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O consumo de fake news sobre vacinas no YouTube

Pesquisadora analisa o peso do testemunho, da linguagem e das evidências científicas no consumo de vídeos sobre vacinação na internet

Por * Isabela Duarte Pimentel, especialista em mídias digitais* 27 out 2020, 15h19

O excesso de termos técnicos e a pouca transparência sobre o processo científico têm contribuído para uma mudança no consumo de conteúdos sobre vacinas na internet brasileira. Esse cenário favorece o crescimento da audiência de vídeos produzidos por cidadãos comuns no YouTube, muitos com informações contraditórias quando comparados aos conteúdos divulgados por órgãos oficiais de saúde. E ainda fomenta o ambiente de fake news nas redes. Essas são algumas constatações que obtive em minha recém-publicada dissertação de mestrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para chegar a tal conclusão, estudei o tema por dois anos, focando no compartilhamento de conteúdos não checados sobre vacinação. Em 2018, por meio de ferramentas de monitoramento na internet, identifiquei os sites não oficiais que mais compartilhavam notícias falsas sobre a vacina da febre amarela nos dois surtos recentes da doença — em março de 2017 e abril de 2018. Também localizei contas ativas desses sites no YouTube.

A partir daí investigamos algumas palavras-chave nessa plataforma como “vacina febre amarela” e “veneno mortal” e avaliamos 200 comentários dos dez vídeos sobre o tema que mais tiveram visualizações no período. “Conspiração para eliminar a população”, “nova ordem mundial” e ‘”veneno” foram os comentários sobre as vacinas feitos com maior frequência nos vídeos.

O estudo ainda contou com uma segunda fase, em que entrevistamos homens e mulheres de 16 a 50 anos de diferentes regiões do país e níveis de escolaridade, todos consumidores desses canais de conteúdo. O requisito para ser entrevistado era não se vacinar.

Diante desses voluntários, exibimos um trecho de 2 minutos de três vídeos sobre vacinas a fim de entender a quem atribuíam mais credibilidade. O primeiro era uma campanha do Ministério da Saúde; o segundo o vídeo de uma jovem contando como “quase morreu” por causa das vacinas; e o terceiro uma explicação do médico Drauzio Varela. Apenas um participante afirmou confiar plenamente no órgão oficial do governo.

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Os participantes relatavam acreditar mais no vídeo do testemunho. Perguntados sobre por que tinham confiança no depoimento da jovem, eles argumentavam sentir “empatia” com ela, pois seu discurso “aproximava”, “era humano”… Observamos que o poder do vídeo está relacionado à sua capacidade de despertar sensação de proximidade e usar palavras da rotina da maioria dos cidadãos, além de frases em primeira pessoa carregadas de sentimentos e propícias a angariar solidariedade. É diferente do discurso do Ministério, considerado pelos entrevistados “técnico” e “pouco claro”.

O antropólogo francês Bruno Latour afirma que a própria ciência tem construído, ao longo dos séculos, verdadeiras “caixas pretas”: ao comunicar resultados e seu conhecimento, exclui as marcas de construção, riscos, desafios e dilemas envolvidos, afastando-se do cidadão. Há um abismo de comunicação entre a linguagem técnica das campanhas de saúde e a população, que cada vez mais opta por confiar no consumo de conteúdos vindos de “pessoas comuns” pelas redes sociais. Isso só agrava a desinformação atual sobre vacinas.

Precisamos repensar a comunicação sobre saúde e ciência, suas dúvidas, processos, descobertas e avanços, para que o cidadão compreenda melhor e se engaje em recomendações que verdadeiramente são bem-vindas a si e à sociedade.

* Isabela Duarte Pimentel é mestre em Mídias Digitais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), consultora e pesquisadora e professora da ESPM-RJ, da FGV e do IPOG

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