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Fibrilação atrial: coração fora do compasso

Ligada ao envelhecimento e a maus hábitos, a mais popular das arritmias cardíacas não para de avançar. Saiba o que é a fibrilação atrial e como tratá-la

Munique, no sul da Alemanha, foi o berço ou o palco de alguns dos maiores nomes da música clássica: Mozart, Wagner, Richard Strauss, Carl Orff… Mas tornou-se recentemente a capital de outro tipo de ritmo, nada melódico. A cidade recebeu o congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia, o maior do planeta na área. Por lá passaram nada menos que 31 mil profissionais de 150 países. E, se houve um tema em holofote, esse foi o ritmo cardíaco. Ou melhor, a falta de ritmo. Professores e autoridades médicas estão preocupados com o crescimento da mais comum das arritmias, a fibrilação atrial.

O coração tem um sistema próprio e inteligente de emissão e condução de eletricidade. É isso que o faz bater. Ocorre que essa rede pode entrar em parafuso.

Em vez de a energia sair de um comando e seguir seu rumo, surgem pequenos circuitos elétricos nos átrios, as câmaras superiores do músculo cardíaco. “Aí o coração fica em ritmo anárquico”, define o cardiologista e geriatra Roberto Dischinger Miranda, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Nessas condições, os tais dos átrios deixam de se contrair como deveriam para bombear o sangue. É como se ficassem tremelicando.

O cardiologista Ricardo Pavanello, do Hospital do Coração, na capital paulista, traduz a história em sons. “Normalmente, ao examinar uma pessoa saudável, ouvimos o coração bater num ritmo tum-tá, tum-tá, tum-tá. Na arritmia, isso fica desordenado”, diz. A conta da irregularidade costuma vir um tempo depois.

O aumento do número de casos

Mas por que tem gente falando numa epidemia de fibrilação atrial? A resposta é fácil. O mundo envelhece… E a idade é o principal fator de risco.

Depois dos 40 anos, calcula-se que a propensão ao problema aumente em até duas vezes a cada década. “Com o envelhecimento, acontecem alterações na rede elétrica do coração que tornam o indivíduo mais suscetível à fibrilação atrial”, esclarece Miranda. Outras condições, bem presentes nos dias de hoje, também entram na história.

“Os fatores de risco englobam pressão alta, diabetes, presença prévia de uma doença cardíaca, apneia do sono, uso de álcool, sedentarismo e obesidade”, lista a médica Olga Ferreira de Souza, coordenadora do Serviço de Cardiologia e Arritmia da Rede D’Or São Luiz.

Até tu, excesso de peso? Pois é. “Os estudos mostram que a obesidade leva a mudanças estruturais e elétricas na região do átrio. Inclusive, há casos que melhoram com a perda de peso”, conta o cardiologista Eduardo Benchimol Saad, presidente do Departamento de Arritmias, Estimulação Cardíaca e Eletrofisiologia da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro.

Consequências da fibrilação atrial

O protagonismo da fibrilação atrial na conferência de Munique tem também uma motivação mais dura. A doença não só é capaz de arruinar o coração como traz ameaças a distância. Estamos falando de uma das principais causas de acidente vascular cerebral. “Estima-se que entre 20 e 30% dos AVCs estejam ligados a essa arritmia”, relata Olga.

Veja: quando o coração não se contrai direito, o sangue fica meio estacionado lá no átrio esquerdo, um caldo propício à formação de coágulos. Esses trombos podem pegar carona com o bombeamento do sangue e ir parar lá no cérebro, entupindo uma artéria e provocando a morte de neurônios. “Chama a atenção que os AVCs originários da fibrilação atrial costumam ser mais graves e gerar mais sequelas”, observa Miranda.

Tá, mas você pode estar pensando: bom, não sinto nada de anormal no peito, então não preciso me preocupar com isso. Não é bem assim. Embora o quadro possa gerar palpitações, aquela sensação de coração acelerado, ou mesmo tontura e desmaio, pelo menos três em cada dez casos não apresentam sintomas. Sim, tem de visitar o médico.

