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Eu quero ir para a Olimpíada dos Transplantados

No Dia Nacional de Doação de Órgãos, uma paciente que se submeteu a um transplante de rins conta sua trajetória e como ela mudou após essa operação

Eu sou prova viva de como o transplante de órgãos pode salvar e mudar a vida de uma pessoa — e vou contar minha história para você entender isso. Até os 9 anos, eu era uma criança bem acima do peso. Aí comecei a emagrecer muito e fazer xixi na cama, o que não é comum nessa idade. Minha mãe, ligada em questões de saúde, logo viu que algo estava errado e me levou ao médico. O diagnóstico foi de diabetes tipo 1.

Era véspera de Natal e aquilo foi um choque para a família. No início dos anos 1990, o tratamento de diabetes no Brasil não era tão avançado como hoje e quase não existiam alimentos sem açúcar nos mercados nacionais. Meu pai, que tinha conhecidos no exterior, importava produtos Diet para mim.

Mesmo com as restrições, nunca fiquei com vergonha da minha condição. Por que teria? É parte de quem eu sou.

Na escola, me chamavam de Dani Diet. Eu era sempre a voluntária para as aulas de laboratório em que se vê o tipo sanguíneo ou para explicar a ação da insulina no organismo.

Sempre prezei pela minha liberdade e, incentivada pelos meus pais, desde os 10 anos já sabia me cuidar. Se precisasse parar no meio do shopping ou na escola para tomar minha dose de insulina, eu parava e injetava o medicamento ali mesmo. Uma vez uma senhora viu e achou que eu estava me drogando. Ela até chamou a segurança — foi uma confusão.

A questão é que, na adolescência, tive uma fase rebelde. Eu não queria tomar insulina e comia doces escondida, o que acabou desestabilizando o diabetes. Mas minha vida mudou mesmo entre o final de 2016 e o começo de 2017, quando meus rins entraram em falência. O nefrologista disse que eu precisava me preparar para a hemodiálise.

Não foi fácil nem pra mim e nem pra minha família me ajustar a esse tratamento, que exige idas constantes para uma clínica ou hospital, onde uma máquina filtra as toxinas do sangue. Eu fazia hemodiálise diariamente.

Não posso dizer que a fase de adaptação foi tranquila. Não foi. Estava muito debilitada. Mas, passado esse período inicial, percebi que era possível levar uma vida boa.

Em meio ao tratamento, fui pedida em casamento pelo homem da minha vida. Richardson acha que eu sou a mulher mais forte do mundo e não mede esforços para me agradar e me ajudar no que for preciso. Logo eu, que pensava que ninguém ia me querer desse jeito, cheia de cicatrizes.

Ainda assim, optamos por adiar os planos para o casamento. Por quê? Eu queria antes fazer um transplante de rins, até para ganhar autonomia e qualidade de vida.

Logo que comecei a hemodiálise, entrei também na fila do transplante. Após umas idas e vindas, veio uma ótima notícia: havia órgãos compatíveis para mim. No dia 7 de maio de 2019, fui operada.

O transplante mudou, literalmente, a minha vida e tirou os meus receios. Hoje tenho um dia a dia mais livre. Me alimento bem, sou mais leve, quero voltar a trabalhar e, finalmente, planejar meu casamento. Logo quero praticar esportes e, quem sabe, ir para as Olimpíadas dos Transplantados.

 *Danielle Regine Francisco Bastos é paciente da Clínica de Doenças Renais de Niterói, tem diabetes tipo 1 e se submeteu a um transplante duplo de rins em decorrência de uma falência renal.