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Por que a maioria das pessoas não quer saber quando vai morrer?

Especialista parte de uma pesquisa feita para o seu livro para refletir sobre o temor ou a atração em relação a essa pergunta

Uma vida centrada na morte não é vida”. Essa frase, do filme Além da Vida, dirigido por Clint Eastwood, reflete a opinião da maior parte das pessoas quando perguntamos a elas se gostariam de saber quando vão morrer. A pergunta, que pode parecer inusitada, foi a primeira do questionário que compôs a pesquisa que realizei para o livro EternaMente: Ciência e Religião no Limiar da Comunhão (Editora CRV).

O questionário contou com a participação de 101 pessoas, sendo 81 mulheres e 20 homens; 54 delas com até 39 anos e 47 com 40 anos ou mais. Todas responderam a seis questões instigantes. O objetivo era investigar como cada um encara alguns mistérios que intrigam a humanidade há séculos. A ideia também era entender como as pessoas lidam com seus maiores sonhos e fantasias, despertados ainda mais com os avanços da ciência.

Assim, a primeira pergunta do questionário era sobre a única certeza que temos na vida: a de que um dia vamos morrer. Dizia:

“Vamos supor que haja um momento, e um só na vida de cada um de nós, em que seja possível tomar conhecimento do dia da morte. E que esse momento seja hoje, agora. Reflita. Você gostaria de saber com que idade vai morrer?

Sim? Não? Por quê?”

As respostas mostram que as pessoas querem afastar a ideia da morte. Tirá-la de seu inconsciente e, principalmente, de seu consciente. Não saber quando vamos morrer afasta a certeza de que somos finitos. E abominamos a finitude. Dos alquimistas e seu elixir da longa juventude à clonagem e o upload da mente, pesquisados em diversos laboratórios, o que desejamos mesmo é permanecer mais tempo por aqui.

Afastar a perspectiva da morte de nossa consciência foi marcante entre os mais maduros. Quatro a cada cinco pessoas acima dos 40 anos não quiseram saber a data em que vão morrer. As principais justificativas para a aversão ao tema foram evitar ansiedade, medo e sofrimento.

“Me mataria por antecipação”, disse um dos respondentes. “Não aproveitaria a vida pensando no dia da morte, mesmo que distante”, afirmou outro. “Morte em idade baixa provocaria falta de motivação pelo restante dela”, disse mais um.

Mas nem todos que rejeitaram a ideia de saber a data de sua morte encararam o fato por uma perspectiva negativa. Os mais positivos enfatizaram surpresa, esperança e a possibilidade de viver de forma mais leve.

“Para viver cada dia com serenidade”, disse um deles. “Grande parte do prazer da aventura humana reside no mistério”, falou outro. Também houve quem mencionasse um caráter espiritual. “O dono e senhor do tempo é Deus”; “Penso que a mente passa para outro plano, só o ego morre. O inconsciente permanece em energia”; “Se me foi dada a oportunidade da vida, por que iria querer saber até quando?”

Os curiosos para saber quando vão morrer somaram 27% do total. O percentual aumenta para 31% entre os mais jovens. E formaram dois grupos nas justificativas.

O primeiro está mais orientado a si, a aproveitar ao máximo cada instante da existência. “Seria libertador e viveria da melhor forma até minha morte sem receio de que ocorresse algo que me matasse nesse meio-tempo.” Os mais maduros formaram também um segundo grupo, orientados a preparar o terreno para a família. Pensam assim para “(…) me programar em relação a meus filhos e família”, “(…) planejar atividades no âmbito da herança”…

E você, gostaria de saber quando vai morrer? Pelo sim, pelo não, que tal seguir o ditado: “Viver como se fosse morrer a cada instante, e morrer como se fosse viver eternamente”?

* Mário Ernesto René Schweriner é cientista do comportamento, psicólogo e coordenador do curso de graduação de Ciências Sociais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo. É autor do livro EternaMente: Ciência e Religião no Limiar da Comunhão