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Hormonioterapia para prevenir o câncer de mama: vale a pena?

Entidade americana atesta benefícios desse grupo de remédios para mulheres em alto risco de ter a doença no futuro. Mas quem deveria tomar?

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 31 out 2019, 09h46 - Publicado em 24 set 2019, 12h33

Recentemente, a Força-Tarefa de Saúde Preventiva dos Estados Unidos, organização voluntária que reúne experts daquele país para delinear recomendações médicas baseadas em evidências científicas, publicou um artigo apoiando o uso da hormonioterapia em mulheres com alto risco de desenvolver câncer de mama no futuro. Você entendeu direito: a proposta seria dar remédios para prevenir a doença em um subgrupo da ala feminina.

O texto leva em consideração estudos robustos e foi publicado no respeitado periódico científico JAMA (Journal of American Medical Association). Os autores destacam três medicamentos: tamoxifeno, raloxifeno e inibidores da aromatase. São drogas já usadas para combater tumores e diminuir a probabilidade de eles voltarem.

Pois bem: engolir comprimidos antes de uma enfermidade aparecer soa um pouco estranho, mas essa estratégia já é conhecida pelos especialistas. “O relevante aqui é que essa força-tarefa, geralmente conservadora, foi bem enfática na recomendação”, destaca Gilberto Amorim, oncologista da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc). “Isso é um estímulo para que o assunto seja mais discutido nos consultórios”, completa.

Quem se beneficia da hormonioterapia preventiva

Ela tem um alvo específico. “Basicamente, são as mulheres acima de 35 anos com histórico familiar e lesões que aumentam o risco de câncer, como as hiperplasias atípicas ou lobulares”, explica Marcelo Bello, mastologista e diretor do Hospital do Câncer III, do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Se a mulher já teve um carcinoma de mama in situ — uma forma muito inicial do tumor —, também pode considerar a tática. Por outro lado, quem apresenta uma mutação nos genes BRCA 1 e 2 (como a atriz Angelina Jolie), ligados ao aparecimento da doença, não se beneficiaria da prevenção com hormonioterapia.

Há, enfim, modelos matemáticos e questionários a serem aplicados pelos médicos que definem a magnitude dos benefícios para cada mulher. É uma questão de conversar abertamente sobre o assunto.

Como funcionam os remédios

Tamoxifeno e raloxifeno bloqueiam a ação do estrogênio, um hormônio muitas vezes envolvido no surgimento do câncer nos seios. “Os medicamentos impedem a proliferação de células tumorais no tecido mamário”, comenta Maria Del Pilar Estevez Diz, coordenadora de oncologia clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp).

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Já os inibidores da aromatase reduzem o estrogênio em circulação no corpo. “Eles não impedem o ovário de produzir o hormônio, apenas diminuem seus níveis. Por isso, devem ser usados preferencialmente em mulheres na menopausa”, pontua Bello.

  • O que considerar antes de recorrer a essa estratégia

    Primeiro, a hormonioterapia não garante uma proteção completa contra o câncer de mama. “Estamos falando apenas de redução de risco”, pontua Pilar. Até porque existem versões da doença que não são estimuladas pelos hormônios — logo, de pouco adianta bloqueá-los nesses casos.

    Como estamos falando de medicamentos, há também efeitos colaterais que pesam na decisão. E eles não são desprezíveis.

    O tamoxifeno e o raloxifeno elevam ligeiramente a probabilidade de tromboembolismo, por exemplo. Os inibidores da aromatase, por sua vez, estão associados ao surgimento da osteoporose. “Esses fatores precisam ser avaliados e monitorados durante o uso da medicação”, orienta Bello.

    Na consulta, o médico investiga se essas reações adversas são mais ou menos relevantes para cada caso. Se a paciente já tiver um risco aumentado de trombose, talvez o tamoxifeno e o ralofixeno não sejam boas opções, por exemplo.

    “A mulher precisa ser bem informada para tomar a decisão de uma maneira consciente e compartilhada com o profissional de saúde”, orienta Pilar.

    Outro ponto que dificulta a adesão a esse método é uma possível indução precoce da menopausa. “Algumas mulheres param de menstruar e manifestam sintomas como ondas de calor, insônia e ressecamento vaginal”, aponta Amorim. “Mas é difícil que isso aconteça”, emenda.

    Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a estratégia é válida quando bem indicada. “Creio que seja até subutilizada, porque ela reduz o risco de morte e evita cirurgias e tratamentos agressivos. Mas, hoje, é difícil convencer alguém a tomar remédio sem estar doente”, afirma Amorim.

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