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Cartórios apontam aumento de 31% nas mortes por doenças cardiovasculares

Medo da pandemia de coronavírus fez a procura por atendimento médico diminuir, inclusive diante de sintomas de infarto, alertam entidades

Por Chloé Pinheiro - 29 jun 2020, 20h18

Durante a pandemia do novo coronavírus, as mortes por doenças cardiovasculares cresceram 31% no Brasil. Os dados são de uma nova seção do Portal da Transparência, desenvolvido pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) em parceria com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Entre 16 de março e 31 de maio de 2019, 14 938 pessoas faleceram por problemas como choque cardiogênico e parada cardiorrespiratória. No mesmo período de 2020, o número saltou para 19 573. Lideram a lista o Amazonas, com aumento de 94%, Pernambuco (85%) e São Paulo (70%).
Especificamente nas mortes registradas como infarto, houve queda de 14%. Isso pode ter acontecido porque as pessoas não procuraram ajuda médica. “O aumento de óbitos domiciliares por causas cardiovasculares sugere que pelo menos algumas das mortes por infarto ocorreram em casa, impedindo o diagnóstico correto”, explicou, em comunicado à imprensa, Marcelo Queiroga, presidente da SBC.

De fato, as estatísticas da Arpen-Brasil mostram que, entre março e junho de 2019, 5 066 mortes em casa por problemas cardíacos não especificados foram contabilizadas pelos cartórios. Já em 2020, durante a pandemia, foram 8 863 registros. Ou seja, um crescimento de quase 75%.

Os números servem de alerta para o fato de que os sintomas de infarto não devem ser ignorados ou minimizados por medo de ir ao hospital. “É de se notar ainda que os efeitos deletérios sobre a saúde cardiovascular podem durar mais do que a própria pandemia, porque as medidas de prevenção primária e secundária estão sendo adiadas nesse contexto”, completou Queiroga.

Tendência internacional

A preocupação com o assunto nasceu há alguns meses, quando pesquisadores internacionais começaram a notar quedas bruscas nos atendimentos de emergências não relacionadas à Covid-19, como o próprio infarto e o AVC. Dados do Instituto Kaiser Permanente, nos Estados Unidos, acusam uma redução de 50% nas internações por ataque cardíaco nos hospitais da rede na Califórnia.

Nova York, epicentro norte-americano da pandemia, acumulou três vezes mais mortes por doenças cardiovasculares durante os meses de pico da Covid-19, de acordo análise feita pelo jornal New York Times, com dados do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos.

Espanha e Itália também registraram declínios nas admissões hospitalares por infarto na casa dos 50%. No Brasil, a Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista já havia alertado em abril para uma redução de 70% nos atendimentos da mesma natureza.

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