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De Columbine a Suzano, o terrível impacto dos massacres em escolas

Nos 20 anos do ataque a um colégio em Columbine (EUA), a realidade é que 3 em cada 10 sobreviventes de tragédias do tipo sofrem com estresse pós-traumático

Quem visita o Hope Columbine Memorial Library, construído em homenagem às vítimas do massacre de Columbine, no estado do Colorado, nos Estados Unidos, depara com a seguinte inscrição gravada no chão de pedra: “Nunca esquecido”. De fato, como dá pra esquecer o ataque que, na manhã de 20 de abril de 1999, deixou um rastro de 13 mortos – 12 alunos e um professor – e 21 feridos em uma escola de ensino médio na cidadezinha de pouco mais de 24 mil habitantes? Impossível.

Ao longo de 18 anos, os EUA contabilizaram pelo menos 220 incidentes com armas de fogo em escolas de ensino infantil, fundamental e médio. Ao todo, 128 pessoas, entre alunos, professores e funcionários, morreram e 258 ficaram feridas. O mais sangrento deles foi o de Sandy Hook, em Connecticut. No dia 14 de dezembro de 2012, o atirador matou 20 alunos, com idades entre 6 e 7 anos, e seis funcionários.

No Brasil, o primeiro caso de ataque à escola que teve desfecho trágico aconteceu em 28 de outubro de 2002, quando um estudante de 17 anos matou a tiros duas colegas de turma, Vanessa Carvalho Batista e Natasha Silva Ferreira, ambas de 15 anos, em uma escola particular de Salvador. Desde então, outros quatro episódios, envolvendo vítimas fatais, foram registrados. O mais recente e assustador, na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na região da Grande São Paulo, terminou com nove mortos e 16 feridos.

O fardo desses ataques assombra também quem sobrevive a eles. Um estudo do National Center for Posttraumatic Stress Disorder (PTSD), que investiga o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), indica que três em cada dez sobreviventes de massacres a escolas tendem a desenvolver o distúrbio. Ele vem à tona quando situações como choro, raiva, medo, pesadelos, isolamento social e a reexperiência traumática toda não perdem intensidade mesmo depois de um mês do evento.

“Em 80% dos casos, os portadores de TEPT melhoram bastante, ficando apenas sintomas residuais. Já os 20% restantes são mais refratários ao tratamento. Dos que apresentam melhoras, 40% ficam totalmente curados”, explica o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, coautor de Transtorno de Estresse Pós-Traumático – Diagnóstico e Tratamento (Manole, 2005) e Transtorno de Estresse Pós-Traumático – Violência, Medo e Trauma no Brasil (Atheneu, 2011).

O drama de quem sobreviveu

A estudante Isadora de Morais, de 15 anos, é uma das sobreviventes do ataque ao Colégio Goyases, em Goiânia, que resultou na morte de dois alunos, João Pedro Calembo e João Vitor Gomes, ambos de 13 anos, e feriu quatro, no dia 20 de outubro de 2017. “Quando caí, já não sentia minhas pernas. Tentei rastejar na direção da porta, mas não consegui”, recorda a adolescente, que ficou paraplégica após ser baleada por um colega do 8º ano.

Filho de um casal de policiais militares, o atirador, de 14 anos, foi apreendido pela polícia após o ataque e está cumprindo pena de três anos em um centro de internação para menores infratores. “O que dói mais é saber que, ano que vem, ele será solto e eu vou ficar na cadeira de rodas para o resto da vida”, lamenta.

Um ano e quatro meses depois, Isadora faz quatro sessões semanais de fisioterapia – duas em casa e duas no Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer) – e, até hoje, toma antidepressivos. Para os médicos, sua lesão medular é definitiva, ou seja, não há perspectiva de reversão.

Mesmo assim, ela não desanima. “Sou muito confiante. Quem sabe, um dia, as pessoas com paraplegia não voltarão a andar? A medicina ainda vai nos surpreender muito”, acredita.

Do luto à luta

Não são apenas os sobreviventes que tendem a sofrer do estresse pós-traumático. Ele afeta familiares e testemunhas também. “O tratamento ideal é uma combinação de psicoterapia e remédios. Nos quadros potencialmente traumáticos, a intervenção precoce é fundamental”, recomenda o psiquiatra José Paulo Fiks, do Serviço de Assistência e Pesquisa em Violência e Estresse Pós-Traumático da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Permanecer no local da tragédia, sem acompanhamento especializado, pode ser tóxico”.

Fundadora e presidente da associação Anjos de Realengo, que reúne parentes das vítimas do massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro, Adriana Silveira, de 47 anos, resistiu quanto pôde a fazer uso de ansiolíticos e antidepressivos ou a participar de sessões de terapia. “No começo, recusei toda e qualquer ajuda. Mas, depois de um ano e meio, tive que me render. É ingenuidade achar que vamos sair de uma tragédia dessas por inteiro”, admite.

Ainda hoje, Adriana fica sobressaltada ao ouvir o barulho das hélices de helicópteros ou das sirenes de ambulâncias. Na mesma hora, vem à lembrança a manhã do dia 7 de abril de 2011, quando um ex-aluno, de 23 anos, invadiu a escola e efetuou disparos que mataram 12 alunos e feriram outros dez. Um dos tiros atingiu Luiza Paula, de 14 anos, filha de Adriana. “Crianças gritando com o uniforme sujo de sangue e eu, perdida no meio delas, procurando minha filha”, lembra.

Na esperança de amenizar a dor dos que ficaram, Adriana fundou a associação Anjos de Realengo. Pelo menos uma vez por mês, os 90 membros, entre sobreviventes e familiares das vítimas, se reúnem para ouvir os desabafos uns dos outros e ajudar no que for possível. “Entre os membros, temos uma menina na cadeira de rodas, outro que ficou cego de uma das vistas e um terceiro à beira da loucura. Todos nós temos sequelas que levaremos para o resto de nossas vidas”, afirma.

Que a sociedade ouça de verdade esses lamentos para poder dar a mão a quem precisa e impedir que tragédias do tipo se repitam.