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Vacina é nova aposta da ciência para quem quer parar de fumar

A vacina anticigarro promete dar fim ao tabagismo. Saiba quais são os desafios para cumprir essa missão.

Por Redação M de Mulher Atualizado em 28 out 2016, 00h55 - Publicado em 2 jan 2014, 22h00

O Brasil tem 23 milhões de fumantes, sendo 9 milhões de mulhetes.
Foto: Getty Images

“Nos últimos 20 anos, o número de tabagistas no país caiu pela metade, mas, se colocarmos isso em valores absolutos, ainda são mais de 20 milhões de cidadãos fumando”, analisa o pneumologista Ricardo Henrique Meirelles, da Divisão de Controle do Tabagismo do Instituto Nacional de Câncer. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 6 milhões de indivíduos morrem todo ano exclusivamente devido ao vício. “Trata-se de uma doença crônica, que apresenta altas taxas de recaída”, afirma Eurico Correia, diretor médico da Pfizer Brasil.

É por isso que a farmacêutica com base nos Estados Unidos desenvolve uma vacina terapêutica para acabar com a dependência de nicotina – uma das mais de 4.700 substâncias presentes no cigarro e a responsável pelo prazer ao inalar e soltar fumaça. A ideia desse modelo de tratamento é impedir a molécula viciante de chegar ao cérebro, onde ela estimula a liberação de dopamina, o neurotransmissor por trás daquela sensação de bem-estar.
 

Fase de testes

A medicação da Pfizer está em uma fase de pesquisa em que os cientistas investigam a sua segurança em seres humanos. Assim, ainda deve levar um tempo até que esteja disponível para os que desejam dar adeus à vontade de abrir um maço. “Por enquanto, o que se pode afirmar é que a vacina é inovadora e muito promissora”, diz Correia.

Acontece que, se na teoria tudo funciona bem, os experimentos em laboratório têm demonstrado que há desafios pela frente. Isso porque outras vacinas com mecanismos parecidos já foram testadas e não obtiveram bons índices de sucesso. “As duas grandes dificuldades são criar um anticorpo específico que se una à nicotina sem afetar outras moléculas e fazer com que o sistema imune reconheça e aprenda a produzir sozinho esse novo tipo de defesa”, esclarece o psiquiatra Thiago Marques Fidalgo, do Grupo de Apoio ao Tabagista do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo.
 

Muito além da nicotina

Em meio às dúvidas, já há uma previsão mais certeira: mesmo que as vacinas demonstrem eficácia em seres humanos, não vencerão sozinhas a dependência. O motivo é que a compulsão por tragar um cigarro não está ligada apenas a aspectos biológicos, mas também emocionais e comportamentais.

“Parar de fumar exige, em primeiro lugar, que o indivíduo esteja motivado. Depois, é preciso que ele seja orientado, por meio de terapia, a rever e mudar o seu comportamento. E, por último, vem o tratamento farmacológico, no qual entraria a vacina”, contextualiza a pneumologista Suzana Erico Tanni, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, no interior de São Paulo.
 

E o cigarro eletrônico?

Muito se discute se esse bastão carregado de nicotina em vapor seria uma alternativa. A questão é que, além de ser proibido no Brasil, há quem diga que ele faz mal à saúde. “Aquela fumaça pode, sim, conter substâncias tóxicas. Ainda temos muito o que estudar”, diz o pneumologista Oliver Nascimento, da Universidade Federal de São Paulo.

 

Promessa contra o vício

1. Viagem pelo corpo

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Quando a fumaça do cigarro é inalada, a nicotina passa pelos pulmões, cai na corrente sanguínea e dispara rumo ao cérebro – tudo isso em apenas 10 segundos. Por ser pequena, ela dribla a barreira hematoencefálica, uma proteção natural da massa cinzenta.

2. Pouso no cérebro

A nicotina se liga a receptores específicos situados numa região chamada área tegmentar ventral. Essas estruturas já existem ali, mas ficam mais numerosas e ativas à medida que a pessoa fuma.

3. Hora do prazer

A conexão entre a nicotina e seus receptores faz com que um estímulo seja enviado a outro ponto do cérebro, o núcleo accumbens. É lá que neurônios liberam dopamina, neurotransmissor responsável pelo prazer em tragar.

4. Vacina em ação

A ideia é que, com as picadas, sejam lançados na circulação anticorpos destinados a se unir à nicotina. Assim, ainda no sangue, eles se grudam às moléculas viciantes, formando uma partícula de tamanho avantajado.

5. Aqui não!

Nesse novo formato, a nicotina não consegue atravessar a barreira hematoencefálica. Dessa forma, fica impossibilitada de chegar aos receptores cerebrais e instigar no fumante a tão conhecida sensação de prazer.


Fontes: Oliver Nascimento, pneumologista do Núcleo de Prevenção e Cessação do Tabagismo da Unifesp (infográfico e tabela métodos); Luiz Carlos Correa da Silva, Pneumologista da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre; Edinalva Cruz, psicóloga do grupo antitabágico do hospital universitário da Universidade de São Paulo (tabela métodos); Suzana Erico Tanni, pneumologista da Unesp de Botucatu.

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