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Aids: o que ganhamos com ela?

A síndrome da imunodeficiência adquirida entrou para a história provocando efeitos colaterais na ciência

Diante de um problema desconhecido e altamente letal, investimentos astronômicos foram canalizados para os centros de pesquisa. Um vírus, o da imunodeficiência humana (HIV), movimentou uma caça às bruxas e, quando descoberto, tornou-se inimigo público número 1. Em meio a essa corrida, que invadiu o século 21, aprendemos como é organizado nosso sistema imunológico e desvendamos a natureza e as estratégias de ataque dos vírus. 
 
“A virologia se divide em antes e depois do HIV”, sentencia o infectologista Caio Rosenthal, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo. Avançamos na compreensão do genoma. “Com os estudos em HIV, passamos a identificar perfis genéticos que acusam se uma pessoa terá uma progressão mais lenta ou rápida da doença”, conta a farmacêutica Rejane Grotto, da Universidade Estadual Paulista, em Botucatu. O boom de informações geradas em laboratório extrapolou os ganhos contra a aids e aprimorou a abordagem das hepatites virais e do câncer.
 
“Não tenho dúvida de que o conhecimento gerado em função do HIV ainda não foi totalmente empregado em outras doenças”, diz o infectologista Celso Granato, do Laboratório Fleury. Na esteira do progresso, porém, exames se aperfeiçoaram e novas drogas surgiram. A ordem de conter o vírus resultou em mais segurança nos procedimentos médicos, como a triagem do sangue para doação e o uso de agulhas descartáveis. São mudanças que mal notamos no cotidiano, mas que afetam, e muito, a nossa vida.
 

A queda do estigma 

Graças ao coquetel, o soropositivo não veste mais o traje de carne e osso e, quando segue o tratamento à risca, pode levar uma vida próxima do normal. “O problema é que, se o paciente não adere a no mínimo 95% da terapia, sua resposta tende a cair”, diz Caio Rosenthal. É um engano rotular a aids como uma doença sob controle. Erro compartilhado por uma nova geração que, embora tenha crescido nos tempos da camisinha, nutre a sensação de que o HIV é uma peste enterrada no século 20. “Ele não é um problema do passado, mas do futuro”, não hesita em dizer o virologista Paolo Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. 
 
O perigo ronda também quem atravessa a sexta ou a sétima década de vida. A popularização dos remédios contra a disfunção erétil se somou à falta do hábito de vestir o preservativo. O resultado são novos casos em uma faixa etária que, a princípio, enfrentava um menor risco. Ninguém está imune e, por isso, só há um caminho seguro para escapar do vírus. “A prevenção é o carro-chefe”, afirma Dirceu Greco. Mesmo quem porta o HIV precisa se precaver, sob pena de contrair outros subtipos do micro-organismo. “A recombinação dos vírus pode diminuir a eficácia das drogas”, alerta Zanotto. Além do sexo seguro, especialistas defendem mais uma medida para cercar o inimigo: a inclusão de exames de HIV nos checkups anuais. O diagnóstico precoce faz a diferença não apenas ao paciente. O mundo inteiro sai ganhando.
 
Enquanto torcemos por uma vacina perfeita e um remédio capaz de desentocar e matar as sobras do vírus, deparamos com a última e difícil lição. “Parece que, até agora, o homem está apertando sempre a campainha e a porta não abre. Talvez ele tenha que dar um passo para trás e pensar em outro jeito de entrar na casa”, compara Zanotto. “Apesar de tudo o que descobrimos, ainda estamos amarrados pela falta de conhecimento”, constata Granato. Para vencer o HIV, precisamos rever a própria forma de fazer ciência e transgredir nossas limitações. Ainda temos muito que aprender antes de derrotar essa doença, que se desprendeu de tintas apocalípticas e ensinou o ser humano a compreender melhor os fenômenos que regem a vida. Não foi o fim do mundo. Não foi o fim da vida. Não é o fim do sonho.
 
Num futuro distante
“É possível que, daqui a milhões de anos, o HIV se integre de vez no DNA do homem”, especula Paolo Zanotto. A ligação não se completou até hoje porque ele arruína nosso corpo. Está comprovado que herdamos genes de outros retrovírus. Há milhares de anos, esses micro-organismos aniquilaram animais. Feita a aliança com o hospedeiro, seus genes passaram a trabalhar pela formação da placenta. Será que o HIV também trará alguma recompensa à nossa espécie?
 

