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Os micróbios por trás do câncer

Um entre cada seis tumores é provocado por vírus, bactérias e companhia. Saiba como eles abrem brecha para a doença e como prevenir a dupla ameaça

Por Redação M de Mulher Atualizado em 2 nov 2018, 10h32 - Publicado em 16 set 2013, 22h00

Os micro-organismos retratados ao longo desta reportagem fazem parte de uma mesma quadrilha: após invadir o corpo humano e se reproduzir dentro dele, têm a capacidade de criar condições propícias para um câncer aparecer. Quem pensava que a atuação desses criminosos invisíveis a olho nu não representava perigo em larga escala vai se impressionar com os números colhidos por um estudo recém-publicado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, com dados de 184 países. De 12,7 milhões de novos casos da doença registrados em 2008, pelo menos 2 milhões estão intimamente associados a infecções. O inquérito ainda descobriu que, se as agressões virais ou bacterianas fossem frustradas a tempo, cerca de 1,5 milhão de vidas seriam poupadas.

“A participação das infecções no câncer ainda é subestimada, sobretudo nos países em desenvolvimento, locais mais acometidos por esse problema”, analisa a epidemiologista francesa Catherine de Martel, uma das líderes do trabalho. “Enquanto na América do Norte os micro-organismos estão por trás de 3% dos tumores, na África subsaariana um terço de todos os cânceres tem origem infecciosa “, conta. Esses males apresentam, portanto, uma conexão com o grau de desenvolvimento da região – e do acesso à informação e ao meio médico.
Chama atenção outro dado coletado pelo estudo internacional: 95% dos casos de câncer ligados a infecções são protagonizados pelo HPV, a bactéria H. pylori e os vírus das hepatites B e C. Contrair um desses bichos não prediz o aparecimento de um tumor no futuro, mas, claro, aumenta consideravelmente essa probabilidade. Tudo depende do tempo que cada um dos tipinhos nefastos está ali e da propensão do hospedeiro. Há, contudo, algumas nuances que acompanham esse raciocínio. “Hoje acreditamos que não existe câncer de colo de útero sem HPV”, afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo. “Já a presença da H. pylori não significa necessariamente que o indivíduo terá a doença no estômago. Mas buscamos erradicar a bactéria para reduzir o risco”, completa o oncologista Samuel Aguiar Júnior, do Hospital A.C. Camargo, na capital paulista.
Micro-organismos dispõem de vários meios para semear, às vezes até sem querer, o mal. Nas hepatites B e C, por exemplo, se observa um duplo estímulo pró-câncer. “Os vírus em si induzem alterações nas células do fígado que favorecem o problema, principalmente o tipo B. Além disso, a cirrose, decorrente de décadas de hepatite sem tratamento, contribui para o surgimento do tumor ali”, explica o infectologista Evaldo de Araújo, do Laboratório de Hepatites Virais do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Recentemente, outro agente infeccioso foi parar em julgamento. É o citomegalovírus, bastante comum na população, mas cuja passagem ou permanência no organismo raras vezes dá sintoma. O réu é acusado de estar envolvido em tumores de glândula salivar, mas ainda não se comprovou em seres humanos se ele realmente provoca o tormento. Até o momento, o meliante carrega mais a culpa de dar força para o problema já instalado. “O processo de proliferação e disseminação do câncer se acelera na presença do vírus”, explica a bióloga Maria Cristina Carlan da Silva, da Universidade Federal do ABC, na Grande São Paulo.
Outros vírus e bactérias estão sob investigação por possíveis alianças com o câncer. Uma associação explorada nos últimos anos é a da doença periodontal – que começa com uma gengivite e pode levar à perda dos dentes – com tumores na cavidade oral. “Sabemos que micro-organismos da placa bacteriana liberam compostos cancerígenos, mas ainda não foi estabelecida uma relação direta”, diz Cláudio Pannuti, professor de periodontia da Universidade de São Paulo. “É comum, no entanto, flagrarmos uma higiene dental deficitária entre pacientes com câncer bucal.”
Os micróbios costumam trabalhar a favor dos tumores de modo mais indireto também. Basta pensar em infecções que deprimem o sistema imune, como a do HIV. “Os soropositivos que desenvolvem aids correm maior risco de alguns tumores, como os provocados por vírus oportunistas”, conta a infectologista Roberta Schiavon Nogueira, da Sociedade Paulista de Infectologia. “Daí a necessidade de detectar o HIV e entrar com o tratamento quanto antes”, completa.
Até a flora intestinal, nossa coleção particular de bactérias, influenciaria a probabilidade de ter um câncer, especialmente nos confins do aparelho digestivo. “É provável que haja perfis de flora que tornam o intestino mais suscetível à doença e interfiram inclusive na resposta ao tratamento”, diz Aguiar Júnior.
Conhecimento – seja fruto de pesquisas em laboratório, seja de trabalhos epidemiológicos – é crucial para esclarecer e derrubar a ponte entre infecção e câncer, bem como todos os atalhos envolvidos nessa via. Os números do último levantamento global, publicado na respeitada revista médica Lancet Oncology, reforçam a importância de ficar alerta a esse elo. “A maior parte dos tumores de origem infecciosa poderia ser prevenida com imunização e métodos de rastreamento, exigindo gastos mínimos se comparados aos dos tratamentos”, avalia Catherine. Ora, não dá para menosprezar os micróbios, muito menos quando eles têm uma queda pelo câncer.
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    Os principais inimigos  

