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Promessa brasileira para o tratamento do câncer de mama mais agressivo

Molécula criada no país partiu de um composto identificado em nossa biodiversidade e traz perspectivas no combate a um tumor com poucas opções terapêuticas

Por Diogo Sponchiato 20 out 2021, 12h29

A startup PHP Biotech, sediada em Botucatu, no interior de São Paulo, tem um desafio e uma esperança em vista: oferecer a mulheres com câncer de mama triplo negativo, o tipo mais agressivo da doença, um novo e efetivo tratamento.

A história, ainda sendo escrita, começou há cerca de 15 anos com pesquisas feitas numa universidade paulista, passou pelas mãos de um empreendedor com mais de duas décadas de experiência com inovações em saúde, avançou por testes em outra universidade e, a partir da criação de uma healthtech nacional, caminha agora com a realização dos estudos pré-clínicos, aqueles que antecedem o teste em humanos.

O candidato a medicamento, batizado de 3-NAntC, é uma molécula concebida e sintetizada em laboratório cuja inspiração é um composto originalmente encontrado na biodiversidade brasileira – a fonte exata será divulgada assim que for concluído o processo de patente do produto.

“Sabíamos que a substância original tinha uma ação antitumoral, mas ao mesmo tempo apresentava alta toxicidade. O que nossos cientistas fizeram foi desenvolver uma nova molécula só com o efeito de combate ao câncer e modificada para ser ainda mais eficiente nisso”, resume Moacyr Bighetti, CEO da PHP Biotech e o empreendedor desta história.

A descoberta do composto natural e o aperfeiçoamento até a versão sintética com potencial de virar remédio é obra do biofísico Marcos Fontes, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e hoje consultor técnico do projeto.

De olho num futuro biofármaco, Bighetti levou a molécula à Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, onde ela seria testada no laboratório da farmacêutica Maria Regina Torqueti. E foi assim que uma aluna de pós-doutorado da professora entrou na história, a biotecnologista Patrícia Bezerra, hoje a principal pesquisadora a investigar a 3-NAntC.

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Orientada por Maria Regina, Patrícia avaliou o efeito da molécula em modelos de células de câncer de mama, um expediente normalmente utilizado para analisar o potencial de um medicamento. E o que mais chamou a atenção foi sua ação contra células do câncer de mama triplo negativo, que, apesar de ser menos prevalente, é o mais agressivo.

“Esse tumor tem poucas opções terapêuticas além da quimioterapia, e entre 30 e 45% das pacientes vão a óbito cinco anos após o diagnóstico. Das sobreviventes, 30% ainda acabam apresentando uma recidiva em cinco anos”, conta Patrícia. Para tornar a situação mais dramática, a doença tem maior capacidade de se espalhar, gerando metástases em outros órgãos como o pulmão, e costuma afetar mulheres com menos de 40 anos.

Atualmente, fora a quimioterapia – que nem sempre obtém sucesso e gera muitos efeitos colaterais –, apenas 30% das pacientes com câncer de mama triplo negativo são beneficiadas com uma terapia-alvo (a classes dos inibidores de PARP). Mais recentemente, boas expectativas envolvem o tratamento com imunoterapia e os chamados anticorpos conjugados.

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Candidata brasileira

A ideia da PHP Biotech é alargar o arsenal terapêutico. Para isso, a molécula 3-NAntC foi avaliada em ensaios in vitro (culturas de células), encarou testes com peixes-zebra na Suécia – esse é um modelo animal cada vez mais utilizado em biologia – e ainda passou por simulações computadorizadas para compará-la a milhares de substâncias parecidas pelo mundo.

“Nossos experimentos mostraram que a 3-NAntC matou 30% das células de câncer de mama triplo negativo num período de 48 horas. E menos de 5% das células saudáveis foram afetadas”, relata Patrícia. O resultado foi considerado animador pela equipe, porque, na quimioterapia-padrão, calcula-se que o tratamento destrua duas células tumorais para cada célula normal. Com a nova molécula, a razão ficou em 6 para 1.

Mas como ela funciona? Patrícia conta que tudo leva a crer que a substância induza a apoptose das células doentes. É como se ela se conectasse às unidades do tumor e as estimulasse a um suicídio programado. “Daí uma célula do sistema imune vem e termina com a célula cancerosa”, pontua a biotecnologista.

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É diferente do modelo de ataque da químio, por exemplo, em que a aniquilação do tumor ocorre por necrose. “Nesse caso, é como se um homem-bomba aparecesse e se detonasse entre as células”, compara a pesquisadora.

Além da ação mais precisa contra a doença, o que é importante para o efeito em si mas também para a redução das reações adversas, Bighetti ressalta que, pelos testes até o momento, o biofármaco ainda inibe a proliferação das células tumorais, sem se intrometer nas sadias.

A healthtech aguarda agora o aval da FDA, a agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, para iniciar os estudos com animais e, posteriormente, com humanos em solo americano. O CEO da startup explica que a escolha por dar sequência aos testes ali tem a ver com a maior viabilidade de avançar em meio a regras e burocracias. “Esperamos começar a fase 1 de pesquisa, em humanos, no início de 2023”, revela Bighetti.

A expectativa é que a molécula reproduza os resultados promissores vistos em laboratório em gente como a gente, uma das etapas mais difíceis no desenvolvimento de remédios – nem sempre compostos bem-sucedidos num primeiro momento passam pelas provas clínicas. “Nosso propósito, nesse projeto que é tocado cientificamente por uma mulher, é mudar o tratamento do câncer de mama triplo negativo, trazendo esperança às mulheres que enfrentam a doença”, diz o CEO da startup.

 

 

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