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Seu corpo contra o tumor

A imunoterapia, que usa o próprio sistema de defesa para atacar o câncer, se consagra como uma das armas mais inteligentes e eficazes no combate à doença

Todos os anos, médicos do mundo inteiro viajam aos Estados Unidos para conferir os últimos avanços no tratamento do câncer. Eles batem ponto no encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, a Asco. Pelo que os especialistas andam comentando, o congresso do ano passado deve entrar para a história. “Fazia muito tempo que a gente não voltava de lá com resultados de tamanha consistência e notícias tão empolgantes”, conta o oncologista Marcello Fanelli, diretor do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo. Ele se refere aos estudos com a imunoterapia, que figura agora como um quarto pilar terapêutico no cerco aos tumores, ao lado da quimioterapia, da radioterapia e da cirurgia.

Enquanto as três abordagens já consagradas focam na doença em si, a imunoterapia atua em outra direção. Ela estimula o sistema imune, que, aí sim, vai bombardear o tumor. Mas você deve ser perguntar: nossas células já não fazem isso naturalmente? Pois é, o câncer é tão esperto que chega a fabricar moléculas capazes de desativar nossos linfócitos, os principais representantes do batalhão imunológico. “Daí o organismo não vê a doença como uma ameaça, e isso facilita seu crescimento”, esclarece a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

É contra essa artimanha que luta a imunoterapia. Ela é baseada em medicações injetáveis que fazem as células de defesa reconhecerem melhor seu inimigo e partirem pra ofensiva. Até agora, o único fármaco da classe aprovado no Brasil é o ipilimumabe, do laboratório Bristol, indicado para o melanoma (o tipo mais agressivo de câncer de pele). Com os dados divulgados na Asco, porém, essa lista deverá ganhar novos remédios e novos alvos em breve.

Boas-novas

Então vamos ao festival de boas notícias colhidas no congresso americano. O medicamento pembrolizumabe, da farmacêutica MSD, mostrou poder de fogo para combater 13 tumores diferentes – na bexiga, na pele, no estômago, nos ovários, nas mamas… Inclusive já ganhou liberação para tratar alguns desses tipos na Europa e nos Estados Unidos. “Em comparação com a químio, ele proporcionou uma resposta à doença cinco vezes maior e dobrou a sobrevida dos pacientes com melanoma”, conta a oncologista Luciana Fanti, gerente médica da MSD.

A Roche, por sua vez, testou o atezolizumabe em 287 sujeitos com câncer de pulmão, mal que provoca 4.350 mortes por dia no planeta. Esses indivíduos já haviam passado pela quimioterapia sem sucesso. Pois o imunoterápico duplicou a expectativa de vida deles. Os melhores resultados foram obtidos em tumores que produziam maior carga de proteínas capazes de desligar os linfócitos. Aliás, na própria Asco se discutiu a viabilidade de exames de sangue que podem indicar, logo de cara, em que casos o recurso é eficiente. “A tendência é que as abordagens fiquem cada vez mais individualizadas e certeiras”, prevê a médica Clarissa Mathias, diretora do Núcleo de Oncologia da Bahia.

Outro tópico bastante debatido é administrar dois imunoterápicos de uma vez só. Experts da Bristol aliaram o ipilimumabe ao nivolumabe para debelar o melanoma. E descobriram que os efeitos são ainda mais impressionantes. Um primeiro grupo de pessoas recebeu só o ipilimumabe. Desses, 11% apresentaram melhoras expressivas. Já uma segunda turma passou pela terapia combinada. E a taxa de ganhos contra a doença pulou para 61%. “O uso conjunto se mostrou efetivo, mas devemos ter em mente que isso pode aumentar a toxicidade do tratamento”, pondera o oncologista André Fay, do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre.

Um novo protagonista

Os resultados positivos nas pesquisas ajudam a entender por que a imunoterapia está virando o quarto pilar na guerra contra o câncer. “No melanoma, essas medicações já entram como a primeira escolha terapêutica, e o mesmo deve acontecer daqui a pouco nos casos da doença nos pulmões”, analisa a médica Clarissa Baldotto, coordenadora do projeto de oncologia do Americas Medical City, no Rio de Janeiro. Em geral, uma injeção é aplicada a cada três semanas – e o tempo de uso vai depender da reação do paciente.

Mas será que tirar o freio da imunidade não traria efeitos colaterais? De fato, eles existem. “Os mais comuns são fadiga, febre, dor muscular, inflamações na pele e hipotireoidismo”, lista o oncologista Fernando Maluf, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo. Se tratados direito, porém, tudo isso pode ser controlado numa boa.

O que dificulta pra valer a indicação e o acesso a essa terapia hoje é o preço. Uma única dose de imunoterápico chega a custar 30 mil dólares! Isso inviabiliza, por ora, seu uso em larga escala – imagine quanto fica a conta após quatro ou cinco aplicações. “Precisaremos de uma mobilização da indústria farmacêutica, dos médicos, dos planos de saúde e do governo para resolver essa equação”, diz o oncologista Rodrigo Munhoz, do Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista. Mas esse é um esforço que vale a pena: ao que tudo leva a crer, a medicina está somando muitos pontos na vitória da vida sobre o câncer.

É a cura?

Devagar com o andor: pelo que a ciência descobriu, a imunoterapia doma o tumor, que fica sob a vigília constante do sistema imune. Mas isso não pode ser considerado uma cura. “A perspectiva é transformar o câncer num problema crônico”, vislumbra Roger Miyake, diretor médico da Bristol-Myers Squibb, laboratório que tem duas drogas do tipo. A ideia é que, por meio desse tratamento e um estilo de vida saudável, a pessoa leve uma vida normal.

A imunoterapia em detalhes

Entenda como os fármacos dessa classe barram a comunicação do tumor com os linfócitos e, assim, possibilitam que o próprio corpo organize uma reação à doença

1.Traição molecular

A superfície da célula do tumor produz proteínas que se ligam a receptores presentes nos linfócitos – unidades do sistema imune que orquestram o ataque ao câncer.

2. Blecaute total

Essa conexão tem a capacidade de, literalmente, desligar a reação do linfócito frente ao tumor. As células cancerosas ficam livres para se expandir.

3. Corte de relações

Os imunoterápicos impedem que as proteínas do tumor alcancem os linfócitos. O remédio vem em forma de injeção – e o paciente toma uma dose a cada três semanas.

4. A revanche

Os linfócitos retornam à ativa e passam a enxergar o câncer como um inimigo que precisa ser extirpado. Aí partem pra cima. É o corpo se encarregando de enfrentar a doença.