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Testes de DNA para emagrecer?

Exames genéticos surgem como opção para bolar uma dieta personalizada e capaz de eliminar os quilos extras. Só que a tática desperta controvérsias

Cada célula do nosso corpo carrega um DNA, aquela sequência de genes que define características como cor do cabelo, altura… e a tendência a encarar certos problemas. O ganho de peso é um deles. Pois o conhecimento sobre o tema avançou tanto nas últimas décadas que nasceram testes genéticos prometendo interpretar esse verdadeiro manual interno para, assim, traçar um plano realmente efetivo de emagrecimento.

Com esses novos exames, seria possível descobrir, por exemplo, se um indivíduo tem maior facilidade para estocar gordura ou se apresenta baixa sensibilidade ao carboidrato — daí, cortar o nutriente, como manda a famosa dieta low carb, não impactaria tanto na balança. Para alcançar as respostas, os testes buscam alterações na estrutura dos genes, também conhecidas como polimorfismos, que interferem em como eles se comportam.

É tudo tão coerente e moderno que dá vontade de realizar um pente-fino no DNA amanhã mesmo, certo? Muita calma! A questão é que ninguém sabe exatamente que genes importam pra valer nessa história.

“Há evidências de que mais de 400 estão relacionados à obesidade, influenciando desde o comportamento alimentar até o aproveitamento dos nutrientes. Só que, hoje, os exames disponíveis avaliam cerca de 40 deles”, contextualiza a nutricionista Ana Poletto, doutora em fisiologia humana pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.

A metodologia até consegue ver os polimorfismos mais estudados. Mas falta consenso sobre o que seria o tal “perfil genético” do ganho de peso. Um experimento recente da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, dividiu mais de 600 pessoas entre adeptas de dietas com pouca gordura ou com baixo índice de carboidratos. Depois, os cientistas analisaram três marcadores genéticos capazes de estimar a chance de sucesso de cada voluntário em emagrecer ao reduzir um dos nutrientes.

No fim, ficou claro que os genes não interferiam, desde que o indivíduo seguisse as orientações básicas. “Ou a genética importa, mas estamos olhando para os marcadores errados, ou ela simplesmente não faz diferença”, interpreta o nutricionista Christopher Gardner, autor do trabalho, considerado um dos mais confiáveis sobre o assunto até agora.

O passo a passo dos testes genéticos

  1. Coleta: pode ser realizada com amostra de sangue ou com saliva recolhida pelo próprio paciente.
  2. Preparo: ficar 30 minutos sem comer se a amostra vier da saliva. Se for do sangue, não há necessidade.
  3. Controle: a amostra é avaliada para garantir que o DNA é suficiente para o sequenciamento.
  4. Análise: já ocorre no Brasil, com métodos que isolam o DNA e usam estatística para estudá-lo.
  5. Preço: está na casa dos milhares de reais. Os testes de dieta ainda não são cobertos pelos convênios.

À espera da ciência

Os mistérios do DNA e a falta de evidências robustas sobre os testes genéticos focados em nutrição e emagrecimento fazem com que a maioria dos especialistas ouvidos por SAÚDE tenham o pé atrás em relação à novidade. “Eles não devem ser totalmente desacreditados, pois há pesquisas sérias sendo feitas nesse campo. Mas não chegamos ao ponto de dizer se uma pessoa é propensa a engordar com base no genoma”, avalia a bióloga Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência.

Hoje, até é possível calcular o risco genético de doenças, como alguns tipos de câncer, mas o ganho de peso é uma condição complexa e que depende de muitos fatores para acontecer, incluindo os hábitos alimentares desenvolvidos durante a vida inteira.

“Essa crítica é importante e verdadeira. No entanto, não podemos fechar os olhos para mais uma ferramenta que pode ajudar na prevenção e no tratamento da obesidade”, diz o nutrólogo Eduardo Rauen, que, em certos casos, aconselha os testes a seus pacientes na capital paulista.

Aos poucos, os segredos do DNA relacionados à questão do peso vão sendo decifrados. Em 2018, uma pesquisa da Universidade de Toronto, no Canadá, constatou que indivíduos com alterações no gene FTO, envolvido na regulação da fome e da saciedade, emagreceriam mais facilmente com uma dieta proteica. O trabalho envolveu 1 400 pessoas e chegou a mostrar o impacto das diferenças étnicas nos desfechos: caucasianos e pessoas do sul da Ásia não tiveram o mesmo efeito que os descendentes do leste asiático.

