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Por que o efeito do álcool é pior em mulheres, jovens e idosos

Estudo brasileiro revela aumento do consumo de álcool nesses grupos. Entenda por que eles são considerados mais vulneráveis aos impactos da bebida

Por Maria Tereza Santos Atualizado em 18 mar 2020, 16h19 - Publicado em 18 mar 2020, 14h11

No Brasil, mulheres, jovens e idosos estão bebendo mais. Esse foi o principal achado da pesquisa “Álcool e Saúde dos Brasileiros – Panorama 2020”, produzida pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa). O levantamento chamou a atenção dos especialistas porque esses grupos são justamente os mais vulneráveis aos efeitos deletérios do álcool.

A publicação é um compilado dos dados recentes de diversas fontes, como Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) e Organização Mundial da Saúde (OMS). As informações tiradas daí apontam para uma diminuição em 11% do consumo per capita entre 2010 e 2016 no nosso país.

No entanto, as internações de mulheres e idosos causadas por álcool cresceram. E a quantidade de jovens que se embriagam também é alta.

“O que nos assusta é que eles fazem parte da população que bebe intensamente”, declara o psiquiatra Arthur Guerra, presidente do Cisa.

A seguir, entenda por que a substância oferece um prejuízo maior a essas turmas:

Mulheres

Historicamente, a população masculina sempre bebeu mais. Quando falamos especificamente do consumo abusivo, o Vigitel revela que a frequência desse comportamento entre os brasileiros é de 17,9%, sendo maior para homens (26%) do que para mulheres (11%).

No entanto, houve um aumento significativo na ala feminina entre 2010 e 2018, especialmente nas faixas etárias de 18 a 24 anos (14,9% para 18%) e de 35 a 44 anos (10,9% para 14%).

De acordo com o Datasus, nesse período, as internações atribuíveis à bebida alcoólica por 100 mil habitantes caíram de 172,9 para 168,2. Nos homens, houve uma ligeira redução. Por outro lado, esse número subiu 19% para as mulheres.

O crescimento também foi observado nos óbitos de 2010 a 2017: enquanto o aumento entre eles foi de 4% (52 427 para 54 360), entre elas o índice saltou 15% (13 813 para 15 876).

“Estou nesse campo há 41 anos e nunca vi o que está acontecendo agora, ou seja, tantas meninas começando a beber cedo e tantas mulheres tendo o consumo nocivo, quase sempre acompanhado da negação”, conta Guerra.

Isso seria explicado por mudanças no estilo de vida, como maior poder aquisitivo e a dupla jornada de trabalho. Apesar da igualdade de gênero ser uma coisa positiva, é necessário lembrar que existem diferenças fisiológicas.

O presidente do Cisa explica que, em geral, as mulheres têm a área corpórea menor e menos enzimas. “Portanto, aquilo que bebem fica mais tempo na corrente sanguínea e demora para ser metabolizado”, complementa.

Além disso, a quantidade de água no corpo feminino é baixa. Por isso, a substância acaba ficando mais concentrada no organismo. Tudo isso eleva o risco de surgirem hepatite alcoólica, cirrose, doenças cardíacas e câncer de mama.

Idosos

Quando olhamos para os impactos por idade, os mais velhos ganham destaque. Brasileiros acima de 55 anos compõem a maioria das internações, indo de 26% em 2010 para 33% em 2018. Nos óbitos, o número saltou de 41% para 48%. É única faixa etária em que ocorreu elevação.

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Fatores psicossociais são os grandes responsáveis por essa associação: viuvez, solidão, perda de amigos, aposentadoria, isolamento…

“Eles são mais sensíveis devido a sua baixa capacidade de metabolização hepática e renal. Então, existe uma maior tendência à desidratação”, ensina o psiquiatra.

Aqui, os perigos são possibilidade de quedas, déficits cognitivos, lesões e má interação com medicamentos.

  • Jovens

    Embora não tenhamos novos estudos sobre adolescentes, os especialistas ainda demonstram preocupação, já que o sistema nervoso central permanece em desenvolvimento até os 20 anos. Quando se começa a beber antes da maioridade, as funções cognitivas e habilidades socioemocionais são prejudicadas.

    “O amadurecimento dessa região do cérebro não deve ser regado à álcool. Parece óbvio, mas, na prática, não é isso que encontramos. Os escolares estão em uma situação complicada”, alerta o expert.

    Dados da OMS mostram que 26,5% dos jovens de 15 a 19 anos no mundo (cerca de 155 milhões de pessoas) beberam em 2016. No Brasil, o número é praticamente igual: 26,8% deram o mesmo relato.

    Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (Pense) de 2015, dos adolescentes de 13 a 15 anos, 55,5% assumiram ter bebido alguma vez na vida e 21,4% já sofreram algum episódio de embriaguez. A média de idade em que eles experimentam álcool pela primeira vez é de 12,5 anos.

    Em relação aos jovens adultos, informações da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) de 2010 apontam que quase 90% dos universitários já beberam no mínimo uma vez.

    Cruzando os dados levantados no relatório, os pesquisadores do Cisa concluíram que a probabilidade de uma pessoa de 18 a 34 anos ingerir cerca de quatro doses de álcool puro em uma única ocasião é 3,7 vezes maior do que alguém acima dos 55 anos.

    “O jovem possui um padrão alarmante, que é o chamado ‘beber pesado episódico’. Muitas vezes ele passa a semana toda sem beber nada, mas vai para uma balada e toma muito de uma vez só”, informa o profissional.

    O que precisa ser feito para mudar esse cenário

    Em 2010, a OMS lançou um documento com dez orientações para nortear políticas e ações sobre esse problema. A chamada “Estratégia Global para Reduzir o Uso Nocivo de Álcool” tem como objetivo diminuir pelo menos 10% do consumo até 2025.

    Dez anos depois, vários avanços foram alcançados, mas a pesquisa apresentada pela Cisa mostra que, no nosso país, ainda há muito para ser feito. Guerra acredita que é necessário criar um forte programa de prevenção e educação focado em cada grupo.

    “É como se fosse um vestido sob medida para jovens, mulheres e idosos. Em termos de política pública, deveríamos investir fortemente em ações na linguagem que eles entendem”, sugere o profissional.

    E ele conclui: “A família tem um papel importante. Ela precisa instruir sobre como ter uma relação saudável com o álcool. O exemplo não é só a melhor forma de ensinar alguma coisa para alguém: é a única”.

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