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Não podemos tapar os ouvidos: a psicanálise e o autismo

No mês de conscientização sobre o autismo, psicóloga reflete sobre papel da escuta e da análise para quem convive com a condição

Por Fernanda Zacharewicz, psicanalista* Atualizado em 26 abr 2021, 09h43 - Publicado em 26 abr 2021, 09h41

Ao final do curso de psicologia, trabalhei em uma escola que recebia crianças e jovens com diagnóstico de autismo. Ainda faltavam anos para a psicanálise se tornar parte central da minha formação. E um daqueles jovens da escola tem habitado as minhas lembranças.

Ele era alto e forte. Ao repetir as palavras finais das frases, ele o fazia em tom bastante agudo, não condizendo com suas características físicas. Quando chamávamos o seu nome, tapava os ouvidos com ambas as mãos e gritava de forma estridente. Seu grito ocupava toda a sala e, acuada, eu silenciava.

Ainda no afã dos psicólogos recém-malformados, que buscam compreender e acreditam no ideal de proporcionar às pessoas uma vida mais adaptada à sociedade na qual teoricamente estão inseridas, o comportamento daquele jovem despertava em mim a vontade de apaziguá-lo o mais rápido possível.

Queria propiciar a ele um retorno a uma quietude mais próxima do silêncio do que do encontro de si mesmo. Foram precisos vários anos para me dar conta de que, a cada grito seu, eu tapei os ouvidos.

Hoje sei que há vivências que somente adquirem sentido depois de certo tempo, com a decantação dos afetos e um maior conhecimento da teoria. Eu tapei os ouvidos para a diferença fundamental daquele jovem, para a marca da sua singularidade como sujeito. Eximi-me de estar ao seu lado, de me atentar às repetições e estereotipias (as marcas sintomáticas fortemente reproduzidas e repetidas no comportamento do autista), que acenam para a possibilidade da escuta da angústia, mote de todo tratamento analítico.

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Os psicanalistas franceses Isabelle Orrado e Jean-Michel Vives, no livro recém-lançado Autismo e Mediação – Bricolar Uma Solução para Cada Um (Aller Editora), defendem o necessário traquejo do analista na criação, em todo o tratamento, das vias necessárias para a escuta do sujeito a partir do que ele traz às sessões. Aí está o material disponível e, ao mesmo tempo, suficiente para que o processo analítico aconteça. Simples, não?

Não. Para manejar as diversas variáveis presentes na análise, é fundamental o compromisso contínuo com o estudo e o desenvolvimento da teoria psicanalítica. A cada grito proferido, está em jogo a relação do sujeito com a voz, “entendida como aquilo que carrega e indica a presença do sujeito da enunciação e, portanto, do desejo que o faz existir”, de acordo com os autores. O grito que cria o silêncio dá notícias de seu desejo.

Compreender as estereotipias como construção de uma borda separadora e protetora quando o mundo do sujeito se despedaça sinaliza ao analista quão importante é, para o sujeito autista, manter a constância de um mundo no qual cada coisa tem o seu lugar.

A partir do entendimento de que todo sujeito é digno de sua existência segundo as suas escolhas estruturais é que se abre a percepção da diversidade de possibilidades de estar no mundo e de se relacionar com o outro de forma única e com base em seu próprio estilo. Neste mês em que se celebra a conscientização sobre o autismo, fica o compromisso com o trabalho árduo no auxílio do encontro de cada sujeito com a sua própria voz. Destapando os ouvidos, minhas mãos ficam livres para o trabalho artesanal que guia a escuta daquele que nos procura a cada sessão.

* Fernanda Zacharewicz é psicanalista, doutora em psicologia social pela PUC-SP, editora da Aller Editora e coordenadora da Styllus – Revista de Psicanálise

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