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Bem-Estar

Autocuidado em tempos de pandemia

Pesquisa com 1874 brasileiros revela impactos da Covid-19 na dieta, nos exercícios, na mente e na busca por informação, produtos e serviços de saúde

por Goretti Tenorio (texto) e Thiago Lyra (infográficos e ilustrações) Atualizado em 24 jul 2020, 10h38 - Publicado em 24 jul 2020 10h00

Afinal, o que é autocuidado?

Se há uma palavra que deverá ser cada vez mais incorporada ao dicionário e à rotina dos brasileiros a partir da pandemia do coronavírus, ela é autocuidado. Falamos de um conjunto de atitudes e hábitos bem-vindos ao corpo, à mente e à sociedade que inclusive é tratado como um direito ao cidadão pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2011, a entidade instituiu o 24 de julho como o Dia Internacional do Autocuidado com a ideia de conscientizar e engajar as pessoas na tomada de decisões em relação à própria saúde.

Diante da Covid-19, uma crise que deixará marcas profundas no planeta, os sete pilares do autocuidado definidos pela OMS têm tudo para saltar em relevância, apesar dos desafios para a adesão no dia a dia. Isso passa pela busca de informações confiáveis e pela criação de bons hábitos de higiene, preceitos muito disseminados no cenário atual. E continua valendo para os outro cinco princípios do autocuidado: praticar atividade física regularmente; manter uma alimentação balanceada; restringir comportamentos nocivos, como tabagismo e abuso de bebida alcoólica; conhecer o próprio corpo e prestar atenção em sinais estranhos; e utilizar remédios e outros produtos de forma responsável.

É nesse contexto que VEJA SAÚDE e o núcleo de Inteligência de Mercado do Grupo Abril, com o apoio institucional da Associação Brasileira de Medicamentos Isentos de Prescrição (Abimip), conduziram a pesquisa Autocuidado em Tempos de Pandemia, que mapeia como os brasileiros lidam com os sete pilares e os efeitos da Covid-19 na percepção e na adoção desses hábitos. “O estudo foi realizado em junho de 2020 e envolve 1 874 mulheres e homens com mais de 25 anos de todas as regiões do país”, conta Maisa Sônego Alves, analista de pesquisa da Abril.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital

Efeitos positivos e negativos

O estudo inédito evidencia as mudanças de comportamento mais impactadas pela pandemia. Quase 70% dos participantes se mostraram dispostos a rever e alterar hábitos pensando em preservar a saúde de forma geral. Os efeitos mais positivos, na visão dos entrevistados, aparecem na procura por informações sobre saúde e na incorporação de medidas de higiene, como lavar a mão, utilizar álcool em gel e caprichar na limpeza da casa. E, de fato, são atitudes que ajudam a evitar a transmissão do coronavírus.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital

Mas há situações impactadas negativamente com a Covid-19. Para quase metade dos entrevistados, o maior desafio está na prática de exercícios, profundamente afetada com o necessário fechamento de academias, parques e estúdios fitness. A dieta também sentiu o baque em muitos lares. E basta pensar na rotina mais atribulada dentro de casa para visualizar o porquê.

Quando questionados sobre os pilares do autocuidado mais difíceis de aderir na rotina, disparam justamente esses dois hábitos tão ligados à prevenção e ao controle de obesidade, problemas cardiovasculares e outras doenças crônicas: 46% das pessoas apontam para a alimentação saudável e 65% para a atividade física.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital
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Desafios à mesa

A conscientização sobre a necessidade de assumir mais responsabilidade sobre a própria qualidade de vida encontra obstáculos no cotidiano. Embora mais de 50% dos respondentes acreditem que a pandemia não desgovernou sua alimentação, uma parcela significativa pena para manter o equilíbrio à mesa (e na sala, no quarto, na varanda…). Um terço relata estar consumindo mais doces e percebe descontrole com a comida.

“Estamos vivendo um período de imprevisibilidade. Isso gera ansiedade e afeta o comportamento alimentar”, analisa Antonio Herbert Lancha Jr., especialista em nutrição e atividade física e professor da Escola de Educação Física e Esportes da Universidade de São Paulo. “Daí muita gente fica mais permissiva e, ao consumir alimentos com açúcar ou gordura, a sensação de tensão emocional pode até não desaparecer, mas é mitigada”, completa.

