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Virosfera

O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.
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Leishmaniose: um vírus em um protozoário em um mosquito em um homem

Nosso colunista explica como a presença de um vírus no agente causador da leishmaniose ajuda a torná-la mais grave e desafiadora para o nosso corpo

Por Paulo Eduardo Brandão
Atualizado em 15 Maio 2024, 08h51 - Publicado em 15 Maio 2024, 08h48

Já deveria ser consenso que a falta de saneamento básico, de condições de higiene e de assistência médica, misturada com pobreza, fome e ondas migratórias, compõe uma receita para a disseminação de doenças. E não só as emergentes, mas também as “permanecentes”, com as quais convivemos faz tempo.

Uma delas é a leishmaniose, que pode atacar tanto os órgãos internos quanto a pele, dependendo da estirpe do protozoário causador dos estragos, a Leishmania. Trata-se de um organismo que não pertence à Virosfera e tem uma célula só (lembre-se: vírus nem células têm).

Na forma visceral da doença, por trás de 30 mil novos casos por ano no mundo, o baço e o fígado aumentam de tamanho e a vítima tem anemia, perda de peso, diarreia e problemas respiratórios. A forma cutânea, com um milhão de novos casos por ano no planeta, surge com nódulos na pele, que acabam virando lesões cutâneas – daí o nome úlcera de Bauru, devido a uma epidemia que correu nesta cidade do interior paulista.

Por aqui, esse protozoário pega carona em mosquitos-palha, que se reproduzem onde há matéria orgânica, como jardins, bosques, florestas e por aí vai. Vários mamíferos selvagens abrigam a tal da leishmania, mas cães são importantes reservatórios da doença e padecem de lesões similares às dos humanos.

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Funciona assim: o mosquito pica os cães, depois as pessoas, e o ciclo vai rodando…

Acontece que a forma cutânea pode piorar bastante e virar a forma muco-cutânea, atingindo não só a pele, mas ainda as mucosas da boca, do nariz e da garganta, levando à destruição desses tecidos e gerando deformidades profundas. Se comparamos as lesões da forma cutânea “leve” e as da forma muco-cutânea, mais grave, vamos ver que nessa última a inflamação e agressão são bem mais intensas.

Mas o que faz um ataque ser tão diferente entre os tipos de leishmaniose cutânea? É aí que entramos (finalmente!) na Virosfera. Pois é, como todos os seres vivos, os protozoários também têm seus próprios vírus – na realidade, tem até vírus que vive dentro de outros vírus!

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Um dos vírus que infectam protozoários é chamado de totivírus e ele vive em simbiose com a célula da leishmania. Não só: ele dá superpoderes a ela. Comparo, especialmente aos nerds de plantão, aos midichlorians que estão nas células dos Jedis em Star Wars.

O totivírus é um dos menores vírus conhecidos e está presente em algumas estirpes do agente responsável pela leishmaniose. Quando o sistema imune da pessoa infectada com a leishmania que carrega esse vírus encontra o RNA do genoma viral, a resposta inflamatória é exacerbada. Sim, esse RNA (do vírus dentro do protozário) é um potente imunoestimulante. É por causa dessa reação que se desenvolve a forma muco-cutânea da doença.

+ LEIA TAMBÉM: Leptospirose, como se resguardar da doença disseminada em enchentes

Vantagens para uns, problemas para outros

Nessa simbiose, o totivírus ganha da leishmania uma maquinaria afinada para se replicar, enquanto a leishmania ganha resistência à inflamação detonada na pele, capacidade de se disseminar mais amplamente pelas lesões e até mesmo pode de repelir medicamentos que usamos para tentar matá-la.

Quando a leishmania se reproduz sexuadamente, o que nem sempre ocorre, pois ela pode se reproduzir assexuadamente, só se dividindo, o totivírus ainda passa da mãe para as filhas, perpetuando a infecção viral naquela linhagem do protozoário.

As diversas formas de leishmaniose têm cura e o sucesso do tratamento depende de um diagnóstico precoce, usando medicamentos à base de antimônio, pentoxifilina e anforetecina B.

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Mas não daria também para usar antivirais e combater o totivírus a fim de podar a forma muco-cutânea? Com certeza! Terapias antivirais e outras que contêm a inflamação exagerada imposta pelo vírus já estão no radar de quem estuda a leishmaniose.

Só que é melhor prevenir do que remediar. Controlar a leishmaniose canina vai baixar a disponibilidade de protozoários para o mosquito-palha entregar às pessoas. Usar repelentes também nos protege.

Mas dá para fazer mais. Não é utopia acabar com a pobreza e a falta de saneamento, que permitem que tantas doenças se perpetuem. Manter uma população saudável com acesso a tratamento de água e esgoto é o mínimo que nosso humanismo (e bom-senso) pode almejar.

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E investir em educação e ciência, algo nem sempre presente no horizonte dos políticos, não é opcional; é mandatório, como deixa bem clara a história do vírus em um protozoário em um mosquito em um humano.

“Fazer ou não fazer. Não existe tentar”, diria o Mestre Yoda, de Star Wars.

P.S.: Prof. Sidnei Sakamoto, obrigado pela dica! Que a Força esteja com você!

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