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Check-up com Sidney Klajner

O cirurgião e presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein levanta e debate as tendências e os desafios que interferem em nosso dia a dia e na saúde pública do país
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Refluxo gastroesofágico: cirurgia é a solução?

Nem sempre é preciso operar. A maioria dos casos tem tratamentos bem mais simples, esclarece nosso colunista

Por Sidney Klajner
Atualizado em 5 out 2022, 15h09 - Publicado em 5 out 2022, 15h08

Eu sou cirurgião do aparelho digestivo, tenho refluxo gastroesofágico que nunca operei e vivo há pelo menos quinze anos sem qualquer daqueles sintomas que quem tem o problema conhece bem: azia, queimação e dor na região do tórax.

Qual a minha receita? Uma dose de manutenção de um remédio que diminui a produção do ácido do estômago e algum cuidado para não abusar de alimentos que jogam a favor do refluxo.

O refluxo é uma espécie de trânsito na contramão do sistema digestivo. Sem acidentes no percurso, a trajetória normal é que a comida que ingerimos passe pelo esôfago e chegue até o estômago, cuja função é preparar o alimento para ser digerido e absorvido pelo nosso intestino.

Para isso, além dos movimentos de trituração, produz um ácido. O órgão tem um revestimento que impede que seja agredido por esse ácido. O esôfago não, por isso é afetado se acontece o trânsito na contramão.

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Nós temos mecanismos funcionais e anatômicos que impedem que a acidez e o conteúdo do estômago retornem para o esôfago. Os dois órgãos estão em eixos diferentes, o que funciona como uma espécie de sifão, impedindo que o alimento volte na direção contrária.

O estômago está mais à esquerda e tem ligamentos que o unem ao diafragma, um grande músculo no meio do qual há um orifício chamado hiato por onde passa o esôfago. Em sua parte final, uma musculatura mais forte, o esfíncter, abre e fecha, permitindo a passagem da comida para o estômago e impedindo que ele volte.

O alargamento do hiato pode levar à hérnia, uma das principais causas do refluxo.

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Quando algum desses mecanismos antirrefluxo não funciona adequadamente, surgem os sintomas. Os mais comuns são os gastrointestinais, como azia e queimação. Mas existem aqueles atípicos, quando o refluxo atinge a parte mais alta do esôfago: tosse, rouquidão, ardor/dor de garganta e até desgaste dos dentes.

Investigar a causa dos sintomas é fundamental, porque o refluxo pode ter como consequências inflamação (esofagite), úlcera ou estreitamento do esôfago e até câncer na região. A endoscopia permite identificar problemas desse tipo, e a radiografia com contraste pode comprovar a hérnia de hiato.

Em alguns casos podem ser recomendados exames mais sofisticados, como os que medem o PH do esôfago em 24 horas ou a motilidade (movimento de contração) desse órgão.

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Os sintomas comuns estão geralmente associados ao consumo de alimentos que acabam relaxando o esfíncter do esôfago, sendo que obesidade e tabagismo também contribuem para isso. Para que meus pacientes lembrem o que deve ser evitado, eu digo que é só pensar no almoço de domingo na casa da nonna ou da sogra.

Começa no aperitivo junto com algum petisco condimentado ou frito. Depois vem a lasanha com bastante molho de tomate e gordura, acompanhada de vinho. Em seguida, uma mousse de chocolate ou pudim de sobremesa e, por fim, o cafezinho. Logo depois de comer, a pessoa se instala no sofá para tirar uma soneca, e o efeito da gravidade completa a segunda parte do ritual pró-refluxo.

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Mudanças comportamentais, como adotar novos hábitos alimentares, não deitar logo depois da refeição, assim como controlar o peso e parar de fumar, são mais que bem-vindas.

Para o tratamento, também podem ser indicados medicamentos inibidores da produção do ácido – e que, dependendo do caso, depois podem ser mantidos em doses menores de maneira permanente. Essas medicações são muito seguras. Notícias que circularam relacionando seu uso crônico com demência e câncer de estômago não passam de fake news baseadas em trabalhos sem qualquer rigor científico.

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O que norteia o tratamento do refluxo é a qualidade de vida e a ausência de esofagite. Se a abordagem clínica não apresentar bons resultados ou se houver alguma alteração funcional ou anatômica, como o estreitamento do esôfago, distúrbio de motilidade ou hérnia de hiato, a cirurgia pode ser indicada para corrigir o refluxo e criar uma nova conformação da arquitetura do estômago com o esôfago. Mas vale lembrar: mesmo essas alterações nem sempre exigem operação.

Existe um refluxo fisiológico, que todos nós temos algumas vezes ao longo das 24 horas do dia (em torno de 10% do tempo) e que não agride o esôfago. Também pode haver ocorrências episódicas, quando há exagero na comida ou na bebida.

Contudo, se os sintomas se repetem sempre, é preciso tratar adequadamente para evitar que o refluxo leve a complicações mais graves. E tratamento adequado, na maioria das vezes, passa longe da sala de cirurgia. Mas ela pode ser necessária em alguns casos. O que tem de prevalecer é a boa indicação médica visando à manutenção da qualidade de vida.

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