Essa busca por recompensa em situações de estresse dá as caras nos resultados de uma curiosa experiência feita na Universidade Tohoku, no Japão. Os cientistas estimularam os participantes a relembrar momentos em que sentiram raiva, medo ou outras emoções negativas. Em seguida, quando colocados diante de imagens de alimentos, o rastreamento do movimento dos olhos mostrou uma preferência por itens como batata frita e chocolate, em detrimento de iogurtes e saladas.

“Muitos estudos mostram essa relação, e ela está atrelada à concentração de diferentes neurotransmissores no cérebro. A ansiedade reduz os níveis de serotonina, substância ligada à sensação de bem-estar, desencadeando o desejo de ingerir fontes que estimulem a produção dessa molécula. E é aí que entra a indulgência com os alimentos”, explica Lancha Jr. Sim, é pura química cerebral!

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Para quem enfrenta essas angústias na rotina, estabelecer horários para se alimentar, comprar e escolher alimentos mais naturais, frescos e saudáveis e, se for o caso, procurar suporte profissional ajudam a virar o jogo.

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Corpo (s)em movimento

Aderir aos exercícios físicos, para muita gente, nunca foi uma promessa fácil de cumprir. E na pandemia a dificuldade aguçou de vez. Pudera: só agora os parques e academias estão sendo reabertos, com todos os cuidados que a Covid-19 exige. “As informações de que os espaços fechados eram ambientes de contágio ou que mesmo correr na rua tornava as pessoas mais vulneráveis ao vírus geraram uma compreensível insegurança e levaram ao abandono dos treinos por boa parte da população”, contextualiza Lancha Jr.

Quem estava para iniciar algum tipo de atividade desistiu. Muitos até já tinham dado o pontapé inicial no projeto de sair do sedentarismo, mas o hábito ainda não tinha sido bem assimilado quando veio a premência de parar tudo e ficar dentro de casa. “É importante lembrar que o ser humano funciona em um mecanismo de  comportamento-recompensa, e quando essa recompensa não é perceptível, palpável e visível, dificilmente as decisões sobre mudança de vida vão adiante”, esclarece o professor da USP.

Ocorre que, mesmo antes da pandemia, mais da metade da população brasileira já era sedentária, de acordo com o IBGE. Com o coronavírus circulando e a bagunça nas atividades diárias com o espaço doméstico se transformando em estação de trabalho em tantos lares, tudo se complicou. Faltam tempo, energia e motivação para malhar, a despeito de tantos vídeos e tutoriais pela internet.

“Mas é fundamental vencer a inércia, porque a atividade física também contribui diretamente para o bem-estar físico e mental”, ressalta Lancha Jr. “O indivíduo come melhor, dorme melhor e aprimora até seus relacionamentos, porque fica mais relaxado e tolerante, menos pavio curto”, completa.

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Se você não conseguiu sair do sedentarismo ainda, redefina prioridades na rotina, encontre um espaço na agenda e, se possível com as orientações de um profissional, comece aos poucos a se mexer. Com a retomada das atividades nas ruas, dá até pra caminhar e correr por aí, tomando as devidas precauções, como o uso de máscaras.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital

De dar nos nervos e perder o sono

Atravessar um dia com a cabeça livre de preocupações e uma noite naquele repouso tranquilo é meta quase inalcançável para o brasileiro, sobretudo num momento de tanta incerteza. No levantamento, 68% dos participantes sentiram algum impacto no sono, sendo que ele foi expressivo para 34% da amostra. Quem paga o preço da falta de descanso é o corpo e a mente.

Ir para a cama sem regularidade ou não ter um sono reparador, duas condições mais acentuadas com a pandemia, mexe com o coração, por exemplo. Um novo estudo multicêntrico desenvolvido ao longo de cinco anos por universidades americanas indica que dormir e acordar cada dia num horário diferente chega a dobrar o risco de doenças cardiovasculares.

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Na pesquisa Autocuidado em Tempos de Pandemia, a dificuldade de pregar os olhos atingiu especialmente as mulheres — quase o dobro em relação aos homens. “Do dia para a noite, elas assumiram responsabilidades ainda maiores, como acompanhar os filhos nas aulas virtuais, e ficaram significativamente mais desgastadas”, avalia Cesar Bentim, fundador da startup de cuidados em saúde Artegist Healthcare e consultor técnico do estudo.

