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Respirar É Preciso Do nariz aos pulmões, dos pulmões ao nariz... Percorrendo o sistema respiratório, o pneumologista Elie Fiss, professor da Faculdade de Medicina do ABC e médico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, desmistifica tudo que pode tirar nosso fôlego.

Asma ou bronquite: o que eu tenho?

Nosso colunista esclarece as diferenças e confusões por aí e conta como funciona o tratamento da asma, dos quadros leves aos graves

Por Elie Fiss 23 nov 2020, 12h33

A asma é uma doença crônica que afeta até 20% da população. Logo, é um problema muito frequente, mas que carrega consigo uma quantidade enorme de mitos e medos.

Começa pelo próprio nome. Quando pergunto se alguém tem asma, a resposta mais comum é NÃO! Mas, se questiono se teve bronquite na infância ou na adolescência, a resposta vira um SIM.

Na verdade, estamos falando da mesma doença, a asma. Por preconceito ou desconhecimento, no decorrer dos tempos ela era chamada de bronquite, bronquite asmática ou outros termos. Confesso que não sei o real motivo por trás desses nomes. O fato é que falamos de asma.

A asma é uma inflamação crônica dos pulmões que tem vários fatores desencadeantes, tais como alergia, ar frio, infecções, refluxo gastroesofágico e até eventos emocionais (fora os que não conhecemos ainda).

A bronquite crônica, por sua vez, não se refere às crises respiratórias mais frequentes na infância ou adolescência. É uma inflamação nos pulmões mas com mecanismo completamente diferente. Sua principal causa é o tabagismo e ela começa a se manifestar geralmente a partir dos 40 anos de idade. A DPOC, doença pulmonar obstrutiva crônica (sobre a qual escreverei em outra oportunidade), engloba na realidade a bronquite crônica e o enfisema pulmonar.

A asma propriamente dita pode iniciar em qualquer idade mas é bem mais comum que dê as caras ainda na infância. A doença pode até entrar no que chamamos de remissão, quando cessam as crises. Não se engane, porém: o processo inflamatório permanece lá nos brônquios e um dia pode se manifestar novamente.

No período de crise, o paciente com asma apresenta uma sensação de falta de ar devido à dificuldade de expelir o ar para fora dos pulmões. Tosse, opressão no peito e chiados se somam à falta de ar como os principais sintomas.

  • A gravidade e o tratamento da asma

    Classificamos o grau da asma em leve, moderada e grave, de acordo com a presença e a intensidade dos sintomas apontados, tanto de dia como de noite, e com base na necessidade de medicamentos para controlar as crises.

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    Felizmente, a grande maioria dos pacientes tem asma leve, com poucos ou nenhum sintoma fora das crises. Aproveito esse ponto para quebrar um mito: o asmático pode, sim, levar uma vida normal! Pode praticar esportes, tomar gelado etc.

    O fato de haver uma remissão espontânea da asma faz surgir vários tratamentos milagrosos, crenças e simpatias que supostamente funcionariam. Quando as crises aparentemente vão embora, parece que foi isso que salvou a pátria. Mas não é bem assim. Tantas vezes faz parte do processo natural de evolução da doença.

    O tratamento que doma, de fato, a asma envolve remédios prescritos pelo médico. Eles têm como alvo principal o controle da inflamação e a broncodilatação (o relaxamento dos brônquios). Os mais indicados são os corticoides e os broncodilatadores, respectivamente, ambos por via inalatória de modo preferencial.

    E aqui temos outros mitos a serem esclarecidos. É mito que o corticoide inalatório faz o paciente inchar e engordar. A verdade é que ele é o tratamento principal e mais eficaz. Como a asma é crônica, seu tratamento deve ser contínuo. A medicação só pode ter a dose reduzida ou ser suspensa sob orientação médica. É o mesmo princípio aplicado a outros problemas crônicos como diabetes e hipertensão.

    Muitas vezes, vejo pacientes parando o tratamento por se sentirem bem, só para “ver o que acontece”. É um erro. Eles deveriam pensar que estão bem justamente por causa da medicação — e não interromper seu uso.

    Outro mito é o de que a bombinha mata. Os broncodilatadores de via inalatória devem ser utilizados sob prescrição e ajudam a aliviar os episódios de asma. Como qualquer outro remédio, a superdosagem pode ter efeitos colaterais.

    Menos de 5% dos asmáticos convivem com a asma grave, cujo controle depende de vários medicamentos. Inclusive hoje temos uma série de novos fármacos, chamados de biológicos, que têm apresentado resultados excelentes na contenção dos sintomas e das crises. Além da medicação, recomendo a reabilitação pulmonar num programa multiprofissional que inclua fisioterapia, psicologia, educação física, nutrição e, em alguns casos, terapia ocupacional.

    Em resumo, a asma não tem cura mas tem tratamento. E quem tem asma pode e deve levar uma vida normal, seguindo as orientações do seu médico. Afinal, respirar é preciso!

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