A fibrilação atrial em números

  • Estima-se que 5 milhões de brasileiros acima dos 65 anos tenham fibrilação atrial
  • 13% da população com 80 anos ou mais apresenta esse tipo de arritmia
  • O risco de um AVC aumenta em cinco vezes entre quem convive com a condição
  • Uma em cada quatro pessoas com mais de 40 anos está sujeita a desenvolver o distúrbio
  • A doença eleva em três vezes a probabilidade de uma insuficiência cardíaca

O auxílio da tecnologia

O lance de que alguns casos são, digamos, silenciosos é um dos entraves ao diagnóstico precoce. O outro é que a arritmia nem sempre é constante. A fibrilação atrial pode ser crônica e persistente ou o que os experts classificam como paroxística. Em bom português, ela vai e volta. Daí que o cidadão pode ir ao cardiologista e, na consulta, a danada não dar sinais de existência.

Mas fica frio: a medicina tem boas e novas soluções. Nos casos mais evidentes de arritmia, o profissional sente que algo está errado já palpando o pulso e auscultando o paciente. Um simples eletrocardiograma ajuda a descortinar a situação.

Se o distúrbio é do tipo vai e volta, exames como holter, aparelhinho que fica conectado ao indivíduo por 24 horas monitorando o ritmo cardíaco, ou o looper, método que faz o mesmo por até 30 dias, conseguem pegá-lo.

Ok, mas isso tudo pressupõe que o sujeito procure um médico, certo? Pois a tecnologia está evoluindo para deixar a vida mais prática. Hoje já existem relógios e aplicativos de celular que auxiliam a flagrar irregularidades — caso do Apple Watch. Eles não fazem o diagnóstico, mas acionam um alerta.

Esse tipo de recurso foi validado em um estudo inédito apresentado no congresso europeu, o Digital-AF. Pesquisadores belgas criaram e testaram um aplicativo para smartphones, o primeiro app médico aprovado no mundo para averiguar desordens de ritmo cardíaco, em 12 328 pessoas. E validaram sua capacidade de rastrear a fibrilação atrial — a maioria dos casos identificados, aliás, era assintomática.

No experimento, os milhares de voluntários foram convidados a participar por anúncios de jornal. Com um QR code, eles baixaram o aplicativo FibriCheck em seu smartphone e eram instruídos a fazer duas medições ao dia por uma semana, posicionando o celular em frente ao peito e colocando o dedo na câmera do aparelho.

Não é magia, é só tecnologia mesmo. Os dados eram enviados a uma central, onde eram devidamente tabulados e interpretados.

“Falamos de algo totalmente feito em casa, com apenas um celular, o que traz conforto ao paciente, e com um custo baixo”, declarou no evento o médico Pieter Vandervoort, professor da Universidade Hasselt, na Bélgica, e líder da pesquisa.

No Brasil, as inovações já chegaram aos aparelhos portáteis de medir pressão. Alguns deles acusam alterações no ritmo do coração. Não dizem se o indivíduo tem uma fibrilação atrial, mas podem apontar episódios suspeitos que devem ser levados para um profissional de saúde.

De olho em um rastreamento mais efetivo, Miranda orienta, no Setor de Cardiogeriatria da Unifesp, um trabalho que avalia o uso de uma tecnologia portátil, parecida com um holter, capaz de estimar se o idoso tem baixo ou alto risco para a arritmia.

Já realizada em mais de 300 pacientes acima de 80 anos, a ideia é agregar mais uma ferramenta para detectar precocemente o quadro, ainda mais porque existem aqueles indivíduos em que a irregularidade rítmica não acontece o tempo todo. Ainda assim, fica o conselho: não dá para negligenciar o checkup com o médico.

O que é feito para diagnosticar

Exame clínico: Palpando o pulso e auscultando o paciente, o médico já afere o ritmo cardíaco.

Monitores: Hoje, aplicativos de celular e relógios digitais conseguem avaliar os batimentos.

Eletro: Feito em consultórios ou centros de exame, o eletrocardiograma detecta na hora eventuais alterações.

Holter e Looper: São aparelhos portáteis que avaliam o ritmo durante 24 horas ou até um mês.

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Os tratamentos disponíveis

Uma vez descoberta a fibrilação atrial, existem dois caminhos para controlá-la. O primeiro é farmacológico. São comprimidos, os antiarrítmicos, que ajudam a regular o baticum.

A outra via, destinada sobretudo a quem não responde bem aos antiarrítmicos ou não os tolera, é um procedimento chamado ablação. É assim: com o paciente anestesiado, o médico usa um cateter para chegar até o coração e, ali, cauterizar o ponto por trás do defeito elétrico. “A técnica tende a ser mais eficaz que os medicamentos e, quanto mais cedo é feita, menor o risco de progressão do problema”, afirma Saad.

