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Estudo diz que chikungunya pode afetar o cérebro

Além de causar sintomas como febre e dores nas articulações, essa infecção poderia danificar o sistema nervoso central

Por Maria Fernanda Ziegler (Agência Fapesp)* 31 ago 2020, 19h01 | Atualizado em 4 jun 2026, 22h41
sintomas do chikungunya no cerebro
O vírus chikungunya também parece invadir o cérebro de certos infectados. (Foto: iS/iStock)
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Estudo realizado por equipe internacional de pesquisadores com apoio da Fapesp revela que a infecção pelo vírus chikungunya pode causar sintomas para além de febre, cefaleia, erupção cutânea e dores articulares e musculares. A análise, realizada por 38 pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP), Ministério da Saúde, Imperial College London e Universidade de Oxford, indica que o patógeno é capaz de invadir o sistema nervoso central e comprometer funções motoras.

“Além da possibilidade de o vírus infectar o sistema nervoso central, identificamos também que a letalidade da doença é maior em adultos jovens e não em crianças ou idosos, como se costuma prever em surtos da doença. A investigação mostra ainda que pacientes com diabetes parecem morrer com frequência sete vezes maior durante as fase aguda e subaguda da doença [entre 20 e 90 dias após serem infectados] que indivíduos sem a comorbidade”, diz William Marciel de Souza, pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e coautor do artigo publicado na revista Clinical Infectious Diseases.

O chikungunya é transmitido por meio da picada de fêmeas dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus. Os sintomas mais comuns são febre alta, dores de cabeça, nas articulações e nos músculos, náusea, fadiga e erupções na pele – por três semanas após a infecção. Depois desse período, alguns pacientes evoluem para a fase subaguda, com a persistência desses sintomas. Em certos cenários, a dor nas articulações persiste por mais de três meses, indicando a transição para o estágio crônico, que chega a durar anos.

Como foi feita a investigação

O trabalho teve como base uma ampla gama de dados clínicos, epidemiológicos e amostras laboratoriais de pacientes que morreram durante o maior surto da doença nas Américas, ocorrido no Estado do Ceará, em 2017. Na época, foram registrados 105 mil casos suspeitos e 68 mortes. A documentação dos dados coletados durante a epidemia foi realizada pelo Serviço de Verificação de Óbitos da Secretaria de Saúde do Ceará.

Os cientistas também verificaram os prontuários médicos e observaram que a maioria dos infectados que morreram durante o surto no Ceará apresentou síndrome neurológica – lesões no sistema nervoso central que podem ser altamente incapacitantes por comprometerem as principais funções motoras.

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Das 36 amostras de tecido cerebral de indivíduos que vieram a óbito, quatro (ou 11%) continham o micro-organismo. “A presença do vírus dentro do cérebro significa uma caracterização clara de que ele consegue causar uma infecção no cérebro e na medula espinhal”, explica Souza.

Pessoas mais vulneráveis às complicações do chikungunya

Além das novas características da infecção, os pesquisadores identificaram que o risco de morte nas fases agudas e subagudas era sete vezes maior em pacientes com diabetes. “Essas novas informações deverão contribuir para o reconhecimento de fatores causadores de gravidade”, pondera Luiz Tadeu Moraes Figueiredo, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, que também assina o estudo.

Os pesquisadores também revelaram padrões inesperados para epidemias de arboviroses. Por exemplo: segundo o experimento, idosos e crianças não representam os grupos etários com maior risco de morte. Pelo contrário, entre os mortos no surto de 2017, a maioria era de adultos (40 anos ou mais).

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De acordo com Souza, o achado reforça que, em um surto como o ocorrido no Ceará, não necessariamente o grupo de maior risco envolve as pessoas com o sistema imunológico suprimido ou deficiente. “Eram adultos jovens e saudáveis e não havia comorbidade relacionada na maioria dos casos. Isso adiciona mais uma camada à doença e pode ser uma informação de extrema importância para a prática clínica”, argumenta.

Mas ele destaca que os pacientes que morreram tinham uma variação etária grande. Havia óbitos de crianças com 3 dias de idade até pessoas com 85 anos.

*Esta reportagem foi publicada originalmente pela Agência Fapesp.

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