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Chikungunya pode avançar para as matas, o que dificultaria sua eliminação

Cientistas mostram que o vírus pode ser transmitido por mosquitos silvestres. Caso isso ocorra, será difícil se livrar dessa infecção que causa fortes dores

Por Isabela Vieira (Agência Brasil) Atualizado em 27 jun 2019, 18h14 - Publicado em 8 abr 2019, 12h16

O chikungunya pode se estender das cidades para as matas brasileiras, o que complicaria muito a eliminação da doença no país. O alerta é de cientistas dos institutos Oswaldo Cruz e Pasteur, na França, em um artigo publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases.

Na pesquisa, os cientistas constataram que mosquitos silvestres como o Haemagogus leucocelaenus e a Aedes terrens, comuns em regiões silvestres na América do Sul, são capazes de transmitir o vírus de três a sete dias após terem sido infectados com ele. Isso significaria um alto potencial de disseminação para macacos e populações que vivem perto de matas.

Hoje, o chikungunya é transmitido no Brasil pelo mosquito Aedes aegypti, que vive em ambientes urbanos. A doença provoca febre e fortes dores nas articulações, que podem se tornar crônicas.

Funciona assim: o mosquito Aedes aegypti se infecta com chikungunya chupando o sangue de uma pessoa doente. Aí, transmite o vírus ao picar outro indivíduo. Mas a lógica muda quando mosquitos silvestres entram em cena. Primeiro porque combater esses vetores na mata é complicado demais.

Segundo porque, se os insetos começarem a passar essa doença para macacos, estabelece-se um segundo ciclo de transmissão, que independe de seres humanos. É o que acontece com a febre amarela (falaremos mais disso a seguir).

Segundo o chefe do Laboratório de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) e coordenador do estudo, Ricardo Lourenço de Oliveira, o avanço para áreas silvestres torna o vírus mais difícil de ser enfrentado. No futuro, isso levaria ao aumento no número de casos. “Esse cenário apresentaria um grave problema de saúde pública”, afirma.

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Para os cientistas, é necessário começar, quanto antes, o monitoramento de regiões em áreas de mata. “É fundamental incorporar o chikungunya em uma rotina de vigilância no ambiente silvestre”, diz Lourenço.

Isso inclui a verificação de mosquitos e de macacos para avaliar se a transmissão já está ocorrendo próxima a florestas e, se não, monitorar a possibilidade.

  • O que a febre amarela ensina sobre o chikungunya

    Com a febre amarela, o percurso do vírus foi da cidade para as florestas. Trazida para as Américas, a doença primeiro circulou em áreas urbanas, provocando epidemias. A alta incidência dessa infecção, então, possibilitou que ela avançasse para as matas. Mas, com as campanhas de combate ao Aedes aegypti no passado, os casos urbanos – disseminados por esse mosquito em polos urbanos – desapareceram.

    Nas regiões de floresta ou próximas a ela, a vacinação se tornou uma forma essencial de prevenir os casos de febre amarela. Com os surtos recentes, as autoridades pediram para que mesmo moradores de grandes cidades tomassem a injeção justamente para evitar que a doença voltasse às regiões urbanas.

    Os cientistas lembram, no entanto, que ainda não foi descoberta uma vacina para o chikungunya. Para prevenir a migração do vírus para as matas, os cientistas querem mais estudos. Os mosquitos silvestres, explicam, não se desenvolvem bem em laboratório, justamente por serem selvagens. E também não ficou comprovado que macacos conseguem hospedar o vírus.

    Dados do Ministério da Saúde mostram que, no Rio de Janeiro, estado com o maior número de casos do país, o registro é duas vezes maior do que o de dengue. As 6,7 mil ocorrências em 2019 representam uma alta de 14% diante das 5,8 mil em 2018. Altos índices de notificações também foram observados em Tocantins, no Pará e no Acre.

    Este conteúdo foi produzido pela Agência Brasil.

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