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Baixa adesão: um obstáculo no tratamento das doenças cardiovasculares

Ao não seguir a prescrição do tratamento médico, um número considerável de pessoas está sujeita a perdas na qualidade e expectativa de vida

Por Marcus Bolivar Malachias, cardiologista*
21 nov 2021, 11h54

A adesão aos tratamentos preconizados pelos médicos e a forma como as pessoas encaram a necessidade de gerenciar o cuidado com a própria saúde são fatores determinantes para viver mais e melhor. Apesar do avanço científico e do desenvolvimento de medicamentos inovadores, o controle das doenças crônicas pouco tem melhorado, principalmente devido à baixa adesão aos recursos disponíveis.

As doenças cardiovasculares representam a principal causa de mortes em todo o mundo e no Brasil. Cerca de 400 mil brasileiros morrem todos os anos por problemas do coração e da circulação. São mais de 1 100 mortes por dia, cerca de 46 por hora, uma a cada 90 segundos. Muitas delas poderiam ser evitadas ou postergadas com cuidados preventivos e medidas terapêuticas adequadas.

Pesquisas demonstram que 1/3 dos pacientes interrompem os seus tratamentos antes do recomendado, 50% não tomam os medicamentos prescritos e 31% sequer aviam as prescrições.

No tratamento de doenças crônicas, é comum as receitas médicas reunirem três ou mais medicamentos, só que mais da metade dos pacientes não utiliza a totalidade dos remédios indicados. Esquemas terapêuticos que envolvem tomar vários comprimidos ao dia, frequentemente para doenças concomitantes, têm adesão ainda menor, estimada em menos de 20%.

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Estudos apontam que esse fenômeno contribui para 200 mil mortes prematuras por ano na Europa. Além do impacto social, o problema tem efeito econômico devastador nos sistemas de saúde, com gastos anuais da ordem de 125 bilhões de euros na Europa e 105 bilhões de dólares nos Estados Unidos em hospitalizações e procedimentos evitáveis.

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São poucos os dados sobre a adesão no Brasil, mas se imagina que os reflexos sociais e econômicos sejam semelhantes ou até mais intensos.

Em relação ao paciente, verificamos que o nível educacional, a condição econômica, as crenças culturais, o conhecimento inadequado sobre a doença, a baixa percepção dos benefícios do tratamento, o medo de efeitos colaterais, a fadiga em relação ao uso crônico de remédios, o baixo apoio familiar e social ao cuidado com a saúde e as questões psicológicas associadas são alguns dos fatores determinantes para deixar de se tratar corretamente.

Muitos aspectos relacionados aos médicos também interferem nesse contexto, como a dificuldade de acesso a profissionais, má relação médico-paciente, consultas rápidas, comunicação difícil ou prolixa, prescrições complexas e confusas, grafias ilegíveis e recomendações contraditórias entre diferentes especialistas.

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O próprio tratamento também pode influenciar a adesão. Entre os motivos, destaco o custo, efeitos adversos, esquemas de dose e uso complexos, dificuldade na administração, falta de padronização quanto à forma e à cor de fármacos similares de fabricantes diferentes, existência de embalagens e comprimidos parecidos para produtos diferentes, burocracia no acesso e irregularidades no fornecimento de remédios pelos programas públicos e privados.

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É consenso que a melhoria da comunicação e da educação em saúde constituem potentes estratégias para reduzir a má adesão. E a tecnologia tem colaborado nessa missão. Recursos simples como o envio de mensagens aos pacientes, o uso de aplicativos, a telemedicina, campanhas virtuais e até frascos inteligentes, contendo chips que sinalizam a tomada de remédios, são bons exemplos.

Globalmente, especialistas têm discutido o tema e buscado saídas para o problema. Tanto é que, recentemente, tivemos um congresso internacional focado em adesão ao tratamento, o a:care, realizado pela Abbott. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que melhorar essa questão pode ter um impacto na saúde da população até maior que a descoberta de novas medicações.

A baixa adesão constitui, assim, um grave obstáculo aos ganhos na expectativa e na qualidade de vida. É um desafio de saúde pública que exige soluções e deve envolver toda a sociedade.

* Marcus Bolivar Malachias é cardiologista, PhD pela USP, pós-doutor pela Harvard Medical School e governador do Capítulo Brasil do American College of Cardiology

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