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Vacina do HPV reduz pra valer a incidência de câncer de colo de útero

Com a imunização de crianças e adolescentes, um dos tumores que mais matam mulheres pode virar coisa do passado

Por Fabiana Schiavon Atualizado em 25 nov 2021, 13h45 - Publicado em 24 nov 2021, 19h35

Vacinar crianças e adolescentes contra o HPV é uma estratégia de saúde pública. A recomendação, chancelada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), tem como missão reduzir a circulação desse vírus que é sexualmente transmissível e causador de diversos tipos de câncer, com destaque para o tumor de colo de útero – o terceiro mais frequente na população feminina, atrás dos de mama e colorretal.

E um estudo publicado recentemente no jornal científico The Lancet mostra a magnitude do benefício. Com base em dados de um monte de mulheres, cientistas da Universidade King’s College, no Reino Unido – onde a campanha começou em 2008 –, investigaram o impacto do imunizante entre vacinadas e não vacinadas.

Eles concluíram que quem recebeu a injeção com 12 ou 13 anos apresentou, na fase adulta, uma redução de 87% no risco de desenvolver o câncer de colo de útero em comparação com quem não havia se vacinado.

“Há países, como a Austrália, que já sentem os efeitos dessa estratégia e esperam erradicar os casos de câncer de colo de útero até 2030”, relata a oncologista Marcela Bonalumi, do CPO Oncoclínicas e do Hospital Pérola Byington, em São Paulo.

No Brasil, esse tumor é a quarta causa de morte por doenças oncológicas entre mulheres. O programa de vacinação começou por aqui em 2014 para meninas de 11 a 13 anos. No ano seguinte, a faixa etária baixou para 9 anos e, depois, os garotos também entraram na chamada.

“Hoje, os meninos fazem parte do programa porque eles agem como transmissores e, com eles imunizados, é possível reduzir a taxa de contaminação na população em geral”, explica Marcela.

A médica ainda informa que, uma vez vacinados, os garotos ainda ficam mais protegidos contra cânceres de pênis, orofaringe e anal.

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O HPV e a ação das vacinas

O papilomavírus humano (HPV) é um oncovírus, ou seja, ele é capaz de interferir no processo que leva à multiplicação de células anormais no organismo, favorecendo, assim, um câncer.

Existem várias versões de HPV e as vacinas miram naquelas cepas que podem provocar doenças mais graves. “Há cerca de 15 tipos oncogênicos, sendo que dois deles, o 16 e o 18, estão por trás do câncer de colo de útero. Por isso, os primeiros imunizantes focavam nessa dupla. Com o decorrer dos anos, chegamos até à injeção nonavalente”, ensina Marcela. Entenda melhor as diferenças entre elas:

Tipos de vacina:

  • Bivalente: proteção contra os vírus 16 e 18, que respondem pela maior parte dos casos de câncer de colo de útero. É indicada só para mulheres. O número de doses muda conforme a idade. Só está disponível na rede privada.
  • Quadrivalente recombinante: blinda contra os tipos 6, 11, 16 e 18. Ela evita lesões genitais pré-cancerosas do colo do útero e vulva nas mulheres, e anal em ambos os sexos. O número de doses muda conforme a idade. Disponível a crianças e jovens pelo SUS.
  • Nonavalente: mira nos tipos 6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58. Ela reduz o risco dos cânceres cervical, vulvar, vaginal, anal, orofaringíneo, além de proteger contra alguns tumores de cabeça e pescoço. É tomada em três doses, mas só dá para encontrar na rede privada. É indicada para meninas e mulheres de 9 a 26 anos de idade, e homens de 9 a 26 anos, segundo recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Quem o SUS vacina contra o HPV?

Reforçando: no sistema público, é possível tomar a vacina quadrivalente (contra os tipos 6, 11, 16 e 18 de HPV). Ela é indicada aos seguintes grupos:

  • Meninas de 9 a 14 anos
  • Meninos de 11 a 14 anos
  • Mulheres imunossuprimidas de 9 a 45 anos
  • Homens imunossuprimidos de 9 a 26 anos

+ LEIA TAMBÉM: Vacina contra o HPV agora será disponibilizada para mais mulheres

E os adultos: devem tomar?

