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Com a Palavra Por Blog Neste espaço coordenado pelo jornalista Diogo Sponchiato, especialistas, professores e ativistas dão sua visão sobre questões cruciais no universo da saúde

Qual sistema de saúde precisamos para enfrentar futuras pandemias?

Membros do Governo Britânico discutem como o coronavírus expôs fragilidades na infraestrutura de saúde - e o que fazer para resolvê-las quanto antes

Por Arly Belas e Danilo Guimarães, do Governo Britânico* 2 dez 2020, 16h18

O coronavírus mostrou que nossos sistemas de saúde são mais frágeis do que podíamos prever. É uma crise global sem precedentes: enfrentamos escassez de medicamentos essenciais, de ventiladores, de testes diagnósticos, de acesso a leitos, de profissionais de saúde e de equipamentos para protegê-los.

O que, então, precisamos fazer para criar um sistema de saúde resiliente, capaz de enfrentar futuras pandemias?

Infraestrutura hospitalar é um aspecto vital, mas não adiantaria nada termos leitos de cuidados intensivos se não contarmos com equipes de saúde preparadas e um sistema com flexibilidade. Também seria insuficiente ter muitos prédios, mas sem uma rede bem montada de recursos e suprimentos disponíveis. O sistema de saúde vai muito além de leitos e hospitais.

Em primeiro lugar, para que os sistemas possam responder às próximas emergências, os países devem estabelecer políticas de saúde, sociais, industriais e econômicas focadas em antecipar necessidades de longo prazo, permitir agilidade na tomada de decisão e manter qualidade e transparência dos processos.

A pandemia mostrou a importância de integração às cadeias de suprimento internacionais e de boa capacidade produtiva local. Mais de 10 bilhões de dólares já foram empregados por iniciativas públicas e privadas ao redor do mundo para o desenvolvimento, produção e acesso de uma vacina para a Covid-19. Mas hoje, por exemplo, muitos países não possuem quantidade suficiente do plástico utilizado no envase de doses nem a tampa que garante o lacre.

  • Uma solução para desafios como esse seria a adoção de políticas industriais de saúde que fomentem a formação de polos de produção e a diversificação de parceiros internacionais. Não é possível depender de um ou dois países para suprimentos básicos. Sem diversificação de parceiros e o fortalecimento da indústria nacional em áreas como a farmoquímica, o Brasil e outros países ficam muito frágeis. Isso não se faz só com política industrial, mas também com mudanças no cenário de negócios, que facilitem e deem segurança aos investimentos das empresas.

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    Em segundo lugar, é fundamental criar um ambiente inovador, com maior interação entre atores do governo, indústria, academia, operadores de saúde públicos e privados e agentes financiadores. Ninguém sabe, afinal, qual será a próxima pandemia.

    Os países também devem ter estratégias para saúde digital. Isto é, desenvolver as habilidades na força de trabalho de acordo com esta tendência, manter a privacidade e segurança dos dados de saúde e transformá-los em informações relevantes para tomada de decisões estratégicas.

    O Reino Unido enfrentou e ainda enfrenta diversos desafios. Algumas das lições aprendidas já serviram para mudar a forma como o tratamento dos pacientes é feito dentro e fora dos hospitais, cobrindo uma série de novas (e não tão novas) tecnologias. Por exemplo: hoje, 90% das consultas no Reino Unido são realizadas remotamente, contrastando com 90% sendo presenciais antes da pandemia.

    O Reino Unido é um dos países que mais se comprometeu em comprar futuras vacinas e hoje sedia o maior ensaio clínico de tratamentos para pacientes com Covid-19 do mundo, com mais de 110 mil pacientes de 165 hospitais do NHS, o SUS britânico. Mesmo financiando a pesquisa de Oxford, o governo britânico acredita que é preciso estar aberto a toda solução que a ciência tiver à disposição. Inovação também é se abrir para conhecimentos que vêm de outros países.

    Nenhum sistema de saúde é perfeito e seu aperfeiçoamento não se dá de um dia para o outro. Isso requer estabilidade governamental e uma colaboração entre todas as partes (governo, sociedade, indústria, academia) para se encontrar soluções de longo prazo.

    Em 2016, vimos a epidemia do ebola assolar a África Ocidental. De lá para cá, poucas coisas mudaram em relação à estruturação dos sistemas de saúde da maioria dos países. Podíamos ter aprendido com a África, mas desprezamos a lição. Não podemos repetir esse erro com a Covid-19. Como diz o velho (e verdadeiro) clichê: prevenir é melhor do que remediar.

    *Arly Belas é Líder Regional na América Latina e Caribe para os setores de Saúde e Ciências da Vida do Governo Britânico. Danilo Guimarães é Líder no Brasil para os setores de Saúde e Ciências da Vida do Governo Britânico.

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