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Vacinação infantil contra a Covid-19: a epidemia da desinformação

Boatos e notícias falsas dificultam imunização dos mais novos no Brasil. Hora de falar algumas verdades

Por Sidney Klajner 8 mar 2022, 17h50

“A epidemia da desinformação”. Foi assim que a revista VEJA destacou, em sua capa de outubro de 1972, o fenômeno dos negacionistas que à época diziam não haver uma epidemia de meningite no Brasil. Os números, porém, mostravam o contrário. E o surto só foi vencido na segunda metade da década com vacinação em massa.

Meio século depois, temos a “pandemia da desinformação” relacionada à Covid-19. Nos últimos tempos, ela traveste de “lobo mau” a imunização de crianças e adolescentes. Seria um lobo mau que, a exemplo do personagem da história infantil capaz de enganar Chapeuzinho Vermelho, vem confundir mães e pais e fazer com que muitos hesitem ou não levem seus filhos para receber a vacina.

Acreditando em mentiras e meias verdades, eles acham que estão protegendo sua cria, quando, de fato, estão colocando os mais novos em risco.

O primeiro mito a ser derrubado diz respeito à suposta desimportância da vacina pelo fato de a Covid-19 ser mais leve nessa faixa etária. Realmente, a doença costuma ser menos grave em crianças e adolescentes. Mas também pode matar.

Das 617 mil mortes de pacientes hospitalizados com Covid-19 registradas em nosso país até início de dezembro de 2021, cerca de 2 500 foram de crianças e adolescentes menores de 19 anos. São vidas que se perderam antes de chegarem à idade adulta.

+ Leia também: Fake news colocam a saúde em risco

No Brasil, a doença mata mais nessa faixa etária do que em outros países. A proporção é de aproximadamente 41 mortes por milhão de crianças e adolescentes. Nos Estados Unidos, a relação é de 11 por milhão; e, no Reino Unido, de 4,5 por milhão.

Como observa um documento da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) baseado em dados do Ministério da Saúde, nenhuma outra doença prevenível por vacina (meningite, gastroenterite por rotavírus, influenza, catapora etc.) matou tantos menores de 19 anos antes de esses imunizantes serem introduzidos no nosso Programa Nacional de Imunização (PNI), que, aliás, é exemplar.

O fato é que, para uma parcela de crianças e jovens, a infecção causada pelo Sars-CoV-2 não é uma doença “mais leve”. Segundo o mesmo documento da SBP, a taxa de letalidade entre os brasileiros dessa faixa etária hospitalizados com síndrome respiratória aguda grave por Covid-19 foi de 7% (bem maior que a de 0,5% registrada nos Estados Unidos).

Complicações associadas à doença também apresentam maior gravidade aqui. Por exemplo: a taxa de letalidade de crianças hospitalizadas com síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica é de 6%, cinco vezes maior que entre os americanos.

Menores de 19 anos também são vítimas da chamada Covid longa, que envolve sintomas cardiorrespiratórios, neurológicos e distúrbios mentais que persistem depois de vencida a infecção pelo coronavírus.

+ MAIS: Confira outros artigos do médico Sidney Klajner em sua coluna Check-up

Os arautos da “pandemia da desinformação” também argumentam contra a segurança e a eficácia das vacinas disponíveis. Segundo eles, os imunizantes foram desenvolvidos e analisados às pressas. De novo, são os lobos maus enganando os incautos.

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Se as vacinas são novas, a tecnologia (RNA mensageiro) já existe há tempos e se mostrou perfeita para as formulações contra a Covid-19.

E, assim como as vacinas aplicadas nos adultos, elas passaram por todas as fases de pesquisa clínica, foram aprovadas pelos órgãos regulatórios e têm demonstrado seu impacto positivo na prevenção da ocorrência de casos e na menor gravidade do quadro de quem é infectado, o que resulta em menos hospitalizações e mortes.

Em relação aos adultos, as crianças e os adolescentes ainda têm uma vantagem, pois apresentam uma melhor resposta imunológica, desenvolvendo anticorpos de maneira espetacular após a picada. A eficácia das vacinas pediátricas de Covid fornecidas no Brasil supera os 90%, com excelentes níveis de segurança.

Só que, movidos por razões ideológicas, os youtubers e influencers aliados da desinformação costumam citar que a vacina provoca reações adversas graves, como miocardite, uma inflamação do músculo cardíaco. Esquecem de dizer, no entanto, que são casos raríssimos e que se curam de maneira rápida. A ocorrência é de menos de um caso a cada milhão de crianças vacinadas.

E aqui repito o dado mencionado anteriormente: a proporção de mortes por Covid nessa faixa etária no Brasil é de 47 por milhão. Não é preciso ser um gênio da estatística para entender que escolher não vacinar os filhos é optar por colocar a vida deles em risco.

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Infelizmente, ainda são muitos os pais e mães que caem nas armadilhas das mentiras e meias verdades disseminadas por aí.

Alfredo Gilio, coordenador médico da Clínica de Imunização do Einstein, me contou que, apesar dos imensos esforços de especialistas e fontes confiáveis para divulgar informações baseadas na ciência, ele recebe diariamente ligações e mensagens de pais com dúvidas sobre se devem ou não vacinar os filhos.

“É gastar energia com a loucura”, diz ele de maneira enfática. E tem razão. A única energia a ser gasta por quem quer verdadeiramente proteger seus filhos é no trabalho de levá-los ao posto de saúde para receber a vacina.

Fora isso, existem os aspectos de ética e cidadania. Assim como os adultos, crianças e adolescentes, ainda que assintomáticos, também podem ser transmissores do coronavírus para outras pessoas. Nós só conseguiremos vencer a pandemia com a participação de todos. Caso contrário, continuaremos abrindo espaço para o contágio e para o surgimento de novas variantes.

Ser imunizado não é uma questão simplesmente individual. É uma questão de pensar no coletivo. Foi assim, pensando e agindo coletivamente, que acabamos com epidemias como as de sarampo, varíola, meningite e poliomielite, entre outras.

É esse o caminho que temos de trilhar para superar as duas pandemias que nos assolam no momento: a da Covid-19 e a da desinformação.

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