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Vitamina D, muito além dos ossos

O nutrólogo Durval Ribas Filho fala sobre o nutriente que desponta em novas pesquisas como aliado contra o câncer e o diabete

O ideal é expor pernas e braços ao sol durante 15 minutos, de preferência pela manhã, antes das 10 horas
Foto: Getty Images

Vai longe o tempo em que essa substância era conhecida apenas pelos benefícios ao esqueleto — o que, diga-se, já é um grande feito. Hoje se multiplicam estudos apontando o elo da vitamina D com a prevenção de males como o diabete e o câncer.

Mas será que os brasileiros apresentam níveis adequados do nutriente? Todo mundo deveria recorrer à suplementação? Para responder estas e outras questões, entrevistamos o nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia.

SAÚDE: A vitamina D tem se destacado, nos últimos anos, em uma porção de estudos mundo afora. O senhor poderia apontar o motivo dessa crescente valorização?

Durval Ribas Filho: Novos achados mostram a atuação da vitamina em receptores específicos presentes em inúmeras células do organismo e a colocam em um patamar diferenciado. Inclusive já há quem a classifique como um tipo de hormônio justamente pela sua participação em funções que vão do fortalecimento dos ossos ao equilíbrio nos níveis de insulina na corrente sanguínea.

SAÚDE: O senhor poderia explicar esse elo com a insulina e o diabete?

Durval Ribas Filho: Embora o mecanismo por trás disso ainda não esteja totalmente claro, há pesquisas epidemiológicas que relacionam a carência de vitamina D com a hiperglicemia, daí a hipótese de que a substância atue no equilíbrio e na ação da insulina. Existem pistas de que o nutriente interfira com a resposta insulínica ao estímulo da glicose, seja pela ligação da 1,25hidroxi-vitamina D com o receptor VDR da célula pancreática ou pela ação no fluxo de cálcio intra e extracelular, o que contribui para a redução da secreção desse hormônio. Não à toa, vários trabalhos atestam sua importância na diminuição do risco do diabete do tipo 2.

SAÚDE: E sobre a obesidade, qual o papel da vitamina D?

Durval Ribas Filho: Ainda não dá para afirmar que a falta do nutriente sirva de gatilho para o ganho de peso. Mas alguns trabalhos já mostraram que a escassez tem um vínculo com o aumento da lipogênese. Outra hipótese a se considerar é a de que os baixos níveis da vitamina levam ao estímulo dos núcleos hipotalâmicos da fome e da saciedade e reduzem o gasto energético.

Vale mencionar também que diversas pesquisas relacionam a deficiência durante a gestação com uma tendência para a obesidade da criança. Nesse caso, o mecanismo tem a ver com a diminuição da sensibilidade da insulina.

SAÚDE: Ainda falando sobre excesso de peso, os obesos costumam apresentar déficit da substância?

Durval Ribas Filho: Sim. Isso acontece porque os adipócitos sequestram o nutriente da circulação. As células de gordura têm certa afinidade com a substância justamente por ela fazer parte do grupo das vitaminas lipossolúveis. Aliás, os obesos precisam passar por uma avaliação rigorosa e receber suplementação para evitar danos relacionados com a carência, com destaque para a fragilidade dos ossos e a baixa imunidade.

SAÚDE: O senhor pode falar sobre o papel da vitamina D na imunidade?

Durval Ribas Filho: Esse benefício também tem sido bastante investigado. E já está comprovado que a vitamina estimula a ação das células imunológicas e favorece as nossas defesas.

SAÚDE: Outra novidade é a ação contra o câncer, não é?

Durval Ribas Filho: Isso mesmo. Um grande estudo, realizado recentemente, o Women’s Health Initiative (WHI), mostra uma associação entre a deficiência e o aumento dos casos de tumores nos pulmões. Mas, ainda não dá para detalhar o mecanismo por trás dessa função. É bem provável que a vitamina D favoreça a diminuição do crescimento celular, mediada por fatores de crescimento, o que resulta no efeito protetor e preventivo para as neoplasias.
 

SAÚDE: Apesar de tantas benfeitorias, o panorama de deficiência no Brasil é bem ruim, não?

Durval Ribas Filho: Infelizmente a carência é elevada. O BRAZOS, ou Brazilian Osteoporosis Study, mostra que a grande parte da população está com níveis abaixo do recomendado, que é de 600 a 1000 Unidades Internacionais para os adultos.

SAÚDE: Como explicar isso em um país ensolarado?

Durval Ribas Filho: Em parte é pelo uso de filtro solar e pelo temor relacionado ao câncer. Nossa pele é o único sítio capaz de produzir vitamina D. A luz ultravioleta favorece a fabricação da pró-vitamina que após 24 horas torna-se o nutriente de fato. Também vale mencionar que o pouco de vitamina D vindo da alimentação nem sempre faz parte do cardápio do brasileiro.

SAÚDE: E qual seria a sua dica para alcançar as recomendações?

Durval Ribas Filho: A luz solar é a melhor fornecedora da vitamina e a sugestão é expor os braços ou pernas durante 15 minutos, de preferência pela manhã, antes das 10 horas. Também é fundamental adquirir o nutriente por meio de alimentos como o óleo de peixe, a gema de ovo, o leite, além dos pescados que acumulam mais gordura, caso do salmão, do atum e da sardinha.

SAÚDE: E quando é o caso de suplementação?

Durval Ribas Filho: O uso de suplemento costuma ser recomendado para algumas faixas etárias, como os idosos que não sintetizam direito a substância. Obesos e gestantes também costumam necessitar dele. Mas, antes de prescrever, é necessário que o paciente passe por exames minuciosos de sangue para definir a real necessidade.

SAÚDE: Há riscos se o consumo for excessivo?

Durval Ribas Filho: O exagero na vitamina pode trazer desconfortos como náuseas, vômitos e constipação intestinal, além de favorecer a formação de cálculo renal e arritmias cardíacas.

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