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O caminho para eliminar o câncer do colo de útero na América Latina

Especialista aponta três grandes desafios que, se superados, aumentam muito a chance de praticamente acabar com as mortes por esse tumor maligno

Por Luisa Lina Villa, do Icesp*
17 mar 2024, 07h12

O câncer do colo do útero é uma doença implacável – e também desigual. Das 40 mil mulheres nas Américas que morrem da doença a cada ano, mais de 80% vivem na América Latina e no Caribe, com mais casos em países e comunidades com menos recursos.

Graças a algumas descobertas científicas cruciais nas últimas décadas, agora temos ferramentas altamente eficazes. Destaco as vacinas contra o HPV – que previnem quase todos os casos da doença – e as novas opções de exames e tratamento, que nos aproximam mais do que nunca da eliminação do câncer do colo do útero.

Mas as mulheres na América Latina e no Caribe estão sofrendo e morrendo de câncer do colo do útero porque não têm acesso a essas ferramentas. Esta terrível injustiça deve ser enfrentada.

Temos os instrumentos para tornar o câncer do colo do útero uma mazela do passado, mas precisamos garantir que elas alcancem cada menina e mulher em toda a região – um objetivo no qual estou confiante que podemos alcançar com um foco renovado em três desafios principais.

+ Leia também: Câncer de colo do útero: pouco mudou em 25 anos

Em primeiro lugar, os países devem entender melhor as disparidades no acesso a inovações que salvam vidas. As vacinas contra o HPV são altamente eficazes, mas o acesso em toda a região permanece surpreendentemente desigual.

Em 2022, quase 1 em cada 4 meninas nas Américas ficaram sem a proteção que as vacinas contra o HPV oferecem para salvar vidas. Além disso, grandes disparidades na cobertura foram registradas. Alguns países, como Argentina e Equador, relataram taxas de vacinação bem acima de 90%, enquanto outros ainda não atingiram uma cobertura de 50%.

Essas disparidades não estão presentes apenas entre os países, mas também dentro deles. No Brasil, as ferramentas de prevenção e tratamento são mais difíceis de acessar em áreas remotas em comparação com as capitais. Como resultado, o ônus do câncer do colo do útero é muito maior em regiões com menos recursos, com algumas relatando taxas de incidência que estão entre as mais altas do mundo.

Uma análise mais detalhada das desigualdades no acesso aos cuidados revela a necessidade urgente de os países desenvolverem abordagens inovadoras para alcançar as mulheres e meninas mais vulneráveis.

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+ Leia também: Teste molecular para HPV: o que é, vantagens e desvantagens

Em segundo lugar, os países precisam de estratégias claras e inovadoras para expandir a cobertura de ferramentas que salvam vidas em toda a região. Uma das melhores táticas à disposição para fazer isso é o cronograma de vacinação em dose única.

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novos dados de que uma dose da vacina contra o HPV é comparável em eficácia a duas ou três, na população mais jovem, permitindo que os países protejam mais meninas com menos obstáculos logísticos e com custo reduzido.

A região da América Latina e Caribe tem sido líder mundial na implementação dessa estratégia. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) tornou-se o primeiro escritório regional da OMS a endossar o regime em 2023 e, desde então, oito países adotaram as orientações de uma dose única de vacina em seus programas nacionais de imunização. O Brasil não está entre essas nações ainda.

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Aumentar o acesso a exames para diagnóstico do câncer do colo do útero também é fundamental para detectar a doença precocemente. O teste de HPV de alto desempenho foi recomendado pela OMS no ano passado como uma maneira mais simples e econômica de fazer o rastreamento do que métodos comuns, como o exame de Papanicolau.

+ Leia também: Colposcopia: para que serve e como é feita

O rastreamento oportuno e preciso do câncer do colo do útero salva vidas, especialmente daquelas que não estão protegidas pelas vacinas, mas o acesso ainda é limitado em algumas regiões . Se mais países se comprometerem a implementar o teste de HPV, mais mulheres terão chance de sobreviver à doença.

Em terceiro lugar, os líderes devem assumir sua responsabilidade. O mundo chegou a um ponto de virada na luta contra o câncer do colo do útero, por isso precisamos de compromissos políticos e financeiros sólidos de líderes de todos os setores – governos, investidores, profissionais de saúde, sociedade civil e outros.

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Também precisamos de uma comunicação clara de nossos líderes para ajudar a dissipar a desinformação e concepções equivocadas sobre as vacinas contra o HPV e o câncer do colo do útero, que representam uma séria ameaça à eliminação na América Latina e no Caribe.

Em maio do ano passado, ajudei a lançar a Declaração Global para Eliminar o Câncer do Colo do Útero ao lado de doze importantes especialistas em saúde pública, cientistas e médicos. A iniciativa pede ação urgente para acabar com o câncer do colo do útero globalmente, melhorando o acesso a vacinas, exames e tratamento.

Desde então, recebeu o apoio de mais de 20,5 mil porta-vozes da saúde em 151 países, incluindo alguns dos líderes globais, como o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, e o diretor da Opas, o brasileiro Jarbas Barbosa de Silva.

A eliminação do câncer de colo do útero está ao nosso alcance, tanto na América Latina e no Caribe, quanto globalmente. Trabalhando juntos, podemos fazer história ao viabilizar um mundo onde nenhuma mãe, filha, irmã ou amiga perca a vida para esse tumor maligno.

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*Luisa Lina Villa é chefe do laboratório de Inovação em Câncer do Centro de Investigação Translacional em Oncologia do Icesp. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Mundial de Ciências, além de comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico.

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