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O papel da espiritualidade no tratamento do câncer

Médico examina como a dimensão espiritual impacta no enfrentamento de uma doença séria como o câncer

Por Dr. Felipe Moraes, oncologista*
18 out 2019, 12h04

O ser humano é um ser espiritual. Sem essa premissa, não é possível propor um cuidado de saúde verdadeiramente holístico. Nesse sentido, a espiritualidade pode ser definida como a essência da existência humana, a maneira como o indivíduo se conecta com o transcendente e com aquilo que dá valor, significado e propósito para sua vida. Diante de situações difíceis, caso de doenças graves como o câncer, ela pode ajudar a lidar com o adoecimento e proporcionar ao paciente um melhor bem-estar psíquico e físico, além de menos dor e depressão.

A relação que a espiritualidade estabelece com a saúde física, psicológica e social é complexa e, ainda hoje, apenas parcialmente conhecida. Não se deve, portanto, estabelecer relações simples entre a vida espiritual e o resultado de tratamentos oncológicos.

A espiritualidade será sustento das esperanças dos pacientes, independentemente dos desfechos alcançados, apoiando-os em todas as fases do tratamento, desde o diagnóstico até a cura ou mesmo até a terminalidade. Ela é onipresente ao longo de toda a jornada do cuidado. Basta estar atento a ela, ouvindo-a e falando abertamente a respeito.

Hoje, tratar da espiritualidade é algo muito mais simples do que há dez anos. O Brasil tem aumentado o número de estudos e publicações sobre o tema e, de forma geral, os espaços acadêmicos e assistenciais estão mais abertos ao fato de que ela é importante no enfrentamento das doenças.

Há grupos diversos que abordam o assunto e a própria BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, de forma pioneira, abriu as portas para que fosse montado um ambulatório de cuidados em espiritualidade dentro da especialidade de oncologia. No âmbito de pesquisa científica, estamos realizando um estudo para avaliar as barreiras que impedem o cuidado espiritual dentro da instituição e a importância que os profissionais de saúde atribuem ao tema.

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Sem dúvida, há uma abertura muito maior à integração da espiritualidade no conjunto dos cuidados. Mas, mais do que buscar uma associação entre cura e espiritualidade, o que nós precisamos é entender que ela pode e deve fazer parte do tratamento. A maior parte dos colegas médicos tem dificuldade em lidar com essa ideia porque não recebeu um preparo adequado para isso na graduação, por não considerá-la como algo de sua competência ou mesmo por não ter tempo para discutir o assunto com os pacientes.

De qualquer forma, é fundamental que toda assistência seja sempre centrada a partir da perspectiva do paciente. As instituições, de uma maneira geral, precisam incorporar a espiritualidade como parte do protocolo assistencial, desenvolvendo meios de rastreio de sofrimento espiritual, facilitando o acesso a capelães e outros profissionais aptos a prestar esse trabalho e, mais importante, integrando essa assistência aos demais cuidados com o indivíduo em tratamento. Assim, permitiremos aos pacientes que se sintam devidamente assistidos e cuidados na sua integralidade.

*Dr. Felipe Moraes é oncologista na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo

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