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Pessoas com fibrilação atrial têm o dobro de risco de demência

Nova pesquisa associa a arritmia cardíaca mais comum em idosos a falhas cognitivas. Tomar anticoagulantes, por outro lado, parece prevenir o problema

A fibrilação atrial, a arritmia cardíaca mais frequente em idosos, pode elevar significativamente o risco de demências e outros problemas neurológicos. É o que mostra um trabalho publicado recentemente no European Heart Journal.

A megainvestigação considerou dados de mais de 260 mil participantes acima dos 60 anos inscritos no serviço de saúde da Coreia. Entre 2004 e 2013, cerca de 10 mil desenvolveram a fibrilação atrial, e quase um quarto desses (24,4%) acabou apresentando algum grau de demência depois disso.

Já 14,4% do grupo sem esse problema cardíaco teve um diagnóstico de demência. É uma taxa significativamente menor, portanto.

O perigo era maior mesmo que não houvesse um AVC envolvido na história – uma complicação da fibrilação atrial que também leva a declínios cognitivos. Até o Alzheimer foi mais frequente nessa turma.

Ou seja, o trabalho sugere que essa arritmia é um fator de risco em si para a demência na terceira idade.

“Com esses dados robustos, podemos ter certeza dos nossos achados”, declarou Gregory Lip, cardiologista da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, e coautor do trabalho, em comunicado à imprensa.

Por que a fibrilação ameaça o cérebro?

O estudo só relacionou as duas condições, porém não chegou a investigar uma possível causa para a associação. Outros grupos já haviam, contudo, explorado o tópico.

Uma das hipóteses atualmente estudadas é a de que uma arritmia como a fibrilação, que faz o coração bater de maneira irregular e anormal, afeta também a circulação de sangue no cérebro.

Explicamos: o descompasso cardíaco ajuda a formar coágulos nos vasos sanguíneos, como os que levam ao acidente vascular cerebral, o famoso AVC. Não à toa, a fibrilação atrial é uma das principais causas conhecidas de derrame.

Pois os cientistas suspeitam que essa arritmia provoque também uma espécie de “mini derrame” nos vasos que abastecem a cabeça. São, digamos, AVCs quase imperceptíveis, mas que levariam ao surgimento da demência com o tempo e conforme se acumulam.

Anticoagulantes podem proteger o cérebro

Um achado interessante do trabalho é que tomar esses remédios, usados para impedir a formação de coágulos que podem entupir vasos sanguíneos cerebrais, reduziu o risco de demência em 40%. Isso em comparação com os portadores de fibrilação atrial que não utilizavam o medicamento.

“É um indicativo de que os médicos devem pensar com cuidado no assunto e se preparar para prescrever anticoagulantes como estratégia de prevenção da demência nesses pacientes”, comentou à imprensa Boyoung Joung, cardiologista da University College of Medicine, na Coreia, e líder do estudo.