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Estudo discute caminhos para evitar novas pandemias como a do coronavírus

Para os cientistas americanos, uma das atitudes mais importantes é investir na preservação de florestas tropicais

Por Chloé Pinheiro - 30 jul 2020, 18h54

Até agora, o gasto mundial para conter os danos da Covid-19 está na casa dos U$2,6 trilhões, valor que pode aumentar em até 10 vezes. Por outro lado, U$30 bilhões ao ano seriam suficientes para evitar que uma nova pandemia como a do coronavírus dê as caras de surpresa, causando estragos irreparáveis na saúde e na economia.

Essa é a conta de pesquisadores da Universidade de Princeton, uma das mais prestigiadas do Estados Unidos, publicada em artigo no periódico Science. O trabalho foi realizado em conjunto por economistas, biólogos, epidemiologistas e outros especialistas em conservação ambiental.

O grupo afirma que a destruição das florestas tropicais e o comércio de animais selvagens são dois dos fatores que mais contribuem para o surgimento de patógenos com potencial epidêmico. Nos últimos anos, eles favoreceram, por exemplo, o aparecimento do HIV e do ebola. Agora, veio a Covid-19.

Isso porque a cada dois ou quatro anos, argumentam os autores, um vírus restrito aos animais “pula” para os humanos. Eventos do tipo andam mais comuns em decorrência do desmatamento, que diminui o hábitat natural de uma série de espécies capazes de transmitir esses micro-organismos aos humanos.

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Nem sempre a descoberta de um novo micro-organismo resultará necessariamente em uma pandemia. Mas a preservação do meio ambiente, o monitoramento constante de animais criados em fazendas (como porcos e bois) e a limitação do consumo e da venda de animais selvagens poderiam minimizar esse contato com novos vírus e ajudar a detectar precocemente ameaças como o Sars-CoV-2.

Tais intervenções custariam a todas as nações somadas um investimento entre U$20 e U$30 bilhões de dólares, calcula o artigo. Como comparação, este número equivale a 1 ou 2% do orçamento militar dos dez países mais ricos do mundo.

O comércio de animais selvagens

Todas as evidências apontam, até o momento, que o Sars-CoV-2 surgiu de uma espécie de morcego vendida para consumo humano na cidade de Wuhan, na China. Esse fato deu origem a um monte de atitudes preconceituosas, mas a verdade é que muitas pessoas dependem desse comércio para viver e se alimentar, pontuam os cientistas.

A solução, na visão dos pesquisadores, seria regular melhor a venda dos animais selvagens em comunidades que se sustentam assim, além de impedir e punir legalmente a negociação de certas espécies como artigos de luxo e para criação em cativeiros ocidentais.

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Cerca de U$500 milhões bastariam para isso. Eles deveriam ser investidos no treinamento de pessoas para manuseio dos animais, na detecção precoce de possíveis novos patógenos e na fiscalização ostensiva de vigilância sanitária em toda cadeia de produção desse tipo de carne – da caça à venda nos mercados.

Para ter ideia, a Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Selvagens Ameaçadas da Fauna e Flora (Cites, na sigla em inglês), organização internacional responsável por essa vigilância, conta agora com um orçamento de apenas U$6 milhões ao ano.

Protegendo as florestas

A conservação das florestas protege tanto a vida selvagem quanto a população humana, já que reduz o risco de contato com uma infinidade de vírus e bactérias ainda desconhecidos. Com o desmatamento, surgem mais áreas limítrofes, onde esses dois mundos passam a coexistir e, dessa maneira, a probabilidade do contato direto ou indireto (pela contaminação de um animal criado em uma fazenda, por exemplo) aumenta.

Fora isso, as mudanças climáticas, que tornam algumas áreas naturais inóspitas e alteram cadeias alimentares inteiras, podem forçar a migração de determinadas espécies para mais perto dos centros urbanos, o que também colabora na disseminação de novos patógenos.

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Os pesquisadores de Princeton estimam que as taxas de desmatamento poderiam cair pela metade com investimentos entre U$1,5 e U$9 bilhões ao ano.

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