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Márcio Bittencourt: “Não sabemos se Brasil terá segunda onda da Covid-19″

Especialista em epidemiologia que ganhou destaque por análises sobre a pandemia, o médico Márcio Bittencourt compara o cenário europeu com o brasileiro

Por Cristiane Bomfim, da Agência Einstein* Atualizado em 9 nov 2020, 18h57 - Publicado em 4 nov 2020, 16h37

A Europa vive uma segunda onda de Covid-19 que se espalha de forma rápida. Países como França e Alemanha já retomaram medidas de controle mais rígidas, inclusive com lockdown, para conter o repique de casos e mortes por coronavírus, o que já era previsto e esperado pela comunidade científica.

“Apesar das diferenças entre si, os vírus respiratórios têm um padrão recorrente de comportamento. Se avaliarmos as oito principais pandemias deste tipo desde 1700, vamos notar que pelo menos sete tiveram mais do que uma onda em alguma parte do mundo”, afirma Márcio Sommer Bittencourt, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein e pesquisador da Clínica Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo. Nas redes sociais, Bittencourt tem chamado a atenção por suas análises precisas sobre a pandemia.

Em conversa com a Agência Einstein, o médico discute quais são as principais causas da segunda onda do vírus pelo mundo e como medidas de intervenção diminuem o alastramento e agravamento da doença no Brasil.

Alemanha e França anunciaram novo lockdown, criando grande impacto nos mercados financeiros e assustando a população. Imaginava-se que a segunda onda viria?

Márcio S. Bittencourt: Sim, dava para imaginar que teria uma segunda onda. É simplesmente fazer uma avaliação histórica pregressa de outras pandemias. Apesar das diferenças entre si, os vírus respiratórios têm um padrão recorrente de comportamento. Se avaliarmos as oito principais pandemias deste tipo desde 1700, vamos notar que pelo menos sete tiveram mais que uma onda em alguma parte do mundo. Isso aconteceu com a Gripe Russa (de 1889 a 1890), a Gripe Espanhola (entre 1918 e 1919), a Gripe Asiática (de 1957 a 1958), a Gripe de Hong Kong (em 1968 e 1969), e, mais recentemente, a Gripe Suína (em 2009). Vale destacar que as pandemias anteriores foram causadas pelo vírus influenza. Então talvez nem todas as correlações ocorram da mesma forma.

O que explicaria a segunda onda na Europa?

Segundas ondas são caracterizadas pelo aumento do número de casos, internações ou óbitos por uma determinada doença depois de uma queda importante e um controle por um período em região geográfica delimitada. Mas não há uma definição formal de quanto deve cair e por quanto tempo a doença deve estar controlada antes do novo aumento para configurar a segunda onda. Uma segunda onda pode ocorrer por vários motivos, mas os principais envolvem comportamento humano, ou seja, como estamos lidando com o vírus e sazonalidade. Outros fatores como número de pessoas suscetíveis, duração de imunidade e mutações do vírus são outras possíveis explicações menos prováveis para uma segunda onda.

O mais provável é que seja uma combinação de ações de intervenção, como medidas de isolamento físico, que não foram suficientemente capazes de controlar a evolução do vírus ou foram interrompidas de forma precoce ou súbita.

Há a questão da sazonalidade do coronavírus, que aparentemente se transmite com maior facilidade nas mesmas épocas que o vírus da gripe. Na Europa, por exemplo, os picos são no outono e inverno. Já no Brasil, varia de acordo com a região: no Norte e Nordeste em períodos mais chuvosos, no Sudeste e no Sul nas estações mais frias.

Outras razões são a heterogeneidade da população e a imunidade temporária. Um exemplo para a heterogeneidade é o de uma população que ficou em casa e se protegeu contra o vírus durante a primeira onda e que pode estar na rua nesse momento e se contaminar. E sobre a imunidade, ainda não sabemos por quanto ela dura em quem já teve a doença.

A variação do vírus Sars-CoV-2 que começou a circular no verão europeu poderia ser também uma das causas dessa segunda onda?

Do ponto de vista teórico, uma mutação do vírus pode levar a uma nova onda, já que as variações, por terem características próprias, podem ser mais transmissíveis do que as outras. No entanto, a evidência atual não sugere que essa seja a explicação para o que está acontecendo na Europa. Há várias mutações do vírus mundo. Isso é comum e até agora não tem sido o motivo do aumento de casos, gravidade ou reinfecção.

A soma de fatores comportamentais e a sazonalidade são mais importantes para explicar esta segunda onda do novo coronavírus.