Como a campanha brasileira começou em 2014, os adultos de hoje não tiveram a oportunidade de receber a vacina contra o HPV quando adolescentes. Isso aumenta as chances de eles já terem tido algum contato com o vírus e, consequentemente, compromete o efeito do imunizante.

“Esse estudo da King’s College, como outros já feitos, aponta que a imunização se faz mais efetiva entre quem ainda não iniciou a vida sexual. Em resumo, a eficácia da vacina aumenta à medida em que a idade do vacinado cai”, esclarece a médica.

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No trabalho britânico, enquanto a redução no risco de câncer de colo de útero foi de 87% para quem foi vacinada aos 12-13 anos, esse valor ficou em 62% entre quem recebeu o imunizante aos 14-16 anos e em 34% quando a picada aconteceu aos 16-18 anos.

Embora os mais novinhos tirem melhor proveito da imunização contra o HPV, vacinar-se mais adiante reduz as chances de desenvolver uma doença mais grave como o câncer. “O adulto pode já ter algum tipo de HPV no corpo, mas, ao tomar a vacina, ele se protege de outras cepas”, defende a médica.

A má notícia é que é preciso investir para conseguir as doses, só disponibilizadas para adultos em clínicas particulares. E, nesses casos, vale a pena buscar pela nonavalente, que protege contra mais tipos de HPV.

+ LEIA TAMBÉM: Não é só Covid-19: as outras vacinas que os adultos devem tomar

A evolução do papanicolau: outro recurso importante

Os homens, com raras exceções, são assintomáticos após o contágio por HPV, e não há exame de rotina para detectar o vírus no organismo. As mulheres, no entanto, usam o papanicolau como prevenção periódica. Um novo teste, já disponível na rede privada, vai além e avalia se existem traços do DNA do HPV nas células.

“O vírus entra na célula e assume o comando dela, provocando lesões. Com o exame de DNA, é possível identificar o contágio antes de qualquer sintoma”, explica Marcela. Quando o resultado é positivo, o médico solicita mais exames e acompanha uma possível evolução da doença. Se não houver problemas, o teste pode ser repetido apenas cinco anos depois.

A OMS já indica que essa nova tecnologia integre a rotina de rastreamento da saúde da mulher. “A Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) também faz essa recomendação. O exame está disponível no Brasil, mas ainda é pouco disseminado pelo seu custo”, avalia a médica.

Pesquisas têm demonstrado que vale a pena utilizar esse novo método no lugar do papanicolau. A cidade de Indaiatuba, no interior de São Paulo, adotou essa mudança após servir de cenário para uma pesquisa que comparou os dois exames.

Publicado na revista científica Lancet , o estudo constatou que é possível antecipar o diagnóstico do câncer de colo de útero em dez anos com o teste de DNA em relação ao exame tradicional, ou seja, o papanicolau.

Além disso, muitas mulheres que participaram da investigação deixaram de desenvolver o câncer. Isso porque se o teste dava positivo para os tipos 16 e 18 de HPV, a paciente era encaminhada para outros procedimentos, como a colposcopia, com o objetivo de avaliar a presença de lesões pré-cancerosas. Se houvesse alteração, já se partia para um tratamento curativo ou preventivo.

Agora, quem se mostrava livre das tais lesões fazia um acompanhamento com intervalo mais curto para detectar o problema bem no início, caso aparecesse.

O levantamento foi conduzido pelo Centro de Atenção Integral a Saúde da Mulher da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Prefeitura Municipal de Indaiatuba, em parceria com a Roche Diagnóstica.

Os pesquisadores compararam os resultados de 16 384 testes de DNA-HPV com outros 20 284 citológicos (papanicolau), feitos entre 2014 e 2020, por mulheres na faixa dos 25 a 64 anos de idade.

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