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O panorama da malária no Brasil e no mundo

Organização Mundial da Saúde aponta avanços e desafios no combate à malária. Trazemos a situação geral e o que fazer para reduzir a transmissão e mortes

Por Maria Tereza Santos Atualizado em 28 abr 2021, 15h36 - Publicado em 28 abr 2021, 15h32

Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou a iniciativa E-2020, que tinha como objetivo dar suporte a 21 países – sete na América Latina, cinco na África e nove na Ásia – para que alcançassem a marca de zero casos de malária até 2020. Recentemente, a entidade divulgou um relatório mostrando o resultado da operação.

Entre as nações analisadas — o Brasil não estava na lista, mas falaremos dele adiante —, oito relataram zero casos em populações indígenas (que correm um risco maior de serem infectadas) nesse período: Belize, Cabo Verde, China, Irã, Malásia, Argélia, El Salvador e Paraguai.

Além disso, os três últimos conquistaram o certificado de livres de malária da OMS. Esse selo só foi emitido a outros nove países nas duas últimas décadas: Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Turcomenistão, Armênia, Sri Lanka, Quirguistão, Uzbequistão e Argentina.

Mesmo entre as nações que não alcançaram a meta, houve ótimos progressos. O Timor-Leste relatou apenas um caso em indígenas, enquanto Butão, Costa Rica e Nepal constataram menos de 100.

Conforme apontado no documento, esse desfecho só foi possível por causa de investimentos em políticas públicas, monitoramento da malária, diagnóstico rápido e colaboração entre os setores da sociedade.

A OMS agora definiu uma nova lista de 25 países para integrar o E-2025, focando em eliminar a enfermidade nesses locais nos próximos quatro anos. Alguns países do E-2020 foram contemplados. O Brasil ficou de fora por ainda ter um número muito elevado de casos de malária, o que dificultaria cumprir a meta.

A ideia é da OMS é reduzir, até 2030, reduzir a incidência e a mortalidade dessa infecção em pelo 90%, quando comparada a 2015. A malária está presente em 87 países. Em 2019, foram 229 milhões de pessoas infectadas no mundo, e 409 mil mortes. Crianças menores de 5 anos na África Subsaariana representam aproximadamente dois terços desses óbitos.

Naquele mesmo ano, 94% de todos os casos ocorreram no continente africano, 3% no Sudeste Asiático, 2% no Mediterrâneo Oriental e menos de 1% no Pacífico Ocidental e nas Américas.

Entre os 87 países, 46 notificaram menos de 10 mil casos em 2019 — 20 a mais que em 2000, o que é uma evolução. Apesar disso, a infectologista Tânia Chaves, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), acredita que os progressos estão muito lentos. “Houve uma desaceleração da taxa de redução da malária em todo mundo”, conta.

Em 2000, foram reportados 238 milhões de infecções. E, em 2019, 229 milhões. É uma queda, porém menos acentuada do que se esperaria, de acordo com a especialista.

O Brasil reportou, em 2019, 153 296 casos autóctones (quando a transmissão acontece dentro do país, e não de uma pessoa vinda de fora). Em comparação com primeiro semestre daquele ano, o mesmo período de 2020 apresentou uma queda de 15,1% dos episódios.

“Estamos longe da eliminação da malária”, lamenta Tânia. Os estados da região amazônica concentram mais de 99% dos eventos.

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Além da prevenção individual, são necessárias outras ações para garantir que ela seja combatida. “O Brasil precisa ter o compromisso político, com apoio e investimento em pesquisas, para que possamos vislumbrar a eliminação no nosso país”, recomenda Tânia.

  • O que é a malária

    A malária é uma doença febril aguda, causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida pela picada do mosquito Anopheles sp, popularmente conhecido como mosquito-prego. Esse inseto costuma viver em áreas tropicais, principalmente em matas úmidas. Por isso que há uma concentração de casos na região amazônica — e uma preocupação especial com indígenas.

    “A malária gera febre alta, dor de cabeça e calafrios, mas pode apresentar outros sintomas, como dores no corpo, perda do apetite, cansaço, desconforto nas juntas, vômitos, diarreia e dor abdominal”, lista Tânia. Há risco de morte.

    Felizmente, a infecção tem cura — e as chances aumentam quando o tratamento é feito no início dos sintomas. Os medicamentos, disponíveis no SUS, variam de acordo com o tipo de Plasmodium, a gravidade do quadro e as características do próprio paciente. Entre esses remédios está a cloroquina.

    Até hoje, a melhor forma de prevenir é não sendo picado pelo mosquito-prego. Isso é feito com a ajuda de repelentes, telas, mosquiteiros e roupas que cobrem pernas e braços.

    Ainda não existe vacina, mas há perspectivas no horizonte. Recentemente, a Universidade de Oxford, na Inglaterra, em parceria com o Instituto Serum e o laboratório Novavax, publicou os resultados de um estudo clínico de fase 2 de uma candidata promissora. O artigo ainda não foi revisado por outros cientistas, o que pede uma dose de cautela com suas conclusões, mas ele aponta uma eficácia de 77% na prevenção da malária, o que supera a taxa mínima de 75% estabelecida pela OMS para essa doença.

    A pesquisa foi realizada com 450 bebês de 5 a 17 meses de vida no Instituto de Pesquisa em Ciências da Saúde, em Burkina Faso, com acompanhamento de um ano. Não foram observados efeitos colaterais graves.

    A próxima etapa avaliará a segurança e eficácia em 4 800 crianças, de 5 meses a 3 anos de idade, em quatro países da África. Se os resultados de eficácia e segurança forem satisfatórios, provavelmente teremos o primeiro imunizante contra a malária. Atualmente, ele é chamado de R21/Matrix-M.

    O impacto da Covid-19 no combate à malária

    Houve um apelo no início da pandemia de coronavírus para que os lugares onde a malária é endêmica mantivessem seus serviços de enfrentamento à doença. E de fato houve um esforço que evitou o “pior cenário”, de acordo com a OMS.

    A entidade estima que, se o acesso a redes e medicamentos antimaláricos tivesse sido restringido ao extremo, o número de mortes na África Subsaariana teria dobrado em 2020 em comparação com 2018.

    Ainda assim, aproximadamente um terço dos países interrompeu seus programas de prevenção, diagnóstico e tratamento no primeiro trimestre de 2021.

    “Por medo de adoecer, os moradores das áreas com malária relutam em procurar diagnóstico e tratamento oportunos. Além disso, há o fato de os profissionais de saúde terem sido recrutados para trabalhar na pandemia”, comenta Tânia.

    A OMS orienta que os habitantes desses locais não deixem de ir às unidades de saúde se estiverem com sintomas suspeitos — seguindo, claro, todas as medidas preventivas contra o coronavírus.

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