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Remédios tirados direto do gelo da Antártica

Estudo brasileiro feito nesse continente identifica fungos que poderiam gerar medicamentos contra doenças negligenciadas, como dengue, Chagas e malária

Por Nicola Ferreira (Agência Einstein) - 11 fev 2020, 18h03

Um dos principais estudos conduzidos na Estação Antártica Comandante Ferraz, a base brasileira instalada nesse continente e reinaugurada faz pouco tempo, envolve fungos. O professor Luiz Henrique Rosa, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), quer descobrir se alguns desses micro-organismos podem funcionar como espécies de fábricas para a produção de remédios que beneficiariam milhões de pessoas.

“Buscamos fungos capazes de gerar substâncias contra doenças tropicais como leishmaniose, dengue, zika, chikungunya e malária”, explica. Rosa é o coordenador do projeto MycoAntar, uma parceria entre a UFMG e o Instituto René Rachou, filial da Fiocruz no estado de Minas Gerais.

Ativa desde 2014, a iniciativa já identificou aproximadamente 12 mil espécies de fungos, representando a maior coleção desses agentes infecciosos do mundo.

Por que buscar esses remédios na Antártica?

Com 14 milhões de quilômetros quadrados (km²), o território antártico possui a maior biodiversidade microbiana do mundo. O isolamento ao qual os micro-organismos estão submetidos no continente gelado contribui para essa riqueza, que enche os olhos dos cientistas em busca de novas espécies com potencial farmacológico.

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“Nosso trabalho aqui é um pouco mais lento. Temos que nos deslocar pelo continente e enfrentar condições extremas. Por isso, o processo de coletar os fungos é muito mais difícil”, conta Rosa.

E o trabalho não para por aí: todas as amostras têm o material genético analisado. Os compostos mais promissores então são isolados. Em média, de 10 a 20% dos fungos mostram-se capazes de produzir substâncias a serem exploradas contra doenças.

Ao longo do projeto, foram identificados micro-organismos que produzem compostos com potencial para tratar doença de Chagas, leishmaniose, zika e febre amarela. Outra descoberta importante foi a de um extrato inibidor do vírus da dengue conhecido como meleagrina. Essa molécula já tinha sido encontrada em outros fungos marinhos, mas, com as novas fontes originárias da Antártica, os pesquisadores esperam reduzir o alto preço do extrato (cada miligrama custa mil reais).

As doenças tropicais negligenciadas

Chagas, leishmaniose, dengue e zika são alguns dos representantes da classe. Embora atinjam populações por todo mundo — especialmente no hemisfério sul —, as enfermidades negligenciadas ganharam esse apelido por afetarem principalmente populações mais pobres e por não despertarem tanto interesse na produção de medicamentos. Elas afligem cerca de 1 bilhão de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

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Existem 17 patologias que pertencem ao grupo. O problema é que o dinheiro destinado à pesquisa e ao tratamento dessas enfermidades vem caindo nos últimos anos, de acordo com a pesquisa G-Finder. Somente entre 2016 e 2017, os investimentos diminuíram 42%.

“O Estado deve investir, porque é o único interessado. A indústria farmacêutica não acha importante e não vai destinar recursos para esse tratamento”, afirma o infectologista Jacyr Pasternak, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

A busca por novas substâncias pode ser fundamental para ajudar milhões de vidas ao redor do globo. Os resultados positivos que vêm sendo apresentados pelo projeto MycoAntar mostram que a Antártica não é composta apenas por gelo, mas por bilhões de micro-organismos que talvez mudem os rumos das doenças tropicais negligenciadas.

Este conteúdo foi produzido pela Agência Einstein.

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