Um sono insuficiente nos remete a outro problema de saúde pública, agora catapultado com a Covid-19: as desordens mentais e emocionais. Mais de um terço dos entrevistados admite efeitos bem negativos nesse sentido. Bentim defende que é urgente lidar com a questão. “Já despontava a prevalência de distúrbios de ansiedade no Brasil e, segundo a OMS, ocupamos o quinto lugar no mundo em taxa de depressão”, justifica. Pessoas mais ansiosas e deprimidas, por sua vez, sofrem inclusive para levar uma vida mais saudável.

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Ocorre que a busca por suporte psicológico ainda é tímida, pelo menos de acordo com dados da nova investigação. Só 12% das pessoas buscaram ajuda profissional para lidar com sentimentos como insegurança, medo e ansiedade. Para gerenciar o estresse, a maioria recorre a expedientes como ver filmes e séries na TV e navegar pela internet. Lembre-se: se a tensão está incomodando, pode ser a hora de procurar um médico ou psicólogo.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital
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Idas ao hospital antes e depois da pandemia

O justificável medo de sair de casa reduziu a procura por hospitais e consultórios: 56% dos respondentes da pesquisa têm receio de se contaminar com o coronavírus nesses locais. Para suprir a necessidade de orientações, esboça-se um movimento de busca por consultas a distância. É uma tendência que deve se consolidar após a pandemia e que irá atender a uma demanda global no modelo de assistência médica.

A OMS recomenda que o mundo se prepare para uma escassez estimada de 18 milhões de trabalhadores na área da saúde até 2030. A tecnologia poderá ajudar a driblar essas barreiras, que afetam sobretudo as camadas mais pobres e vulneráveis da população.

De acordo com especialistas, a Covid-19 resgatou a importância de se ter consciência de quando é hora de procurar um pronto-socorro. Isso é algo bem-vindo não só para o indivíduo e sua família mas também para o sistema de saúde como um todo. Se o cidadão não tem sintomas importantes ou persistentes, receber orientação remota, por exemplo, pode evitar a ida ao hospital e à exposição a vírus e outros patógenos, além de não sobrecarregar a rede de atendimento — ponto crítico em uma epidemia.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital
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“Quando seguimos os pilares do autocuidado de forma disciplinada e consistente, diminuímos a necessidade de utilização do sistema de saúde, evitamos consultas desnecessárias e contribuímos com a produtividade geral, inclusive porque faltamos menos ao trabalho”, argumenta Bentim. E esses preceitos têm tudo a ver com a prevenção ou o abandono a comportamentos nocivos. “O tabagismo é um exemplo de bons resultados alcançados. Basta observarmos dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostrando que passamos de 34,8% fumantes em 1989 para 18,5% em 2008 no país”, aponta o consultor do levantamento.

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É evidente que algumas situações pedem uma visita ao pronto-socorro (e quanto antes!). É o caso de sintomas suspeitos de infarto ou AVC. Inclusive um dos efeitos colaterais terríveis da pandemia foi a queda no atendimento dessas emergências potencialmente fatais e mais óbitos em casa. Seguindo essa linha de raciocínio, quem pegou o coronavírus e tem quadros brandos até pode ficar quietinho no seu lar. Mas, se os sintomas piorarem ou pintar falta de ar, convém ir para o hospital mais próximo.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital
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Autoconhecimento e automedicação

As constantes notícias sobre a Covid-19 vêm despertando na população um olhar mais apurado para os recados que o corpo dá quando algo não vai bem — pelo menos seis em cada dez entrevistados declaram estar prestando mais atenção em tudo que está sentindo. “O autoconhecimento possibilita diferenciar problemas amenos, como um resfriado, de algo mais sério”, afirma Marli Sileci, vice-presidente executiva da Abimip.

Para ela, o amadurecimento dessa postura, como confirma a pesquisa, se reflete no uso de medicamentos isentos de prescrição médica, os MIPs. “Tomar remédio por conta própria deve ser uma prática responsável pautada por orientação e educação, a fim de que o indivíduo conheça o próprio organismo e faça escolhas eficazes e seguras”, resume Marli.