Os governos são responsáveis por essa segunda onda?

Os que negaram a gravidade da doença e se recusaram a fazer intervenções, como Estados Unidos, México e Brasil, no nível federal, têm responsabilidade pelos elevados casos de doentes e de mortes. Mas, como eu disse, são muitos fatores que contribuem para uma segunda onda.

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Países como Noruega e Alemanha tiveram estratégias prudentes, com a realização de ampla testagem e medidas para reduzir a chance de disseminação da doença, como isolamento de casos, quarentena de contatos, utilização de medidas de bloqueio e medidas como fechamento de comércio, restaurantes e bares. Apesar de estar ocorrendo uma segunda onda na Alemanha, a taxa de internações e óbitos é menor que em países vizinhos, e a intensificação das medidas deve ajudar no controle.

No entanto, acredito que Taiwan seja o melhor exemplo de quem fez a implementação ideal de todas as medidas. Com 23 milhões de habitantes, o país teve cerca de 500 casos confirmados de Covid-19 e sete mortes. Eles não tiveram a segunda onda e já flexibilizaram as medidas de distanciamento. Estão há 200 dias sem transmissão local.

Teremos segunda onda no Brasil?

Não é possível responder com certeza se teremos uma segunda onda. Até porque no Brasil ainda não ocorreu uma queda sustentada no número de casos. Estamos num platô.

É possível que tenhamos uma segunda onda nos períodos de transmissão mais intensa de vírus respiratórios no Brasil no ano que vem. Apesar disso, se uma proporção grande da população já tiver sido infectada, essa segunda onda pode não ser forte, ainda mais se continuarmos com uma transmissão intensa na comunidade até lá.

Mas, se a segunda onda ocorrer, a intensidade e gravidade do surto dependerão da nossa capacidade de aplicar medidas de intervenção e controle de forma mais adequada que na primeira onda.

A possibilidade de termos uma vacina no ano que vem pode nos ajudar a evitar essa nova onda?

Projeções de estudos de vacinas e dos programas de implementação são difíceis de serem feitas. Pessoalmente, eu acho pouco provável que tenhamos um programa de vacinação amplo para toda a população no primeiro semestre de 2021. E explico o motivo: o processo de desenvolvimento, produção e distribuição de uma vacina é longo e complexo.

Primeiro, precisamos mostrar que ela funciona e é segura. O passo seguinte é a aprovação da vacina no país de origem e depois no Brasil pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Depois, ela precisa ser produzida em grande escala e comprada pelo poder público. Os laboratórios têm capacidade limitada de fabricação e todos os países estão procurando fechar a compra de grandes quantidades. Vai receber a vacina quem comprar primeiro.

Depois disso, temos a questão de logística: a maior parte das vacinas precisa ser distribuída para todo o Brasil em veículos refrigerados. E, para a maioria delas, a imunização será feita em duas doses por pessoa. Ou seja, é preciso ter controle se as pessoas tomaram as duas doses para garantir que elas estejam protegidas e é preciso assegurar que quem tomou a primeira dose retornará ao serviço de saúde para a dose suplementar. Por fim, precisamos fazer com que a população procure o atendimento para receber a vacina.

Além disso, não sabemos quais nem quantas das vacinas em teste vão funcionar, porque elas ainda estão sendo testadas.

Como o Brasil poderia enfrentar uma segunda onda e lidar com os atendimentos para outras doenças que foram represadas durante o pico da pandemia?

O peso pode ser muito grande caso não haja intervenções sérias para o controle da doença, como testagem em massa, fechamento ou restrição de espaços, distanciamento físico, isolamento de casos, quarentena de contatos, uso de máscaras e higienização das mãos.

As pessoas imaginam que é só uma questão de ter ou não leitos de UTI nos hospitais para as pessoas com Covid-19. Mas temos que lembrar que, antes do novo coronavírus, esses leitos já eram ocupados por pessoas com outras doenças graves ou para o pós-cirúrgico. Quando os leitos de UTI são ocupados majoritariamente por pacientes com Covid-19, alguém está deixando de ser atendido. Pode ser uma pessoa que sofreu um infarto, um AVC, um acidente ou alguma cirurgia que está sendo suspensa ou adiada.

Esses remanejamentos impactam todo o sistema de saúde, desde os atendimentos simples até os mais críticos. Cria-se um gargalo que leva tempo para reorganizar. Para você ter uma ideia, eu estou atendendo agora pacientes que tinham consultas marcadas para março e que foram canceladas.

*Este conteúdo é da Agência Einstein

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