Como a fibrilação atrial catapulta o risco de AVCs, é habitual que os médicos lancem mão de mais uma estratégia de proteção, a prescrição de anticoagulantes. A ideia é deixar o sangue menos oportuno à formação dos trombos.

O profissional avalia em consultório vários critérios, como idade e presença de pressão alta e diabetes, para saber se o paciente tem de tomar essas medicações. Um estudo populacional discutido no congresso confirma que a indicação, quando necessária, reduz a exposição a derrames e a mortalidade.

A nova geração de anticoagulantes orais, há uma década no país, facilitou a vida nesse sentido. “Em comparação com a varfarina, a droga mais antiga, eles são mais seguros, pois oferecem um risco mais baixo de sangramentos e interagem menos com a alimentação e outros medicamentos”, compara Olga. “Também são mais práticos, porque não exigem que o sujeito tenha de ficar fazendo exames de sangue e ajustando a dose do remédio com frequência”, completa Miranda.

Em algumas circunstâncias, o cardiologista pode até estudar outra saída para minimizar a ameaça do AVC: a oclusão de um apêndice no átrio esquerdo, a auriculeta. “É que a maioria dos trombos surge nessa região”, justifica Saad.

Com um cateter, o especialista leva um dispositivo até o átrio para preencher toda a auriculeta. Pronto: não tem mais espaço para pintarem coágulos ali. Saad conta que o procedimento também pode ser feito em conjunção com a ablação. O único ponto é que ele ainda não é tão acessível no Brasil.

Uma última notícia lá de Munique diz respeito ao uso dos comprimidos antiplaquetários, aqueles que “afinam” o sangue, caso da aspirina. No passado, médicos chegavam a recomendá-la a portadores de fibrilação atrial, sobretudo aos que não se davam bem com o anticoagulante. Com o tempo, porém, viu-se que a prática aumentava o risco de hemorragia.

Só que, entre pessoas com alto risco cardíaco, ainda se pondera se não vale a pena somar um antiplaquetário ao anticoagulante. Em estudo com mais de 25 mil pessoas com a arritmia, o professor Keith Fox, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, concluiu que a combinação não trouxe benefício. Pelo contrário, pode piorar as coisas.

Diante do avanço da fibrilação atrial pelo planeta, o recado que vem do congresso e ao qual os experts brasileiros fazem coro é: não deixe de fazer as consultas e exames médicos periódicos.

E, eis um refrão nestas linhas, cuide-se! Afinal, ninguém quer que o coração bata ao som de Carmina Burana, cantata de acordes apocalípticos do músico Carl Orff (1895-1982), ilustre cidadão de Munique.

Como controlar a mais prevalente das arritmias

Antiarrítmicos: Comprimidos que auxiliam o coração a bater na cadência adequada.

Ablação: Procedimento que anula a área do músculo cardíaco com o defeito elétrico.

Obstrução da auriculeta: Técnica que isola o local do coração onde os trombos se formam.

Anticoagulante: Remédio usado no dia a dia para evitar os coágulos e o risco de AVC.

Medidas e hábitos que ajudam a prevenir a arritmia e suas complicações

Bom checkup: Consultas e exames regulares permitem detectar e remediar o problema logo cedo.

Olho na pressão: Conferir em casa ou no consultório flagra a pressão alta, um fator de risco.

Questão de peso: Os quilos a mais levam a alterações no coração propícias à fibrilação atrial.

Tem diabetes? Fique atento. A glicose nas alturas cria um estado que prejudica até o ritmo cardíaco.

O que vai no prato: Um cardápio balanceado, cheio de vegetais, continua muito bem-vindo.

Mexa-se: O sedentarismo está intimamente associado ao ganho de peso e à arritmia.

Com moderação: O abuso de álcool — e o uso de energéticos — deixa o coração louquinho.

Xô, cigarro: Pela milésima vez: tabagismo não combina com coração saudável.

Alerta do ronco: Ele pode ser um sinal da apneia do sono, que dobra o risco de fibrilação atrial.

Pobre coração: Presença prévia de doenças cardíacas aumenta o risco e a gravidade do quadro.

Sem demora: Palpitações, tontura e desmaio são indícios do perigo. Procure um serviço de saúde.

*O jornalista viajou a convite da Bayer.