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A VP da entidade destaca quatro regras básicas para uma utilização adequada desses produtos, que incluem remédios para combater dor, febre, azia, diarreia, etc:

1. Usar apenas diante de pequenos males ou sintomas menores, já diagnosticados ou conhecidos
2. Escolher somente medicamentos isentos de prescrição médica devidamente registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), de preferência com a ajuda de um farmacêutico
3. Ler sempre as informações da bula
4. Parar de tomar o remédio e procurar um médico se os sintomas persistirem

“Seguindo esses passos, a utilização dos MIPs colabora com um sistema de saúde mais sustentável, já que não é preciso recorrer a um hospital para resolver problemas corriqueiros”, conclui Marli. Nesse contexto, Cesar Bentim acredita que a figura do farmacêutico vá ganhar ainda mais destaque. “Esse profissional é peça-chave no autocuidado. Valorizar o farmacêutico é estratégico para o sistema de saúde funcionar bem”, defende.

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Essa conexão, aliás, pode ajudar a desfazer a persistente confusão entre automedicação e autoprescrição, detectada na pesquisa. “A automedicação responsável consiste na utilização dos MIPs, que incluem fármacos com baixa toxicidade, caso de analgésicos, antitérmicos e antiespasmódicos”, esclarece o médico toxicologista Sergio Graff, diretor da Toxiclin, empresa especializada em reações adversas e intoxicações em São Paulo. “Imagine se uma mulher que toma um determinado remédio para cólica tivesse que ir todo mês ao serviço de saúde para conseguir uma receita. Além de impraticável, o custo para o setor seria enorme”, exemplifica.

A autoprescrição, por sua vez, envolve o uso de remédios que exigem receita e, infelizmente, às vezes são adquiridos mesmo sem o pedido médico (entram aqui anti-inflamatórios, anti-hipertensivos, antibióticos…). “Essa atitude pode trazer uma série de riscos, uma vez que esses fármacos não têm um perfil de segurança como o dos MIPs”, esclarece Graff.

A boa notícia, conta o médico, é que, comparando os meses de março a junho de 2019 com o mesmo período de 2020, não se observou um aumento significativo de acidentes com remédios atendidos na Toxiclin. Melhor ainda: houve um incremento no número de chamadas para tirar dúvidas sobre a utilização de medicamentos.

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Infográfico: Thiago Lyra/SAÚDE é Vital
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Remédios contra as fake news

Um dos dados que mais chamam a atenção na pesquisa Autocuidado em Tempos de Pandemia é que as pessoas passaram a se preocupar com a fonte da informação e a disseminação das notícias falsas. Quase nove em cada dez entrevistados afirmam que serão mais criteriosos com os conteúdos de saúde e 75% já se conscientizaram sobre o alcance e o perigo das fake news. Embora a maioria se informe pela TV, são mais valorizados no “novo normal” os sites especializados em saúde e as opiniões dos profissionais da área.

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“Mas continua sendo problemática a busca por remédios milagrosos ou aqueles indicados por um vizinho ou mencionados na internet”, pondera Graff. “Com a Covid-19, não é raro as pessoas sem qualquer sintoma e sem orientação médica se medicarem baseadas em relatos de redes sociais”, lamenta. Segundo o toxicologista, isso reforça a necessidade de se investir em campanhas sérias, sem viés ou ideologia, que eduquem a população de forma consistente. Até porque a informação tem que virar atitude.

Embora não existam saídas fáceis para o ecossistema das fake news, os especialistas acreditam que só mobilizando mídia, profissionais de saúde, indústria, ONGs e governo conseguiremos sobrepujar as pseudonotícias com conteúdos de credibilidade e baseados em evidências científicas. E isso é crítico em relação a estratégias decisivas para a saúde coletiva, como o emprego de vacinas. Pelo estudo, 32% dos brasileiros não confiam totalmente nelas e 40% admitem não estar com todos os imunizantes em dia.

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Marli Sileci vê o cenário pós-pandemia com otimismo: “As pessoas permanecerão atentas com cuidados como as questões de higiene. Só nos resta intensificar essas ações para que não caia no esquecimento a importância de pequenas atitudes quando se trata de salvar vidas”, enfatiza. Na pesquisa, oito em cada dez brasileiros demonstram a intenção de assumir maior responsabilidade sobre a própria saúde e se cuidar mais. É hora de botar a palavra autocuidado em prática!