    H. pylori

    Nome científico: Helicobacter pylori
    O que é e o que causa: bactéria associada a gastrite e úlceras.
    Onde pode provocar câncer: no estômago.
    Como: o micro-organismo deflagra uma inflamação recorrente no estômago, além de dificultar a cicatrização de lesões ali. Anos de incêndio favorecem o surgimento de células cancerosas.
    É possível prevenir? Sim. Diante de sintomas de queimação ou dor estomacais frequentes, vale procurar um médico e se submeter a uma endoscopia. Se confirmada a presença da H. pylori, devem ser receitados antibióticos capazes de eliminá-la.

    1. HPV

    Nome científico: Papilomavírus humano, sobretudo os tipos 16, 18, 31 e 45.
    O que é e o que causa: trata-se de um vírus transmitido no contato sexual que pode propiciar lesões principalmente nos órgãos genitais.
    Onde pode provocar câncer: no colo do útero, na vagina, no ânus, no pênis, na boca e na garganta.
    Como: o micro-organismo deflagra uma inflamação recorrente no estômago, além de dificultar a cicatrização de lesões ali. Anos de incêndio favorecem o surgimento de células cancerosas.
    É possível prevenir? Sim. Por meio da vacinação, liberada hoje para garotos e garotas de 9 a 26 anos. O preservativo minimiza o contágio, mas não impede a transmissão por completo.

    2. Herpes tipo 8

    Nome científico: Herpes vírus tipo 8 (HHV8).
    O que é e o que causa: pertence à família dos vírus do herpes, mas este ataca para valer a pele e outros tecidos de portadores de aids.
    Onde pode provocar câncer: o herpes tipo 8 origina o chamado sarcoma de Kaposi, um tumor de múltiplas manifestações – lesões roxas e deformadoras na pele, complicações gástricas e pulmonares… – praticamente exclusivo de pessoas com aids.
    Como: o vírus se aproveita da baixíssima imunidade para se replicar, atacar novas áreas e propiciar alterações que culminam no câncer.
    É possível prevenir? Sim, mas de forma indireta. Não há como evitar a infecção em si, mas, ao impedir que a aids arruíne as defesas, o coquetel anti-HIV diminui o risco desse mal.

    1. Esquistossomose

    Nome científico: Schistosoma haematobium.
    O que é e o que causa: trata-se de um verme parasita, comum na África subsaariana, por trás de dores no ventre e complicações na bexiga. É parente do Schistosoma mansoni, encontrado no Brasil – este, porém, ainda não é apontado como causador de câncer.
    Onde pode provocar câncer: na bexiga.
    Como: o ciclo de reprodução do verme passa pela bexiga, irritando o órgão, até incentivar tumores no local.
    É possível prevenir? Isso depende do saneamento básico e do tratamento de rios e lagos. O contágio se dá principalmente pelo contato com água contaminada.

    2. Hepatites B e C

    Nome científico: Vírus da hepatite B (HBV) e Vírus da hepatite C (HCV).
    O que é e o que causa: eles se alojam no fígado e passam a arrasar suas células. O tipo B é transmitido sexualmente e o C por contato com sangue contaminado.
    Onde pode provocar câncer: no fígado.
    Como: os vírus contribuem para a doença, assim como as transformações locais ocasionadas pela cirrose, fruto de anos de hepatite não controlada.
    É possível prevenir? Existe vacina para hepatite B. Mas, mesmo se o vírus B ou C já infectou o corpo, o fundamental é buscar um diagnóstico precoce e tratar o problema, que, diga-se, é silencioso.

    1. Epstein-barr

    Nome científico: Epstein-barr vírus.
    O que é e o que causa: vírus da família herpes transmitido pela saliva. É, na maioria das vezes, assintomático. Pode causar, porém, a mononucleose, ligada a inchaços nos gânglios, febre e comprometimento do fígado e do baço.
    Onde pode provocar câncer: no sistema linfático, uma rede de gânglios que mantém, entre outras coisas, a imunidade, e nas regiões do nariz e da faringe.
    Como: o vírus ataca especialmente células de defesa e se replica a ponto de promover alterações pré-câncer. Está associado sobretudo a alguns tipos de linfoma.
    É possível prevenir? Não há vacina contra o vírus. Diante de um quadro sintomático, o ideal é monitorar e tratar. No entanto, ainda é difícil falar na prevenção dos tumores ligados a ele.

    2. Citomegalovírus

    Nome científico: Citomegalovírus.
    O que é e o que causa: outro vírus integrante da gangue dos herpes. Está presente na maioria da população, mas se manifesta apenas com a imunidade baixa – e os sintomas lembram os da mononucleose.
    Onde pode provocar câncer: nas glândulas salivares.
    Como: ainda não se sabe se o vírus causa o câncer em si ou se somente acelera sua progressão. Ele parece ampliar a capacidade de crescimento do tumor.
    É possível prevenir? Mais um caso em que não há vacina. A infecção precisa ser flagrada e remediada para não trazer complicações – especialmente no caso de crianças e pessoas imunodeprimidas.
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