Perceba que está aí, aliás, mais uma limitação da aplicação dos testes no Brasil: quase todos os estudos vêm de fora. “As investigações analisam outras populações, cujos polimorfismos podem ser diferentes”, explica a bióloga Michele Pereira, do Laboratório Hermes Pardini, em São Paulo, que oferece um exame para mapear 80 alterações genômicas ligadas à nutrição.

A despeito do objetivo, a pesquisadora acredita que o método deve ser visto como um complemento. “Ele enfrenta resistência, mas queremos que auxilie o profissional de saúde como preditivo de algumas doenças e situações”, diz.

Outro aspecto que merece reflexão é comportamental. Como o teste genético pode ser encomendado sem o pedido do especialista, há o risco de interpretações equivocadas. “Alguns trabalhos mostram que, ao saber que possui a variante que facilita o ganho de peso, muitas pessoas ficam estagnadas porque creem que nada mudará seu destino”, conta a endocrinologista Maria Edna de Melo, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica.

Mas há quem não enxergue isso como um empecilho. “Foi um alívio descobrir minha tendência a engordar, porque sempre tive dificuldade de emagrecer, mesmo com dietas e remédios”, relata a técnica em tecnologia da informação Gabriela Todeschini, de 30 anos, gaúcha que fez um exame do gênero e gostou dos passos seguintes. “Com as orientações personalizadas da minha nutricionista, finalmente estou conseguindo perder peso.”

Divergências à parte, uma coisa é certa: praticamente todo mundo tem propensão a engordar. “Existe uma vulnerabilidade biológica que predispõe ao ganho de peso, porque, há milênios, foi necessário armazenar calorias para sobreviver e evoluir”, justifica Maria Edna.

Isso ajuda a explicar por que atualmente vivemos uma epidemia de obesidade. “Porém, a influência do estilo de vida é bem maior nesse contexto. Tanto que o ganho de peso disparou nos últimos 50 anos, mas nosso DNA não se alterou. O que mudou foi o consumo de alimentos ultraprocessados”, defende a nutricionista Carolina Sartori, de Brasília.

Não é impossível que parte do enigma por trás do ganho e da perda de peso seja, um dia, respondida pelo genoma. Mas, por enquanto, a maneira mais eficaz de evitar o efeito sanfona é ouvir os experts e seguir uma rotina ativa e uma dieta mais equilibrada. Nem os genes brigam com isso.

Outros dois tipos de exame genéticos para a alimentação

Intolerâncias e alergias: o mais famoso da categoria é o Food Detective, que promete avaliar a sensibilidade a até 200 alimentos. Com o resultado em mãos, seria possível identificar quais itens o corpo não tolera muito bem e, assim, seguir uma dieta em que não haja desconfortos como inchaço e constipação.

Na prática, não é mágico assim. “Tenho visto muitas dietas restritivas prescritas com base nele. Só que esse tipo de rastreamento é um engodo. Ele mede a produção de imunoglobulina G, ou IgG, que não tem nada a ver com alergias ou intolerâncias alimentares”, critica a médica Renata Cocco, coordenadora do Departamento de Alergia Alimentar da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia.

O IgG é um anticorpo produzido naturalmente quando o organismo entra em contato com um corpo estranho, como um ingrediente de uma comida.

Teste do microbioma: a relevância da microbiota, o conjunto de bactérias que vivem em diversas partes do corpo, é inegável. E a comunidade de bichinhos mais estudada, a que habita o intestino, parece influenciar no surgimento de várias doenças, inclusive a obesidade.

O sequenciamento do microbioma ajudaria a entender quais os micro-organismos predominantes e, assim, traçar estratégias personalizadas para prevenir problemas ou intervir em quadros já instalados. “Ele se vale dos mesmos princípios do exame feito em células humanas, mas avalia o DNA de bactérias colhidas nas fezes”, descreve o nutrólogo Dan Waitzberg, diretor científico da Bioma4me, startup que oferece a análise.

A abordagem é promissora devido ao crescimento de pesquisas na área. O que se busca agora é entender quais as intervenções mais satisfatórias para modular, de fato, a tal da flora intestinal.