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Virosfera

O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.
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As particularidades do vírus da dengue

Conhecer o agente causador da dengue e seus sintomas é importante para entender a situação no Brasil em 2024

Por Paulo Eduardo Brandão
6 fev 2024, 18h06

O clima no Brasil já não é mais o mesmo. Enchentes no Sul e secas no Norte trazem consequências tanto imediatas quanto outras que podem levar algum tempo se manifestar, como danos à agricultura, a extinção de espécies da fauna e da flora e, de modo mais insidioso, o despertar ou alastrar de doenças, a exemplo daquelas transmitidas pelo mais mortal animal do planeta Terra: o mosquito. Dentre diversas infecções que pegam carona nas asas dos mosquitos, a dengue tem chamado a atenção por estar “bombando” em diversas cidade e estados do Brasil.

O transmissor da dengue é o mosquito Aedes aegypti, o “egípcio desagradável”, traduzindo do grego. A fêmea do Aedes precisa do nosso sangue para produzir ovos, mas, se tivermos vírus circulantes nosangue, como o da dengue, a “mosquita” ganha um fast food reforçado e o vírus se reproduz nela e fica pronto para infectar uma nova pessoa na próxima picada.

O vírus da dengue é parente do da febre amarela e da Zika – ele é provido de envelope que envolve seu RNA genômico. Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), metade da população do planeta está sob risco de infecção por esse vírus, com 96 milhões de casos da doença por ano!

Na sua forma menos severa, a dengue gera febre, dores de cabeça, musculares e de articulações, náusea, vômitos e manchas vermelhas na pele. Na sua pior forma, ela se torna uma febre hemorrágica letal, com sangramento pelos orifícios corporais, não muito diferente do famoso Ebola.

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+Leia também: Quem está com dengue não pode tomar quais remédios?

Para entender os caminhos da doença e as vacinas disponíveis, temos que mergulhar um pouco na Resposta Imune Humoral, ou seja, por anticorpos, tocando em dois pontos fundamentais.

Primeiro: existem quatro tipos diferentes de vírus da dengue, e não há proteção cruzada entre eles. Isso significa que, se a pessoa for infectada pelo tipo 1, só terá anticorpos protetores contra ele. Aí, se for infectada pelo tipo 2, pode ter a doença de novo.

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Segundo, vem um pequeno detalhe que muda tudo: nem todos os anticorpos servem só para neutralizar os vírus e nem sempre ter anticorpos é sinal de segurança.

Explico: se tiver dengue duas vezes – digamos, uma primeira pelo tipo 1 e uma segundo pelo tipo 4 –, a pessoa não tem anticorpos contra esse vírus diferente e não está protegida contra ele, certo? Certo!

Mas aqui nosso tema é a Virosfera, e nada é tão simples nesse mundo. Sabe aqueles anticorpos da primeira infecção, contra o tipo 1? Pois é, eles não protegem contra o 4, mas se grudam nesse vírus e (pasme!) ajudam que ele entre mais fácil nas nossas células. Daí que uma segunda dengue pode ser pior se o tipo viral for outro. Os anticorpos não só não ajudam, como atrapalham nesse caso.

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Tudo isso tem que ser levado em conta para inventar uma vacina contra a dengue. É por isso que esses imunizantes precisam ter os quatro tipos virais – reforçando, para proteger seja qual for o tipo e para sempre ter anticorpos protetores e não só anticorpos amigos do vírus.

As vacinas de dengue usam vírus atenuados, como se fossem amansados no laboratório, para gerar imunidade. A Dengvaxia, a mais antiga e produzida pela Sanofi Pasteur, tem que ser tomadas em três doses. Ela está aprovada para uso no Brasil desde 2015, mas só por quem já teve dengue, porque se descobriu que pessoas que nunca foram infectadas e tomaram a vacina podem ter sintomas mais graves, se atacadas pelo vírus.

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A Qdenga, da farmacêutica japonesa Takeda, incorporada pelo Ministério da Saúde do Brasil no PNI (Programa Nacional de Imunizações) em uma ação inédita no mundo, começa a ser usada no Brasil neste mês. Ela possui um esquema de duas doses vacinais, independentemente de infecção prévia ou não.

Esta é, por ora, a melhor vacina contra a dengue. Mas meus vizinhos aqui no Instituto Butantan desenvolveram uma vacina superior à Qdenga, que chamaram de Butantan-DV, com a grande vantagem de ser de dose única.

Em fase de testes clínicos, ela nos leva a independência científica e econômica. É mais uma demonstração de que, em Ciências, não há gastos, mas sim investimentos.

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Mas não é só de vacina que depende a prevenção contra a dengue! Diminuir a população do mosquito é uma medida genérica contra essa doença, e também contra febre amarela, zika e outras.

Não deixar água parada em casa tem um efeito gigantesco nesse sentido. Não dá para esperar só ações governamentais: cada um precisa fazer sua parte contra a dengue, contra outras doenças, contra o negacionismo e se informar. Como disse a escritora lituano-canadense Emma Goldman: “O elemento mais violento na sociedade é a ignorância”.

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