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Projeto que introduz bactéria no Aedes aegypti é estendido

A estratégia, voltada para combater os vírus de dengue, zika e chikungunya, chega a Belo Horizonte. A expectativa é conter possíveis epidemias

Por Léo Rodrigues (Agência Brasil) - Atualizado em 14 fev 2020, 18h25 - Publicado em 24 jul 2017, 18h00

Um projeto inovador voltado para reduzir a transmissão da dengue, da zika e da febre chikungunya está previsto para ser desenvolvido em Belo Horizonte em meados de 2018. Trata-se da introdução da bactéria Wolbachia no mosquito Aedes aegypti, vetor das doenças, e que é capaz de evitar que os vírus sejam transmitidos para os seres humanos durante a picada.

O projeto Eliminar a Dengue: Nosso Desafio (Eliminate Dengue: Our Challenge) é um projeto internacional sem fins lucrativos que surgiu na Austrália e usa a bactéria Wolbachia. Atualmente há trabalhos de campo do projeto em cinco países e outros três estão se articulando para aderir. No Brasil, ele foi trazido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com o apoio do Ministério da Saúde. A iniciativa está entre os trabalhos científicos apresentados na 69ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

No Brasil, os trabalhos começaram em duas áreas pequenas: em Jurujuba, bairro de Niterói; e em Tubiacanga, bairro do Rio de Janeiro. A liberação de mosquitos com a bactéria começou em agosto de 2015 e se encerrou em janeiro do ano passado. Desde então, vem ocorrendo um monitoramento semanal, com mosquitos sendo coletados em armadilhas e levados ao laboratório para verificar se possuem a Wolbachia.

A eficiência da estratégia

“Mais de um ano e meio após nós pararmos de liberar mosquitos nestas duas localidades, vimos que 90% deles contêm a bactéria. Isso comprova a autosustentabilidade do projeto. Não precisamos ficar voltando à mesma área para fazer novas liberações”, explicou o pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, coordenador do projeto no Brasil.

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Dados similares também foram constatados na Austrália, onde, nas áreas onde os trabalhos começaram, em 2011, perto de 100% da população do Aedes já registra a Wolbachia.

Isso ocorre porque a fêmea do Aedes que possui a Wolbachia em seu organismo irá transmiti-la a todos os seus descendentes, mesmo que se acasale com machos sem a bactéria. Além disso, quando apenas o macho possui a Wolbachia, os óvulos fertilizados morrem. Dessa forma, a bactéria é transmitida naturalmente para as novas gerações de mosquitos.

Moreira destaca que o projeto não envolve nenhuma modificação genética, nem no mosquito e nem na bactéria. Fora isso, a iniciativa não elimina o mosquito do meio-ambiente, apenas substitui uma população capaz de transmitir doenças por outra incapaz. “É uma iniciativa totalmente segura. Estudos já mostraram que a Wolbachia não oferece riscos à saúde humana, ainda que o mosquito pique uma pessoa”.

De acordo com o pesquisador, a Wolbachia está presente naturalmente em 60% dos insetos, mas não no Aedes aegypti. O que o projeto faz é uma introdução artificial. “Quando o Aedes com a bactéria pica alguém que está com dengue, zika ou febre chikungunya, ele adquire o vírus. Mas esse vírus precisa se replicar dentro do mosquito. Para isso, deve entrar nas células onde as bactérias já estão. O que provavelmente acontece é uma competição entre a bactéria e o vírus por nutrientes e outros componentes que ambos necessitam. E no final a Wolbachia, que já estava instalada ali, vence a disputa”, explica.

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Em que pé estamos

O próximo passo do projeto no Brasil é a sua expansão no Rio e em Niterói, já que as áreas atingidas até então nestas duas cidades envolviam populações pequenas, entre 3 e 4 mil pessoas. Em Niterói, já estão sendo liberados mosquitos em uma área com 270 mil habitantes.

No Rio de Janeiro, o trabalho começa em agosto, em dez bairros. Nos meses seguintes, outras regiões da cidade serão incluídas e a previsão é que, até o final de 2018, o projeto já tenha alcançado uma área onde vivem 2,5 milhões de pessoas. A preparação já começou, através de campanhas de comunicação visando o esclarecimento e o envolvimento da população. O apoio é essencial, pois algumas casas recebem armadilhas para coleta dos mosquitos.

A inclusão de Belo Horizonte no projeto no ano que vem começará pela Pampulha e pela região norte, áreas que têm cerca de 840 mil habitantes no total.

A Fiocruz ainda não realizou estudos epidemiológicos para avaliar se de fato ouve redução do número de casos de dengue, zika e febre chikungunya com o projeto. De acordo com Luciano Moreira, este tipo de pesquisa precisa envolver áreas grandes. Ele diz que a Indonésia começou a desenvolver um estudo com esta proposta em agosto do ano passado, em uma área de 500 mil habitantes. Os primeiros resultados devem sair em 2019, mostrando se houve ou não redução do número de infectados pela doença antes e depois da liberação dos mosquitos.

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Ainda assim, evidências apontam para a diminuição dos casos. “Em todos os países envolvidos, há mais de 40 localidades onde já aconteceu a liberação de mosquitos. Em nenhuma delas foi observada ocorrência de surtos”, disse o pesquisador.

Um estudo diferente será conduzido no Rio de Janeiro a partir dessa nova etapa. Em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, a Fiocruz fará um acompanhamento para comparar o número de casos nos bairros abrangidos pelo projeto com o número de casos nos demais bairros. A expectativa é se perceba uma diferença nos locais onde houver mosquitos com a Wolbachia.

Esta matéria foi publicada originalmente na Agência Brasil.

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