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Tocilizumabe para Covid-19: o que sabemos sobre benefícios e desvantagens

Esse remédio, segundo novo estudo, pode reduzir mortes de pacientes com casos graves da doença. Mas a ciência não bateu o martelo sobre seu potencial real

Por Chloé Pinheiro Atualizado em 19 fev 2021, 11h38 - Publicado em 18 fev 2021, 18h29

O tocilizumabe, um moderno anti-inflamatório, vem sendo testado no tratamento da Covid-19, com resultados pendendo para os dois lados. Pois um novo estudo anota um ponto a favor desse remédio, ao mostrar que ele pode reduzir a mortalidade dos quadros mais críticos da doença.

A notícia vem do Recovery, mega iniciativa capitaneada pela Universidade Oxford, na Inglaterra. Em uma das pesquisas do projeto, mais de 4 mil pessoas internadas com o novo coronavírus foram divididas em dois grupos: metade só recebeu o tratamento convencional, enquanto a outra também recebeu o tocilizumabe.

Todas estavam em estado grave, boa parte já precisando de oxigênio. No fim da análise, 33% dos voluntários do primeiro grupo morreram, ante 29% do segundo segmento. A diferença significa que, a cada 25 pessoas utilizando o tocilizumabe nesse cenário, uma vida extra poderia ser salva, apontam os autores. A chance de alta em até 28 dias também foi superior com a droga.

Por que então o benefício é incerto?

Pra começo de conversa, os achados foram divulgados sem uma revisão dos pares (sem a análise de outros cientistas). Isso deve acontecer nos próximos dias, mas, enquanto isso, os dados carecem de confirmação e exigem uma dose extra de cautela.

“O estudo tem pontos fortes, mas há questões a serem consideradas. Por exemplo, 82% dos voluntários receberam corticoides, que já possuem ação anti-inflamatória”, comenta a intensivista e cardiologista Viviane Cordeiro Veiga, coordenadora de UTI da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Ou seja, pode ser que o benefício real venha dessa categoria, e o tocilizumabe apenas o potencialize. Além disso, outros estudos, feitos inclusive pela própria fabricante do composto, apontaram efeitos negativos. “Então temos evidências para os dois lados”, conclui o pneumologista Rodolfo Augusto Bacelar de Athayde, do Complexo Hospitalar Dr. Clementino Fraga, de João Pessoa/PB.

Recentemente, uma das pesquisas do projeto britânico Remap-Cap indicou que usar a droga nas primeiras 24 horas na UTI reduz em até 24% o risco de morte por Covid-19. Já a Coalizão Covid-19 Brasil, outra iniciativa de grande porte, viu o contrário: um aumento dos óbitos relacionado à estratégia, que levou à interrupção dos estudos.

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Para os especialistas, a contradição indica que o remédio deve funcionar apenas em certos contextos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) conduz uma força-tarefa que revisa estudos com ele para entender quem se beneficiaria mais da abordagem. “Já sabemos que não é todo mundo. Agora precisamos descobrir se são, por exemplo, os indivíduos entubados, ou os que já estejam tomando um tipo de medicamento”, aponta Viviane, representante do país na empreitada.

  • Como atua o tocilizumabe

    Os quadros mais graves de Covid-19 estão ligados à resposta exagerada do sistema imune. É a chamada tempestade inflamatória, uma liberação em massa de citocinas e interleucinas, Em excesso, essas substâncias danificam tecidos, vasos sanguíneos e órgãos do corpo.

    “A ideia é bloquear uma dessas moléculas, a interleucina-6, que atua como mensageira para a liberação de fatores inflamatórios”, explica Athayde. O tocilizumabe, da farmacêutica Roche, foi desenvolvido e aprovado justamente para combater mazelas que deflagram inflamações sistêmicas, como a artrite reumatoide.

    Ele pertence à categoria dos anticorpos monoclonais, remédios biológicos que ganharam fama nos últimos anos pela precisão. “Diferentemente dos anti-inflamatórios tradicionais, que têm um efeito mais amplo de imunossupressão, esse tipo de terapia é como um míssil teleguiado, atuando em pontos específicos do processo”, compara Athayde.

    Há muitos deles em teste contra a Covid-19, mas o tocilizumabe é o que está se saindo melhor nas pesquisas com o coronavírus. “Temos um bom caminho a percorrer em relação ao estudo dessa classe”, pontua Viviane. E apesar de a ciência ainda não ter batido o martelo, Reino Unido usou o Recovery como justificativa e passou a adotar o fármaco no tratamento da Covid-19 grave.

    O recado final (do momento)

    Mesmo que os estudos futuros confirmem o valor do remédio, ele não será uma bala de prata. Primeiro porque, como vimos, não é todo mundo que se sairia bem com ele. Segundo: existem limitações práticas do uso. Sua fabricação exige material biológico, o que limita a capacidade produtiva e aumenta o custo.

    O British Medical Journal, renomado periódico, comenta o achado com ressalvas semelhantes. O custo do tratamento no contexto da Covid-19, segundo a publicação, é de 500 libras por pessoa (o equivalente a mais de R$3 700 reais).

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