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Imunoterapia para tratar câncer de bexiga é aprovada no Brasil

O remédio avelumabe, já usado contra outros tumores, agora foi incluído no tratamento do carcinoma urotelial, que pode afetar bexiga, ureter e pelve renal

Por Maria Tereza Santos Atualizado em 4 fev 2021, 09h59 - Publicado em 22 jan 2021, 12h19

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso do medicamento avelumabe, dos laboratórios Merck e Pfizer, para tratar o carcinoma urotelial, um tipo de câncer que afeta bexiga, ureter e pelve renal. O remédio é considerado o principal avanço contra essa doença nos últimos 30 anos.

A droga é uma imunoterapia. Ou seja, ela estimula as defesas do organismo a reconhecerem o tumor como um inimigo e partirem para o ataque. E essa não é sua primeira aprovação aqui no Brasil. Ela já está liberada contra o carcinoma de células de Merkel (um câncer de pele raro) e o de células renais avançado (tumor mais comum dos rins).

No caso do câncer de bexiga, o avelumabe passa a ser indicado para doenças localmente avançadas ou que já têm metástase (quando se espalhou pelo corpo). A nova estratégia funciona como uma espécie de manutenção do tratamento. Ou seja, o paciente recebe quimioterapia e, com a remissão ou estabilização do avanço do tumor, essa imunoterapia entra em jogo para prolongar os benefícios do tratamento.

O estudo que justificou a autorização da Anvisa foi feito com 700 pacientes. Todos passaram por sessões de químio, mas só metade recebeu avelumabe na sequência (o restante foi tratado com cuidados de suporte). Após a análise, os cientistas concluíram que a sobrevida mediana do primeiro grupo foi de 21 meses, enquanto a do outro ficou em 14. O avelumabe também reduziu o risco de morte em 31% dentro do tempo analisado.

Para ter noção da importância do resultado, estudos anteriores indicavam que a maioria dos portadores de carcinoma urotelial terão progressão da doença em até seis a oito meses após o início da químio. Além disso, não mais do que 5% dos pacientes que descobrem a enfermidade em fase metastática estarão vivos em cinco anos. Não há trabalhos de longo prazo com essa droga, mas se espera ela ajude a mudar esse cenário.

“Como a primeira imunoterapia na manutenção do tratamento de primeira linha a demonstrar uma melhora significativa na sobrevida global dos pacientes, a aprovação de avelumabe é um dos avanços mais significativos desse cenário em 30 anos”, afirmou Luiz Magno, diretor médico da Merck no Brasil, em comunicado à imprensa.

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Outro benefício é a relativa baixa toxicidade, como informa o oncologista Augusto Mota, diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), que não participou da pesquisa. “Sempre comemoramos quando surge um medicamento com esse perfil. A quimioterapia pode fazer as pessoas sofrerem muito”, pontua o médico.

O ponto negativo é o custo elevadíssimo — um fator comum na imunoterapia. Mesmo com a aprovação, não há nenhuma previsão de chegada do avelumabe na rede pública. Aliás, inexistem imunoterápicos contra o câncer amplamente disponível no Sistema Único de Saúde (SUS).

  • Saiba mais sobre o carcinoma urotelial

    Apesar de aparecer em várias partes do sistema urinário, esse tipo de câncer se desenvolve com mais frequência na bexiga — o órgão responde por 90% dos casos. Mota explica que o tal urotélio funciona como um revestimento interno das vias urinárias.

    O xixi é produzido no rim, escoado por um uma espécie de canudinho chamado ureter e, aí, fica armazenado na bexiga. “O contato prolongado da urina com o urotélio da bexiga é o que faz esse órgão ser mais atingido pelo câncer”, raciocina o oncologista.

    Esse é um tumor bastante agressivo por três razões. A primeira: problemas no aparelho urinário são relativamente silenciosos. As pessoas acabam procurando ajuda só quando a enfermidade está avançada.

    O segundo motivo é o impacto do tabagismo. Pode parecer estranho, mas o cigarro é o principal fator de risco para o câncer de bexiga. “Ao inalar a fumaça, o corpo absorve uma quantidade extraordinária de moléculas cancerígenas. Elas circulam, são filtradas nos rins e ficam na urina, que permanece em contato com a mucosa da bexiga”, informa Mota.

    Por fim, o médico lembra que o carcinoma urotelial tem uma alta carga de mutação genética, o que leva ao difícil controle das células tumorais. “Todo esse conjunto de características a tornam uma doença desafiadora e complicada de tratar”, conclui.

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