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virosfera paulo eduardo brandao Virosfera O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.

As variantes do coronavírus: qual é o tamanho do problema?

Versões mutantes do vírus da Covid-19 preocupam o planeta. Nosso colunista esclarece como elas surgem e até que ponto atrapalham o controle da pandemia

Por Paulo Eduardo Brandão Atualizado em 1 mar 2021, 15h30 - Publicado em 14 fev 2021, 12h07

O que é uma variante? Enquanto um vírus vai se replicando, uma diversidade de erros em sua maquinaria dá origem a vírus-filhos com mutações. Se as mutações forem desvantajosas para esses filhotes virais, eles serão eliminados da população. Mas, se forem vantajosas ou não interferirem em nada, são mantidas e, aí, cada filho-mutante pode gerar sua própria nova linhagem.

O vírus continua sendo o mesmo, mas agora ele tem, digamos, versões alternativas. É como se fosse uma música da qual, a partir da composição original, são feitos diversos arranjos. A música em si não muda, mas as notas e os tempos são alterados, e surge algo novo.

Bem, é essa história que estamos acompanhando com o novo coronavírus. Cada variante do Sars-CoV-2 é um arranjo diferente do Sars-CoV-2 original.

Para uma variante desse vírus ser considerada uma nova linhagem, existem regras: a amostra viral tem que ter ao menos 95% do seu genoma sequenciado, ao menos uma mutação quando comparada à linhagem-mãe e ser idêntica a ao menos outras quatro amostras virais irmãs. Cumprindo os requisitos, a nova linhagem recebe um nome composto de uma letra e até três números — uma das linhagens detectadas no Brasil é, por exemplo, a B.1.1.33, P.1.

Quer dizer, então, que essas novas variantes e linhagens do coronavírus são Godzillas que só vão piorar a já tão terrível pandemia? Uma das limitações para responder à pergunta é que os estudos baseados em sequenciamento genômico, ainda que forneçam dados rapidamente (o que é, sem dúvida, importante), não permitem prever o comportamento dos vírus.

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É que não basta olhar seus genes. Precisamos testar em laboratório se as novas linhagens se ligam melhor às células humanas, se se reproduzem com maior sucesso, se conseguem escapar das vacinas, em que parte do organismo se replicam melhor, e por aí vai. Se não fizermos isso, vemos só as sombras da verdade, como no mito da caverna de Platão.

Até agora, sabemos que algumas das variantes têm maior avidez pelo receptor celular humano e podem levar a uma menor eficácia da vacina dependendo do tipo de imunizante. Algumas linhagens também escapam ao tratamento com anticorpos monoclonais.

Mas não há demonstração de que sejam mais agressivas. E, quanto àquelas que são chamadas de mais transmissíveis, a comunidade científica mantém um pé atrás: são mais transmissíveis mesmo ou acabaram sendo mais transmitidas? O predomínio de uma linhagem em um país pode ter como causa a introdução fortuita daquela versão mutante do vírus seguida do mau comportamento dos hospedeiros (leia-se, nós), participando de aglomerações, não usando máscaras, ignorando o distanciamento social… De quem é a responsabilidade? Só do vírus?

Para entender a fundo as variantes e linhagens do Sars-CoV-2, temos de ampliar o número de genomas virais obtidos — ainda pequeno diante da quantidade de casos detectados — e testar seu comportamento em laboratório. Tudo isso depende de um imenso investimento em infraestrutura e pessoal capacitado. Nações com mais visão de futuro já colocaram esse empreendimento em prática, pensando nesta e nas próximas pandemias.

Se as medidas de contenção da Covid-19 forem relaxadas agora, isso aumentará as chances de replicação e disseminação do coronavírus. E, aí, é fácil de entender que mais variantes vão surgir. Se a vacinação não ocorrer com a cobertura e a eficácia necessárias, por sua vez, podemos ter uma avalanche de linhagens capazes de escapar das vacinas e dominar o cenário, agravando dramaticamente a pandemia.

No fim, é nada além de evolução. E, como já disse o professor Theodosius Dobzhansky, “em biologia nada faz sentido exceto à luz da Evolução”.

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