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Saiba identificar quais produtos fitoterápicos trazem benefícios à saúde

Anvisa tem cartilha que informa sobre riscos e benefícios de produtos tidos como ‘naturais’. Médicos alertam para perigos de uso de chás emagrecedores

Por Patrícia Figueiredo, da Agência Einstein*
Atualizado em 24 abr 2023, 18h22 - Publicado em 24 abr 2023, 18h22

Chás emagrecedores que combinam dezenas de ervas, cápsulas que oferecem curas para várias doenças e loções para tratar diferentes partes do corpo. As promessas dos produtos fitoterápicos irregulares são diversas, mas não há nenhuma eficácia comprovada no uso desses tratamentos.

O mais grave é que o uso excessivo de algumas substâncias, vendidas como “naturais”, pode causar sérios problemas de saúde.

Apesar disso, muitos produtos irregulares, ou seja, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), continuam à venda livremente pela internet ou em lojas por todo o Brasil.

Diante desse cenário, a Anvisa publicou, no final do ano passado, uma cartilha com orientações sobre o uso seguro de fitoterápicos e plantas medicinais.

+ Leia também: 28 plantas medicinais: dos poderes às contraindicações

O documento ensina a população a verificar o registro dos produtos junto à agência e também a identificar propagandas enganosas e como denunciar irregularidades.

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Fitoterápicos são medicamentos obtidos a partir de plantas medicinais e podem ser produzidos apenas por indústrias farmacêuticas ou manipulados em farmácias autorizadas pela Vigilância Sanitária.

Todo fitoterápico industrializado deve ser autorizado pela Anvisa antes de sua comercialização.

A agência verifica sua composição, sua qualidade e seus efeitos terapêuticos, ou seja, se ele tem eficácia para o tratamento que propõe. Já os fitoterápicos manipulados são prescritos por profissionais de saúde e produzidos em farmácias credenciadas.

No entanto, muitos dos produtos vendidos pela internet ou em lojas de produtos naturais não se enquadram nesta definição oficial, ou seja, não estão regularizados.

“A primeira coisa que o paciente deve fazer é diferenciar, ou seja, verificar se está usando de fato um fitoterápico regulamentado pela Anvisa, ou um produto falso”, explica o médico Aécio Flávio Meireles Souza, diretor na Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH).

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“No caso de produtos irregulares, os riscos são vários, e vão desde contaminação dos ingredientes até a presença de substâncias anabolizantes escondidas em produtos vendidos como naturais”, enumera o médico.

Infográfico sobre fitoterápicos
Infográfico sobre fitoterápicos (Agência Einstein/Divulgação)

Apesar dos riscos trazidos pelos produtos ilegais, os benefícios de formulações feitas a partir de plantas medicinais e regularizadas junto à Anvisa também são grandes, como explica a especialista em medicina integrativa do Hospital Israelita Albert Einstein, Silvia Kawakami Pantaleão.

“Muitos fitoterápicos trazem benefícios e são usados há muito tempo, em diversas aplicações. O que é importante é lembrar que não é porque um produto é natural que ele não pode fazer mal. Isto é uma ilusão, mas ainda existem muitas pessoas que pensam assim”, afirma a médica que também é coordenadora do setor de neonatologia do Hospital Municipal Dr. Moysés Deutsch (M’Boi Mirim).

Perigos dos produtos irregulares

Um dos órgãos do corpo humano mais afetados pelo consumo de fitoterápicos irregulares é o fígado, já que ele metaboliza diversos elementos encontrados nessas fórmulas.

O excesso das chamadas substâncias hepatotóxicas (de toxicidade hepática) pode causar lesões no órgão e até levar a quadros de hepatite fulminante.

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Muitos dos compostos irregulares listam ervas que trazem riscos ao fígado quando usadas em altas dosagens. Há toxicidade documentada para ingredientes como chá verde, cavalinha, melissa, sene, centelha asiática, espirulina e garcinia, que são comumente encontrados em diversos desses produtos.

O risco é ainda maior quando os produtos combinam vários ingredientes ao mesmo tempo, como explica o hepatologista Souza.

Além disso, os produtos encapsulados, como chás e misturas de ervas em cápsulas, são mais perigosos porque têm uma concentração maior dos princípios ativos tóxicos.

+ Leia também: Beber chá para viver mais — e melhor

“Os chás e as cápsulas que misturam muitas ervas são ainda mais arriscados, porque pode haver uma série de interações entre elas. Além disso, você pode ter a combinação de diversas substâncias que fazem mal ao fígado ao mesmo tempo, em um só produto”, explica Souza.

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Segundo o hepatologista, os quadros de hepatite fulminante causados por produtos considerados naturais costumam ser mais graves do que aqueles provocados pelo consumo excessivo de medicamentos.

Isto porque os produtos naturais irregulares trazem uma combinação desconhecida de substâncias tóxicas. Assim, fica mais difícil estabelecer uma relação de causa e consequência entre a ingestão das substâncias e o problema hepático.

“A grande diferença é que quando você tem uma intoxicação por medicamento, a gente já conhece os efeitos de cada formulação. Agora, quando é por fitoterápicos, ervas ou chás, a hepatite fulminante evolui muito mais rapidamente e gravemente. Nem sempre a gente consegue apontar exatamente o que causou. A incidência de transplantes de fígado, nesses casos, é maior”, conta o diretor da SBH.

