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Acesso a tratamento e diagnóstico de cânceres raros são gargalos no Brasil

Especialista aponta desafios que, no fim das contas, podem encurtar a vida de pessoas com esses tumores

Por Rony Schaffel, médico*
15 Maio 2024, 12h23

O câncer atinge cerca de 700 mil brasileiros anualmente. Desses, estima-se que 2 a 3% sejam por tumores raros. Se o acesso a diagnóstico e tratamento já é um desafio para a população diagnosticada com formas mais prevalentes da doença, as dificuldades são ainda maiores quando se trata de um caso raro.

O acesso ao diagnóstico é um desafio, seja pelo alto custo de alguns procedimentos, seja pelo conhecimento dos profissionais, seja pela falta de capilaridade de unidades preparadas para exames complexos.

Vencida a barreira do diagnóstico, o paciente passa a enfrentar uma jornada: a de conseguir o tratamento mais adequado. Desde a demora até a indisponibilidade de medicamentos modernos, são vários os obstáculos enfrentados, tanto na rede pública quanto na privada.

Se tomarmos como exemplo o linfoma de células do manto (LCM), um dos mais de 80 subtipos de linfoma não-Hodgkin, podemos dizer que os gargalos de diagnóstico e tratamento podem representar uma sentença de morte.

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O LCM acomete mil pessoas no Brasil todos os anos e pode evoluir para formas potencialmente mortais em pouquíssimo tempo. Daí a importância de um diagnóstico rápido e de tratamento ainda nos estágios iniciais.

+Leia também: Câncer inguinal: o que é doença que matou Anderson Leonardo, do Molejo

Pessoas que convivem com esse tipo de linfoma, assim como com outros cânceres raros, precisam receber diagnóstico e tratamento que levem em conta fatores como estágio da doença, extensão do tumor, idade, tolerabilidade às opções terapêuticas e outros mais específicos de cada caso. Em linfomas, tudo isso começa com uma avaliação de um médico que reconheça a possibilidade de um câncer e que solicite uma biópsia do local afetado ou encaminhe o paciente para um especialista. 

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Após a espera até a biópsia, um patologista especializado deve proceder os testes de imunohistoquímica, essenciais para chegar a um diagnóstico preciso de LCM, e isso passa longe da realidade do país, que convive com uma grande lacuna desses profissionais. 

O tratamento do LCM também é diferente dos outros linfomas, porque ele é mais resistente à quimioterapia. Quando possível, até o transplante autólogo de medula óssea é realizado logo de início. 

A falta de políticas públicas para cânceres raros é latente, o que dificulta a incorporação de novos medicamentos na rede pública e na rede privada.

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Essa discussão se faz cada vez mais relevante em um cenário com inovações tecnológicas, como a terapia com células CAR-T, que permite modificar células específicas do sistema imunológico para atacar tumores, e as terapias-alvo. 

As novas formas de abordagem da ciência chegam para permitir novos caminhos para pacientes que já haviam chegado a um “fim da linha” em termos de terapia.

De novo pensando no LCM e em outros linfomas, uma terapia inovadora são os inibidores covalentes da tirosina quinase de Bruton (BTK), já disponíveis no Brasil e aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). 

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São medicamentos orais cujo acesso na medicina privada está garantido por fazerem parte da lista de antineoplásicos de fornecimento obrigatório da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Mas, como são comprimidos de uso contínuo e ainda com custo elevado, sua utilização pelo paciente do SUS está impedida. 

Recentemente, o primeiro inibidor não covalente da BTK, o pirtobrutinibe, foi lançado no Brasil para os pacientes resistentes ou intolerantes aos inibidores covalentes de BTK. Nos estudos realizados com este novo medicamento, houve melhora da sobrevida global (a duração teve uma mediana de 17,6 meses e a sobrevida global ficou em 23,5 meses, em um cenário em que o esperado anteriormente era em torno de 10 meses) e redução do volume da doença em 57%. 

Vivemos em uma época na qual tratamentos cada vez mais modernos são oferecidos para pacientes oncológicos em todo o mundo. Na contramão disso, ainda damos passos lentos para permitir que os pacientes realmente acessem essas tecnologias. 

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A medicina corre e precisamos acompanhá-la para que suas descobertas cheguem a quem mais precisa. A regra tem que ser clara: acesso e diagnóstico não podem ser gargalos, têm que ser solução. 

Rony Schaffel é médico, PhD em linfoma, leucemia e transplante e professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro

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