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O Brasil vai virar o novo epicentro da pandemia de coronavírus?

Perguntamos a nove especialistas se eles acreditam que nosso país pode se transformar no novo centro da crise da Covid-19. Veja as respostas e análises

Por Diogo Sponchiato, Theo Ruprecht - Atualizado em 1 Maio 2020, 18h27 - Publicado em 23 abr 2020, 12h24

Começou na China, migrou para a Europa e hoje assombra os Estados Unidos. Tudo indica que o epicentro da pandemia do coronavírus troca de lugar à medida que o patógeno se alastra por uma nova nação e suas autoridades de saúde conseguem criar ou não uma resposta rápida e eficiente para detê-lo, além de dar suporte adequado a quem fica doente.

O comportamento imprevisível desse vírus é uma das maiores angústias no enfrentamento da pandemia. E os médicos e cientistas reforçam esse ponto a todo momento diante de qualquer exercício de futurologia. Mas a experiência de outros países e os avanços nos dados epidemiológicos e nas medidas de contenção adotadas nos ajudam a vislumbrar se o Brasil corre o risco de sofrer mais ou menos com a Covid-19.

Afinal, nosso país pode virar o novo epicentro da pandemia? Fizemos essa pergunta a nove especialistas. Acompanhe as respostas a seguir.

José David Urbaéz, infectologista da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI):

Infelizmente, acho que sim. Os dispositivos de isolamento social, corretamente aplicados por governadores e prefeitos, na medida em que conseguiram achatar a curva de desenvolvimento da epidemia, paradoxalmente fizeram com que a população interpretasse que o problema do coronavírus “não era tudo isso que falavam”, abandonando lenta e progressivamente o confinamento.

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A isso se soma uma dicotomia reducionista e absurda de saúde versus economia, apoiada por vários setores empresariais, nos quais domina o pensamento de que “algumas mortes” pelo coronavírus seriam menos relevantes que a parada da economia.

Estamos em um país com uma enorme desigualdade socioeconômica. Isso significa que grande parte da população não tem acesso a saneamento básico, mora em condições de superlotação, tem pouca ou nenhuma compreensão da grave situação que estamos vivendo e será exposta a um vírus de alta transmissibilidade. A pandemia entrou no Brasil pelas classes alta e média alta, sendo que agora penetra nas áreas socialmente mais vulneráveis, onde sem dúvida alcançará proporções catastróficas.

A infraestrutura de saúde pública, o SUS, faz tempo vem sendo desmontada, com redução de verbas e investimentos, em todas as suas áreas, como diagnóstico, assistência hospitalar e de UTI, atenção primária… Cada vez mais precarizada, terá dificuldades significativas para responder ao desafio que representa esta epidemia. Apesar disso, continua sendo um sistema de grande capilaridade, que possui mecanismos de resposta para situações de gravidade, o que ameniza e muito as consequências do problema.

E, finalmente, há um componente extremamente grave: a decomposição das esferas do poder do Estado, que tem no chefe do Executivo Federal um fomentador do caos e do negacionismo, reduzindo a enfermidade a uma “gripezinha”, contrariando as recomendações baseadas em evidências científicas, desautorizando cientistas e médicos, induzindo comportamentos de exposição à virose como aglomerações em atos públicos… Isso, em última análise, cobrará um preço elevado em vítimas e no gerenciamento dos serviços de saúde. Causa perplexidade assistirmos a uma verdadeira guerra contra as medidas de isolamento em um momento tão delicado.

Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista, professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do conselho do Instituto Horas da Vida:

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Obviamente depende. Não dá para ser categórico nessa complexa questão. Não é “sim” pois acho que, de alguma forma, houve nos estados e municípios alguma preparação e, em parte, até agora conseguimos conviver com a epidemia. Temos sinais de exaustão do SUS em Manaus e Fortaleza, mas ainda temos tempo. Porém, se sairmos agora da quarentena, correremos o risco de nos transformarmos em algo semelhante a Itália.