Um caso que se tornou emblemático foi o da enfermeira Mara Abreu, que morreu em março de 2022 aos 42 anos após complicações de um transplante de fígado.

Mara foi submetida a um transplante após ter um quadro de hepatite fulminante causado pelo consumo de um chá emagrecedor em cápsulas que misturava 50 ervas diferentes.

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Além de trazerem riscos à saúde, muitas dessas substâncias não têm eficácia comprovada nos tratamentos que prometem. Os chás emagrecedores, por exemplo, são contraindicados por endocrinologistas porque combinam ervas e plantas medicinais que não auxiliam na perda de peso.

Segundo os especialistas, nenhum chá é capaz de promover o emagrecimento. Na verdade, o que alguns fazem é aumentar a produção de urina, o que pode levar a desidratação e a uma falsa sensação de perda de peso.

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Além dos riscos ao fígado, os produtos fitoterápicos irregulares também podem comprometer o funcionamento de outras medicações.

É o caso dos que contém carvão ativado, uma substância que ficou famosa após celebridades, como a americana Kim Kardashian, divulgarem seus supostos efeitos emagrecedores.

O carvão vegetal é usado na medicina para tratar casos de intoxicação por medicamentos ou alimentar, já que ele tende a absorver toxinas presentes no sistema digestivo.

No entanto, essa capacidade de absorver substâncias também pode ser prejudicial à saúde, como explica a médica Pantaleão, do Albert Einstein.

“O carvão ativado tem muita interação com outros medicamentos. Um dos efeitos mais comuns dele é causar constipação, mas ele também tem esse poder de absorver substâncias, o que pode até cortar o efeito de medicamentos de uso contínuo”, alerta Pantaleão.

“Ele não é emagrecedor. O que ele faz é absorver várias substâncias, e isso pode atrapalhar a absorção de substâncias importantes para o organismo, como vitaminas e minerais”, completa o hepatologista.

Registro na Anvisa

Para evitar as complicações relacionadas ao uso de produtos irregulares, é importante verificar sempre se um produto fitoterápico tem registro ou notificação ativa junto à Anvisa.

Há fitoterápicos registrados, que passam pelo procedimento completo de avaliação da agência, e os fitoterápicos notificados, os quais, por serem considerados de menor risco, passam por uma avaliação simplificada.

Os fitoterápicos registrados trazem o número de registro na embalagem. Já os fitoterápicos notificados não têm número de registro, mas uma frase que indica que ele foi notificado.

Para verificar se o registro não é falsificado, é preciso consultar o nome do fitoterápico, seja ele registrado ou notificado, no site da Anvisa.

A necessidade de registro vale para qualquer produto que faça alegações terapêuticas, ou seja, qualquer item que prometa trazer benefícios à saúde. Além disso, por lei, esses produtos só podem ser comercializados em farmácias e drogarias, independentemente da sua categoria.

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Segundo a Anvisa, essas solicitações de registro têm o maior índice de indeferimentos de solicitações de registro da área de medicamentos da agência: cerca de 43% dos pedidos enviados para registro de fitoterápicos são negados, contra cerca de 23% para medicamentos genéricos e similares, e pouco mais de 13% para medicamentos novos.

Para obter o registro, os fitoterápicos precisam seguir algumas regras. É proibido o uso de termos como “max”, “super” e “extra forte” e de imagens de partes do corpo.

Os especialistas orientam os consumidores a desconfiar de produtos de chás que estampam abdomens sarados no rótulo.

Outra exigência da Anvisa é a de que o produto liste o nome botânico da planta medicinal utilizada. Este nome é formado por duas palavras escritas em itálico – por exemplo, o nome científico botânico do boldo, muito usado em chás, é Peumus boldus.

Outro indício de que o produto é irregular é a presença de muitas ervas misturadas em uma mesma formulação. Segundo a Anvisa, não há atualmente produtos regularizados contendo grande quantidade de plantas medicinais.

+ Leia também: Tratamentos alternativos: fique atento aos riscos

Seguindo esses critérios, a chance de encontrar um produto fitoterápico que realmente traz benefícios reais à saúde é muito maior. Ainda assim, muitos médicos recomendam que seus pacientes consultem especialistas antes de iniciar o uso dos produtos à base de plantas medicinais.

“Nem sempre o médico que tá na ponta, que está no posto de saúde, sabe do que o paciente está tomando. É importante sempre comunicar e consultar o médico, porque a planta medicinal também tem que estar na dosagem certa. É como a diferença entre remédio e veneno”, avalia a médica Pantaleão.

“Os fitoterápicos são ótimos como opções para a população. Não é à toa que cerca de 40% dos medicamentos que a gente tem foram criados a partir de plantas medicinais”, explica Souza.

“O grande risco não está no chá fitoterápico vendido na farmácia, mas naquele chá que você compra por peso, sem rótulo, que promete fazer milagres, mas que pode estar contaminado até por fungos. É aí que a gente precisa ficar atento”, completa o diretor da SBH.

*Esse texto foi publicado originalmente na Agência Einstein. 

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