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O mito da carência de vitamina D

Um médico questiona o alto número de pessoas que recebem suplementos de vitamina D. E mostra quando a reposição realmente é necessária

Por János Valery Gyuricza, médico da família*
Atualizado em 16 mar 2023, 16h54 - Publicado em 23 jan 2020, 17h47

Atualmente, estão mais comuns do que deveriam os pedidos médicos para os exames de vitamina D e as receitas que prescrevem a sua suplementação. E isso pode representar um perigo! Se pensarmos em um país tropical como o Brasil, em que durante todo o ano a exposição solar —a principal fonte de vitamina D natural — é suficiente, parece ser um exagero tantos pedidos de exames e prescrições.

A fim de prevenir problemas obscuros relacionados ao ‘envelhecimento celular’ e doenças autoimunes, além de ‘enfraquecimento dos ossos’, muitos profissionais receitam altas doses de vitaminas D aos seus pacientes. Mas será que isso é necessário?

É comprovado que a carência dessa vitamina prejudica a saúde de uma pessoa. Considerada um pré-hormônio, a vitamina D apresenta papel crucial na regulação do cálcio no organismo e, consequentemente, na saúde óssea.

Mas, se a falta dela traz problemas, as superdosagens também podem apresentar sérios riscos à saúde, quando usadas de maneira desnecessária. A hipercalcemia, ou seja, o excesso de cálcio no sangue, é uma das consequências do excesso de vitamina D. Não raro, ela provoca pedras nos rins e a perda da função desse órgão. A hipervitaminose D também pode, paradoxalmente, prejudicar a saúde dos ossos, pois induz ao desequilíbrio da renovação dos tecidos ósseos, entre outros problemas.

Curiosamente, é possível observar uma dicotomia entre pedidos de exames e suplementação da vitamina D em dois países que fazem divisa, Canadá e Estados Unidos, e que compartilham de muitas características comuns.

Em 2000, quatro a cada mil adultos norte-americanos com mais de 70 anos declararam tomar o suplemento diário de 25 miligramas (mg) de vitamina D. Somente nos EUA, o volume de testes para avaliar os níveis dessa substância no organismo cresceu 83 vezes de 2000 a 2010, impulsionando o consumo de suplementos. Embora no Brasil não tenhamos dados tão refinados, é perceptível na prática clínica uma trajetória semelhante.

Já no Canadá, um estudo realizado por diversos especialistas sob recomendação da campanha Choosing Wisely, que promove o uso racional de recursos na área da saúde, indicou que a cidade de Alberta diminuiu em cerca de 91,4% o número de testes para medir a deficiência de vitamina D após a implementação de um formulário eletrônico.

Esse formulário basicamente exige que os médicos que solicitam exames de vitamina D comprovem que o paciente esteja em tratamento ou tenha algum quadro que justifique a avaliação e a eventual suplementação. Eles citam doença metabólica ou óssea, níveis anormais de cálcio no sangue, síndrome de má absorção, doença renal crônica ou doença hepática crônica.

Esse estudo sugere que, na prática, boa parte dos médicos canadenses não tinha uma real necessidade para pedir o exame antes da implantação do tal formulário eletrônico. Novamente, não temos dados tão consolidados no Brasil, mas é pouco provável que essa lógica seja diferente.

Aliás, aqui no Brasil uma pesquisa recente da Universidade Estadual Paulista (Unesp) aponta, em ratos, que o déficit de vitamina D promove alterações importantes na forma e na função do coração, o que reforça a importância da substância para esse órgão. Porém, outro estudo indica que doses crescentes dessa substância (que até então não provocavam riscos ou toxicidade) levaram ao aparecimento de hipertensão e alterações na aorta, aumento do músculo cardíaco e piora da função do coração. De novo, o experimento foi conduzido em animais.

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Ou seja, o equilíbrio entre falta e excesso de vitamina D é mais complexo do que nos parece à primeira vista. Os dados que citei revelam o impacto da vitamina no sistema cardiovascular, endossando a preocupação com as consequências de doses altas nesse contexto, por exemplo.

Então é importante determinar quem possivelmente precisará realizar exames e fazer suplementação dessa vitamina:

  • Pessoas acima dos 60 anos
  • Sujeitos que sofrem quedas e fraturas recorrentes
  • Gestantes e lactantes
  • Indivíduos com osteoporose e doenças osteometabólicas, tais como raquitismo e osteomalácia
  • Portadores de doença renal crônica
  • Situações de má absorção de nutrientes, como quem tem doença inflamatória intestinal ou fez cirurgia bariátrica
  • Pessoas que usam medicações que podem interferir com a vitamina D: antirretrovirais, corticoides, anticonvulsivantes…
  • Pacientes com câncer
  • Presença de sarcopenia (perda de massa e força muscular)
  • Diabéticos
  • Indivíduos com obesidade
  • Pessoas que não se expõem ao sol ou possuem contraindicação a essa exposição
  • Indivíduos com pele escura
  • Pacientes com insuficiência cardíaca

Uma vida com hábitos equilibrados, que incluem uma alimentação diversa, atividade física frequente e exposição moderada ao sol, é suficiente para a maioria das pessoas manter níveis adequados de vitamina D, ossos fortes e corpos saudáveis. Essas práticas também evitam exames e suplementações desnecessárias. Muitas vezes, menos é mais.

*János Valery Gyuricza é Head de Medicina na Cuidas, startup que conecta empresas com médicos e enfermeiros para atendimentos no próprio local de trabalho. É médico formado pela Universidade de São Paulo, com residência em Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas, na mesma universidade. É doutorando pelo Departamento de Medicina Preventiva (USP), em parceria com a Research Unit for General Practice da Universidade de Copenhague.

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