Também dependeremos do tipo de resposta que a iniciativa privada dará ao colocar seus leitos de UTI para atender aos brasileiros. E não é “não” por essas razões: quarentena, perspectiva de uso de leitos privados, posição do governo federal agora sob nova direção mas com a mesma orientação…

Celso Granato, infectologista e virologista, diretor clínico do Grupo Fleury:

Não vejo nenhuma razão para isso. Existem vários países com população muito grande e também expostos. Não consigo imaginar por que não seriam a Índia, a Rússia ou os próprios Estados Unidos [epicentro atual]. Não vejo nenhuma chance de o problema no Brasil ser muito maior do que em qualquer outra região do mundo. Mas, para que isso não aconteça por aqui, é muito importante que as pessoas sigam as orientações de saúde pública, continuem no isolamento social no máximo que for possível e lavando as mãos corretamente…

Praticamente todos os países do mundo já estão contaminados. Não vejo por que o Brasil teria um risco maior do que outros locais, especialmente se as pessoas aderirem aos cuidados já divulgados.

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Pedro Hallal, epidemiologista e professor da Universidade Federal de Pelotas (RS):

Sim, o Brasil, ou qualquer outro país, pode ser o próximo centro da pandemia, desde que não tome atitudes preventivas baseadas em evidências científicas. No momento, a obtenção de dados epidemiológicos sobre a infecção na população, a manutenção do distanciamento social e a ampliação da política de testes são iniciativas que podem nos ajudar a evitar que sejamos o próximo epicentro.

Wladimir Queiroz, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas (SP) e membro da SBI:

Acredito que depende. Depende de como será a política de isolamento e de como ela vai ser mantida. Se ela for corretamente mantida, existe chance de não sermos o novo epicentro da pandemia. Se isso for quebrado, acho que não vai ter como não ser o novo epicentro.

Gustavo Campana, diretor médico da Dasa:

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Minha opinião é que o Brasil não deve virar o epicentro da pandemia e não deve ser o país com o maior número de casos. Especialmente porque algumas medidas foram tomadas de forma bastante precoce, como isolamento social e a detecção dos casos. Foi diferente do que aconteceu na Itália, por exemplo, onde os primeiros casos demoraram a ser detectados. Aqui a Dasa validou o teste de forma pioneira e diagnosticamos muito rápido os primeiros episódios e o isolamento social aconteceu antes. Isso tem um impacto importante para que a gente não seja o epicentro da epidemia.

A forma como a doença entrou no país, garantindo que os primeiros infectados permanecessem em isolamento, também nos favoreceu. Agora o vírus segue contaminando mais pessoas, mas nossas estruturas de saúde estão mais bem preparadas, tiveram tempo… Esses são os dois pontos mais importantes: o isolamento social precoce e a implantação dos testes, apesar de o país ter passado por um “apagão” de exames. Uma medida que ajuda a não virarmos o epicentro é planejarmos a volta do isolamento social de forma progressiva e organizada, para não sobrecarregarmos o sistema de saúde.

Sylvia Lemos, infectologista, professora da Universidade Federal de Pernambuco e membro da SBI:

Depende. Depende de como estão sendo encarados o coronavírus e a pandemia, depende de como as políticas públicas são implantadas e de como a sociedade vai reagir a ela. Assim como depende de como as pessoas reagem à própria infecção, uma vez que a imunidade varia entre os pacientes e resulta em formas diferentes da doença. Depende de muitas coisas, infelizmente.

Paulo Eduardo Brandão, virologista, especialista em coronavírus e professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP:

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Sim. Se definirmos o epicentro da pandemia como sendo o de um país onde há uma rápida ascensão no número de infectados, doentes e mortos, o Brasil já se mostra o centro da epidemia, na verdade. E isso é resultado da ausência de testes em larga escala, de medidas de isolamento social em todo o território nacional e de capacidade hospitalar adequada.

Renato Grinbaum, infectologista, professor da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e consultor da SBI:

Depende. O Brasil é um país grande e heterogêneo e tem condições de fazer um controle apropriado da epidemia, de achatar a curva e ter números aceitáveis e administráveis. No entanto, temos duas razões para temermos o efeito final desta epidemia por aqui. O primeiro é a própria heterogeneidade da população, com pessoas vivendo em condições difíceis de moradia para fazer um isolamento correto e ainda sem saneamento básico. As pessoas não têm água limpa em casa. Esse é um fator para termos números explosivos.

O segundo fator é mais social. A epidemia mostra que o ser humano vive em comunidade e o comportamento de uma pessoa reflete em toda a população, como se fosse um efeito borboleta. Se nós conseguirmos manter essa unidade e nos comportarmos de forma coerente uns com os outros, provavelmente amenizaremos o problema. Mas, se transformarmos divergências normais e aceitáveis em disputas e agirmos de formas diferentes — uns contra os outros, em vez de um a favor do outro —, temos todo o potencial de nos tornarmos o epicentro da pandemia.

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