Iavi) e o Scripps Research Institute, nos Estados Unidos, testaram um novo tipo de vacina contra o HIV e os dados animaram: o imunizante estimulou a produção de anticorpos especialmente potentes em 97% dos participantes.

Medicamentos já evitam transmissão

Quando a aids surgiu, o máximo que o médico podia dar ao indivíduo era conforto. A primeira medicação, o AZT, começou a ser usada por volta de 1985, mas não reduzia a carga viral, e os efeitos colaterais fragilizavam ainda mais a pessoa com o HIV.

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“No fim dos anos 1990, com os inibidores de protease, começamos a ter mais controle da carga viral, e isso resultou em melhora da qualidade e expectativa de vida dos pacientes”, conta Maia. Na prática, a terapia combinava três classes de retrovirais. Com ela, o sistema imunológico melhorou e a expectativa de vida passou a ser como a de qualquer outra pessoa. Mesmo assim, a rotina era dura, porque o paciente precisava tomar muitos comprimidos ao longo do dia.

Há cerca de 4 anos, surgiram os inibidores da integrase. Com poucos eventos adversos e necessidade de menos comprimidos, a nova medicação impedia o RNA do vírus de se fundir à célula humana. Isso também evitava a transmissão da doença. “Ou seja, o próprio tratamento passou a colaborar com a prevenção”, conclui Maia.

A qualidade e a expectativa de vida subiram com essa evolução. “Se, hoje, a expectativa de vida é de aproximadamente 72 anos, o indivíduo soropositivo que recebe tratamento pode viver mais do que isso. Afinal, qualquer pessoa com uma condição crônica, como a aids, frequenta o serviço de saúde com mais regularidade e, assim, garante o tratamento precoce de novas doenças”, raciocina Ariadne Ribeiro Ferreira, oficial de Apoio Comunitário da Unaids Brasil.

Futuro: geração de medicamentos injetáveis

Ter à disposição medicamentos que provocam menos efeitos colaterais e conseguem impedir a transmissão é excelente. Mas a história fica ainda melhor. “Estamos entrando na era dos medicamentos injetáveis, que já são aprovados nos Estados Unidos, na Europa e no Canadá. Eles garantem uma maior eficicácia no tratamento porque é mais fácil administrar uma picada do que vários remédios por dia”, avalia Vasconcelos.

A dose mensal já é disponibilizada em muitos países, e há estudos sobre opções para injeções a cada seis meses. “No Brasil, porém, ainda estamos longe dessa realidade. O país já foi referência no tratamento, mas, infelizmente, paramos no tempo”, lamenta o infectologista da USP. Ora, é ótimo que tratamentos mais modernos estejam aparecendo, mas eles precisam chegar a toda a população – sobretudo a mais vulnerável.

Arsenal ampliado

Fazer relações sexuais com camisinha e não compartilhar a mesma seringa no uso de drogas são mantras ouvidos desde os anos 1980 na prevenção da aids. Mas há ainda outras saídas.

Quando uma pessoa acredita ter entrado em contato com o vírus, ela pode buscar ajuda no hospital mais próximo para ter acesso à Profilaxia Pós-Exposição ao HIV, mais conhecida pela sigla PEP. “Ela funciona como uma espécie de pílula do dia seguinte. Deve ser tomada após a exposição de risco para impedir o vírus de alcançar a corrente sanguínea e infectar a célula de defesa”, explica Ariadne.

Já a PrEP, a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, é um comprimido que se toma regularmente, antes da exposição ao vírus, mas o objetivo é o mesmo: prevenir a infecção. “Quem tem uma vida sexual exposta a riscos ou não consegue usar preservativo, por exemplo, pode pedir para um médico receitá-la. No entanto, é preciso usar o medicamento com responsabilidade, porque ele não evita outras doenças infecciosas. É essencial tomá-lo com acompanhamento médico e fazer exames regulares”, observa a oficial da Unaids. Até porque um efeito colateral da PreEP é aumentar a probabilidade de danos ao fígado.