As frentes de combate

Conheça as estratégias investigadas pela ciência que prometem prevenir ou aprimorar o tratamento do HIV
 
Vacinas
Existem atualmente cerca de 30 versões em teste. Elas são divididas em dois grupos. “O primeiro induz a formação de anticorpos contra o vírus, prevenindo a infecção”, diz o infectologista Esper Kallas. “E o segundo educa as células de defesa a combatê-lo, impedindo que se desenvolva a síndrome”, resume. Para o médico, a saída pode estar em uma combinação de ambas as táticas.
 
Novas drogas
Estão em testes novas famílias de antivirais, que atuam em etapas inusitadas do mecanismo de infecção. Uma aposta para o futuro seriam terapias que atuassem em nosso código genético. “Há moléculas de RNA antes consideradas desprezíveis e que hoje são não apenas importantes, como possíveis candidatas a destruir as informações do vírus”, diz Paolo Zanotto. É preciso desvendar uma maneira de usá-las a nosso favor.
 
Gel anti-hiv
O produto, aplicado diretamente na vagina, barraria a transmissão do HIV in loco. Várias fórmulas foram avaliadas mundo afora sem sucesso. Recentemente, um gel testado na África do Sul surpreendeu ao mostrar uma redução de 39% no contágio. “Mas essa solução ainda parece mais adequada a mulheres expostas ao vírus e que não têm a opção do preservativo”, acredita Esper Kallas.
 

Nós aprendemos com a aids

A caça ao vírus e a busca de exames e tratamentos impulsionaram o conhecimento em diversas áreas da ciência
 
Sistema imune
Conhecemos com intimidade o papel do linfócito T CD4, justamente a célula de defesa infectada pelo HIV. Ela exerce a função de um comandante, que recruta, por meio de substâncias mensageiras, os soldados para o conflito. Também se comprova que o timo, órgão situado no meio do peito, continua ativo na fase adulta, diferentemente do que se pensava antes da epidemia. É ali, aliás, que parte das células de defesa amadurece para ir à luta.
 
Genética
São estudados os chamados polimorfismos, sequências de genes que diferem de pessoa para pessoa e que podem revelar uma maior propensão a certas doenças. No caso do HIV, eles são capazes de dedurar se a progressão da síndrome será rápida ou mais lenta. A análise do genoma dos retrovírus e do seu mecanismo de ataque ajuda a comprovar a tese de que, no fluxo de informações genéticas, a molécula de RNA pode se transformar em DNA, e não apenas o caminho contrário.
 
Virologia
O HIV alavancou esse ramo da biologia. Graças às observações e aos experimentos com ele, conseguimos decifrar as minúcias do ciclo de vida dos vírus. Passamos a visualizar como esses micro-organismos dominam a célula-alvo do hospedeiro e misturam seu material genético ao dela para se replicar. Distinguimos uma série de enzimas, cruciais ao assalto do vírus, que, quando anuladas, inviabilizam sua vitória contra a célula. E, aí, aparecem novas drogas antivirais.
 
Exames
Um teste conhecido como PCR passa a ser empregado para rastrear o HIV no sangue. Os métodos de diagnóstico evoluem e se tornam mais sensíveis. Além de apurar as pegadas do micro-organismo, há exames que fazem uma contagem dos linfócitos T CD4, células agredidas pelo vírus e que indicam a exposição do paciente às doenças oportunistas que surgem durante a síndrome. Outros conseguem investigar se existe resistência do micro-organismo aos medicamentos prescritos.
 
Procedimentos médicos
Como é transmitido pelo sangue, o HIV exigiu a adoção de critérios mais rígidos na hora de realizar uma série de procedimentos em clínicas e hospitais. Intensifica-se a necessidade de executar triagens do sangue doado antes de submeter um paciente a uma transfusão, pois muitos hemofílicos contraíram a doença na ausência desse cuidado. E ganha força a obrigação de usar agulhas descartáveis em vacinas e injeções.
 
Outras doenças
Os avanços em imunologia e no entendimento do mecanismo das infecções foram caros à compreensão e ao tratamento de outros males, como o câncer e as hepatites virais. A proposta de combinar drogas, lançada pelo coquetel anti-HIV, inspirou a terapia dessas outras enfermidades anos depois. Já o conhecimento do ciclo de vida dos vírus ajudou a melhorar a terapia da hepatite C. E o rigor com a transfusão de sangue minimizou a transmissão de problemas como a doença de Chagas.
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