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O mundo também é dos vírus. E o virologista e especialista em coronavírus Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP), guia nosso olhar sobre esses e outros micróbios que circulam por aí.
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Os vírus dos neandertais: uma viagem genética até o passado

Nosso colunista comenta estudo brasileiro que revela micro-organismos que conviveram com esses parentes da nossa espécie há milhares de anos

Por Paulo Eduardo Brandão
13 jun 2024, 17h30

As técnicas mais atuais para gerar sequências de DNA são extremamente poderosas e geram uma varredura completa de todos os genomas que podem existir em uma amostra, criando um gigantesco arquivo de dados que podem conter misturas de DNA de vírus, bactérias, protozoários, insetos, humanos e por aí vai.

A nova geração de métodos de leitura de DNA é chamada de Sequenciamento de Alto Desempenho e é extremamente útil para determinar a presença de patógenos em uma amostra de um paciente, estudar todos os micro-organismos em uma porção de solo ou água ou mesmo procurar uma doença genética.

A partir dessa imensa nuvem de dados, é possível separar cada DNA e dizer a que organismo ele pertence. Uma vez gerado, esse arquivo é compartilhado em dados públicos e pode ser acessado livremente para que pesquisadores interessados possam usá-lo para minerar no computador sequências de DNA do seu interesse, sem precisarem eles mesmo trabalhar no laboratório para produzi-las.

Essa metodologia tornou-se a preferida para investigar DNAs antigos, como o de Neandertais, nossos primos distantes, e vírus que conviveram com eles.

Um artigo científico recentemente publicado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) expôs esses arquivos de DNA gerados a partir de dois indivíduos neandertais e, por meio de ferramentas de bioinformática, detectou nas amostras indícios de adenovírus, herpesvírus e papilomavírus, vírus cujo genoma é feito de DNA e que causam doenças em seres humanos.

Para fazer isso, eles usaram como “isca” genomas desses vírus também disponíveis em bancos de dados públicos, que servem de base para extrair daquele imenso conjunto de dados sequenciais de DNA semelhantes – é meio como montar um quebra-cabeças olhando para a imagem que está na caixa, com a diferença de que as peças misturadas podem ser de centenas de quebra-cabeças totalmente diferentes.

Os autores usaram também os dados dos vírus que encontraram para medir o relógio molecular de cada um deles. Esse relógio, medido em mutações por ano, é baseado nas diferenças entre sequências de DNA e o tempo que existe de evolução entre eles. O interessante desse relógio é que, se temos o número de mutações e a velocidade de mutações, dá para descobrir quanto tempo existe entre uma linhagem e outra do organismo, uma viagem molecular no tempo.

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Os resultados indicam que neandertais podem ter tido papilomavírus, herpesvírus e adenovírus e os autores especulam que tais vírus possam ter tido algum papel no desaparecimento daquela espécie humana. A idade de 50 mil anos dos neandertais usados na pesquisa é condizente com o que eles estimaram para a divergência entre as versões antigas e atuais desse vírus e perfeitamente compatível com a existência de outas espécies de vírus antigos, que já foram até achados em intestinos de insetos fossilizados em âmbar de milhões de anos de idade.

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Mas há alguns pontos importantes que devemos considerar. Primeiro: onde estavam esses vírus? Ao contrário dos retrovírus como o HIV, os vírus cujos genes foram encontrados (papilomavírus, herpesvírus e adenovírus) não inserem seu DNA nos cromossomos de seus hospedeiros. O que quero dizer é que os DNAs destes vírus não estavam dentro do genoma dos neandertais, mas fora deles, flutuando perto do núcleo das células que infectaram.

Quando as células de desmontaram após a morte desses neandertais, o DNA viral pode ter ficado por ali, dentro dos dentes ou ossos de onde o genoma foi obtido. Isso deixa os DNAs virais mais desprotegidos e impede um acurácia maior nas sequências obtidas.

Nada disso tira o mérito do trabalho, claro, mas seria interessante realizar um estudo com um maior conjunto de dados de neandertais, o que permitiria validar os achados e entender a disseminação das sequências virais. Também teria sido útil empregar dados de sequências de pessoas dos tempos atuais para testar a acurácia do processo de bioinformática utilizado.

Como os próprios autores apontam, seria importante usar as amostras biológicas de onde esses arquivos de sequências de DNA foram geradas para buscar esses vírus de modo específico, usando a reação de PCR, aquela largamente utilizada na pandemia de Covid-19 – se o resultado fosse positivo, teríamos o xeque-mate: os vírus estavam lá mesmo.

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Não dá para saber quem pode ter passado o vírus para quem, ou seja, se nós pegamos dos neandertais ou passamos para eles. Os neandertais tinham uma sociedade complexa, inteligência avançada, sentimentos similares aos nossos e até mesmo tecnologia e are, como mostra o excepcional livro da arqueóloga britânica Rebecca Wragg Sykes Kindred: Neanderthal Life, Love, Death and Art.

De certa forma, eles não se extinguiram, pois vivem em nós, resultado de famílias mistas com as nossas que produziram a atual configuração genética da humanidade. Não trocamos só vírus, trocamos culturas também.

Seria difícil imaginar que todos esses encontros foram pacíficos. Também seria difícil prever quanto eles entenderiam de nosso mundo atual. Será que daria para discutir a Teoria da Relatividade Geral de Einstein com uma ou um desses nossos primos ? Quem sabe.

Mas certamente eles não teriam dificuldade em entender uma frase do mesmo Einstein: “A paz é a única forma de nos sentirmos realmente humanos.”

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