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Seu pão é integral mesmo?

Atualmente, qualquer produto pode estampar no rótulo que é integral. Mesmo que seja pobre em fibras...

No final do ano passado, uma pesquisa encomendada pela Aliança de Controle do Tabagismo (ACT) ao Datafolha mostrou que 48% dos mais de 2 500 brasileiros entrevistados não têm o hábito de vasculhar as informações contidas em rótulos de alimentos. Posso dizer que estou entre os 52% que analisam, sim, a tabela nutricional e os ingredientes dos industrializados. E apostaria que o leitor da SAÚDE também dá uma espiada nesses dados.

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Mas vamos combinar: não dá para comparar absolutamente todos os produtos de uma mesma categoria antes de decidir o que levar para casa. Quando a gente tenta, dá um nó danado na cabeça. Uma vez passei uns 15 minutos tirando e colocando iogurtes da cestinha porque, dependendo do aspecto analisado (cálcio, gordura, proteínas, açúcar…), um tipo era melhor do que o outro.

Daí vem meu ponto: é extremamente compreensível que a gente vá em direção a determinados produtos sem pestanejar. São eles que nos servirão de ponto de partida para a comparação (ou não) com outros itens. E se você curte cuidar da alimentação, também posso apostar que, diante de pães e biscoitos (ou bolacha, como preferir), por exemplo, tende a pegar da prateleira aqueles que estampam o termo “integral” na embalagem.

Ao mirá-lo, seu inconsciente deduz: opa, é rico em fibras! Ainda que você analise bem o produto, uma pré-seleção foi feita. Você está com ele em mãos e isso é meio caminho andado até o caixa. A pegadinha é que não há regulamentação para o uso desse termo aqui no Brasil.

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Isso significa que as empresas podem alegar que determinado item é integral mesmo que ele não seja. E, de acordo com uma pesquisa do Idec – Associação de Consumidores, a estratégia cola mesmo. De 944 internautas entrevistados, 23,3% disseram que procuram essa palavra mágica quando querem comprar um alimento integral.

Mas veja só: há biscoitos e torradas no mercado que se dizem integrais e, na verdade, fornecem coisa de 1,5 gramas de fibras por porção. Parecem um lanchinho pra lá de vantajoso no meio da tarde, mas… Atualmente, de acordo com critérios da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para um alimento poder se gabar de ser “rico em fibras”, precisa ter 5 gramas dessas substâncias por porção. Quem tiver pelo menos 2,5 gramas delas, pode pelo menos dizer que é “fonte de fibras”.

Na pesquisa do Idec, 61,3% das pessoas afirmam que verificam se o cereal ou a farinha integral são os primeiros itens da lista de ingredientes. Aí a situação melhora um pouco. Guiar-se pela ordem em que os ingredientes surgem na lista é de fato essencial. Mas também não dá para ser a única tática.

Certa vez conversei com a nutricionista Eliana Giuntini, do Centro de Pesquisa em Alimentos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e ela ensinou que há pães feitos com farinha branca que, ao mesmo tempo, são enriquecidos de farelo e vários grãos. Isso porque a legislação em vigor diz que “pão integral é um produto preparado, obrigatoriamente, com farinha de trigo e farinha de trigo integral e/ou fibra de trigo e/ou farelo de trigo”. Só que não determina a porcentagem mínima de cada item.

Por isso, além de ficar atento à lista de ingredientes, tem que analisar a quantidade de fibras presente no rótulo do produto e comparar com os similares. Mais um detalhe: é preciso lembrar que o teor de fibra aparece por porção. Em alguns casos, isso diz respeito a duas fatias. Em outros, a três fatias. Faz diferença.

É muito detalhe para pouco tempo e uma lista inteira de compras pela frente. Quando a gente vê, já foi seduzido não só pelo termo integral, mas também pela cor mais escurinha do pão (pasme: pode ser corante!), pela foto de um cereal lindo ou de uma plantação ao lado do biscoito e até pelo pacote mais amarelado ou marrom. “É rico em fibras”, seu cérebro se convence.

A verdade é que, de bate e pronto, não dá para saber. Por isso, uma regulamentação que estabeleça de uma vez por todas quais pães, biscoitos e afins estão autorizados a utilizar a palavra integral é necessária. Ora, para atingir a quantidade de fibras que precisamos consumir por dia (coisa de 25 a 30 gramas) não dá para ignorar a importância desse tipo de alimento.

Mas, hoje, esse desapego com o termo integral (e seu uso desmedido) mais atrapalha do que ajuda. Parece que a Anvisa está para regulamentar essa categoria. Tomara. Vai facilitar muito a vida do consumidor.

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