O SUS oferece esses dois medicamentos. A novidade é que, a partir de julho deste ano, pacientes da rede privada que tiverem a receita da PrEP dada por um médico particular terão acesso ao tratamento de forma gratuita pelo SUS, segundo Vasconcelos. Disponível no sistema público de saúde desde 2018, o remédio já se mostrou eficaz na prevenção. Em São Paulo, especificamente, os resultados são notórios. “De 30 a 40% dos usuários do tratamento estão na capital, já que se ampliou o acesso à terapia. O resultado disso foi a queda inédita de novos casos em 25%”, relata o infectologista.

+ LEIA TAMBÉM: Homens com HIV e tratamento em dia não transmitem o vírus a outros homens

Desigualdade social é desafio para conter doença

Fazer mais testes e facilitar o acesso aos melhores tratamentos, hoje capazes de garantir uma carga viral indetectável, está entre os caminhos para atingir a meta de acabar com a aids até 2030. “O Brasil não conseguiu bater todas as metas ainda, mas o tratamento é amplo graças ao Sistema Único de Saúde [SUS], que chega a 92% dos diagnosticados. O maior desafio, tanto aqui como no mundo, é vencer as desigualdades sociais”, relata Ariadne, da Unaids Brasil. Hoje, 67% das pessoas que vivem com HIV no mundo estão sendo tratadas.

“A tecnologia avança rápido. Ela não é o problema. O maior obstáculo é tornar os tratamentos acessíveis a todos”, concorda Rico Vasconcelos. “Como dificilmente teremos uma equidade mundial nesse sentido, a vacina virá para ajudar a solucionar essa questão”, raciocina o infectologista.

“Há estigmas que ainda persistem nesses 40 anos, como o preconceito em relação à sexualidade. Também há o racismo estrutural, que faz com que mais negros morram de aids do que brancos. Questões como essas são o combustível dessa desigualdade, dificultando o acesso dessas pessoas aos sistemas de saúde”, explica Ariadne. No Brasil, as mulheres também estão expostas e, ainda, foi detectado um avanço da doença em pessoas com mais de 60 anos, porque não há nesse grupo a cultura de utilizar preservativo, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde do ano passado.

O estudo Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com a HIV/Aids no Brasil apontou que mais de 60% já sofreram preconceito por viverem com o vírus. Comentários discriminatórios ou especulativos afetaram 46,3% delas, enquanto 41% foram alvos de comentários feitos por membros da própria família. Os entrevistados já passaram por assédio verbal (25,3%), perda de fonte de renda ou emprego (19,6%) e enfrentaram até mesmo agressões físicas (6%).

Outro dado impactante revela que há preconceito nos serviços de saúde, onde esses indivíduos deveriam experimentar o oposto: acolhimento. Pouco mais de 15% das pessoas entrevistadas afirmaram ter sofrido algum tipo de discriminação por parte de profissionais da saúde, incluindo atitudes como o esquivamento do contato físico (6,8%) e a quebra de sigilo sem consentimento (5,8%). A pesquisa ouviu cerca de 1 800 pessoas em sete capitais brasileiras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) também chama atenção para o fato de que o mundo está atrasado nas metas de combate a aids, e lançou um guia de prevenção e tratamento da doença.

Atendimento não parou durante a pandemia

Para garantir que todas as pessoas infectadas pelo HIV não interrompessem seus tratamentos durante a pandemia de Covid-19, a Unaids se uniu ao Ministério da Saúde para criar novas estratégias. “Para pessoas que já estão estáveis, os médicos passaram a liberar receitas para três ou seis meses de medicação. Assim, os que realmente precisam da consulta, poderiam fazê-la. É questão de garantir a equidade e oferecer cuidado a quem mais precisa”, explica Ariadne. Houve um esforço ainda para que as pessoas com HIV fossem consideradas parte do grupo de risco e, assim, pudessem receber a vacina contra a Covid-19 antes da população em geral.

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